Mais casos de cancro levam estratégia antitabaco a focar-se nas mulheres

Programa Nacional para as Doenças Oncológicas relaciona evolução da mortalidade entre 2014 e 2015 com alterações do consumo do tabaco por género.

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Equipa de Investigação no IPO de Lisboa Fábio Augusto

O cancro do pulmão continua a ser aquele que mais mata em Portugal e a sua taxa de mortalidade aumentou em 2015 entre as mulheres, tendo diminuído o número de óbitos entre os homens. São algumas das principais conclusões do mais recente relatório do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas, apresentado nesta quinta-feira.

Em resposta ao PÚBLICO sobre se existe uma estratégia específica para combater o tabagismo entre as mulheres, o secretário de Estado adjunto e da Saúde, Fernando Araújo, diz que sim. “O Ministério da Saúde está focado, nesta fase, na formação e informação sobre os efeitos negativos do tabaco, dirigindo-se fundamentalmente às mulheres e aos jovens e adolescentes.” Nesta área “o que se pretende é atrasar o primeiro contacto com o tabaco”.

Fernando Araújo disse ainda que “no final de 2016 foi conseguido pela primeira vez que todos os ACES [agrupamentos de centros de saúde] possuíssem pelo menos uma consulta deste tipo nos cuidados de saúde primários, de forma a aumentar a sua acessibilidade”. Também “a comparticipação inovadora dos fármacos antitabágicos já resultou num aumento da sua utilização em cerca de 69%”, informou, o que “resultará certamente numa capacidade de redução do consumo, em geral, mas também nas mulheres”.

O documento apresentado no Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto traça um retrato do estado da doença e dos doentes oncológicos entre 2014 e 2015. E mostra que o número de doentes com cancro continua a aumentar, seguindo a tendência dos últimos anos. Em 2010, tinham sido diagnosticados 46.724 casos. Esse número terá subido para 50.638, de acordo com as projecções para 2015.

A incidência das doenças oncológicas cresceu entre 2014 e 2015 a uma taxa de 3% ao ano, seguindo o mesmo padrão dos outros países europeus e em consequência do envelhecimento da população. A idade média dos doentes é hoje mais alta.

“Malefício fiscal”

Graças a estudos de assimetrias regionais, foi possível observar uma “variação geográfica significativa” na Região Autónoma dos Açores, lê-se no relatório. E a única assimetria significativa encontrada é justamente essa que aponta para o aumento das mortes por cancro do pulmão nos Açores, disse ao PÚBLICO Nuno Miranda, coordenador do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas.

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Aumentar

“Deve-se essencialmente às mortes por cancro do pulmão relacionadas com o consumo do tabaco”, acrescentou. O padrão de consumo de tabaco nos Açores resulta do que o responsável qualifica de um “malefício fiscal” — os impostos sobre o tabaco cobrados na região são mais baixos do que no resto do país.

De forma semelhante, a prevalência do cancro no estômago apresenta uma mortalidade significativamente mais alta na região norte de Portugal, o que de acordo com o relatório está “estreitamente relacionado com hábitos alimentares” e vai ao encontro de uma das conclusões do documento que é a de que “a maioria das variações regionais está associada a tumores dependentes dos estilos de vida”. É no Alentejo que mais pessoas morrem por cancro colorrectal.

Voltando ao cancro maligno da traqueia, brônquios e pulmão, no total, entre 2011 e 2015, os óbitos causados por este tipo de cancro aumentaram de 3705 para 4015. Os homens continuam a representar cerca de três quartos dos casos, mas neste grupo a mortalidade começou a baixar a partir de 2013 (de 3147 mortos nesse ano para 3035 em 2015). O relatório atribui a inflexão no universo dos homens a “anos de campanhas de luta antitabagismo”. Entre as mulheres (um quarto das mortes) a tendência foi, desde 2011, para um aumento. Em 2015, 980 mulheres morreram por essa razão. Em 2011 tinham sido 811.

Mais sobreviventes

No geral, o facto de haver mais sobreviventes significa que “os resultados dos tratamentos são satisfatórios”, de acordo com Nuno Miranda. Cerca de metade das pessoas com cancro sobrevivem — curadas ou em tratamento.

O secretário de Estado, Fernando Araújo, não chegou a dizer, nas respostas enviadas, quantas pessoas têm acesso a cuidados paliativos e quantas terão no final da legislatura, mas referiu “várias medidas que estão a ser implementadas”. Entre elas, “a criação de equipas intra-hospitalares de suporte em cuidados paliativos”, sendo intenção do Governo que “até final de 2017 todos os hospitais possuam esta vertente”.

Foi também divulgado o Relatório Nacional dos Rastreios, de acordo com o qual se expandiu a cobertura geográfica dos rastreios a utentes. O rastreio do cancro da mama e do cancro do colo do útero são os que têm uma maior e mais significativa cobertura nacional. Em 2015, morreram em Portugal 1683 mulheres por cancro da mama, mais 23 do que em 2014 e mais 43 do que em 2013. O número de mortes por tumor maligno do colo do útero manteve-se em 2015 (201 vítimas) quase inalterado relativamente a 2013.