Nelson Garrido
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“O Porto é de todos, não vamos desistir”

Manifestação vai estacionar este sábado, às 15 horas, em frente à câmara do Porto. Para reclamar outra política de habitação para a cidade. O turismo é bem-vindo, dizem, mas a prioridade têm de ser os portuenses

Ana Barbosa é a única moradora do seu prédio de quatro pisos na baixa do Porto. O primeiro aviso do senhorio chegou há já dois anos, quando a proprietária do edifício faleceu e os herdeiros começaram a desenhar um projecto diferente para o imóvel. A ordem para sair tem Setembro do próximo ano como limite. Mas os vizinhos já aceitaram abandonar as casas. Ana não baixa a guarda — ficará até ao fim, com “esperança de que algo mude”. Mas a resistência não é pacífica. A campainha deixou de funcionar, o correio está muitas vezes inacessível, as obras na fachada tiraram-lhe a luz da casa, trouxeram barulho. “Viver sozinha num prédio é difícil”, diz ao P3 com a Avenida dos Aliados como cenário, pouco depois de ter ajudado a distribuir panfletos para convocar gente para a manifestação “O Porto não se vende”, que este sábado (15h) vai reivindicar para a cidade uma “política de habitação que não expulse os portuenses”.

Salvaguardadas as devidas distâncias, a realidade de Ana Barbosa assemelha-se à ficção da actriz Sónia Braga, em Aquarius. No filme de Kleber Mendonça Filho conta-se a história de uma jornalista aposentada que defende o apartamento onde viveu toda a vida do assédio de uma construtora que lá quer erguer um empreendimento de luxo. Mas desta vez é real — e acontece no Porto em vez do Recife, no Brasil. Ana Barbosa reconhece a analogia. E o problema, diz, é que ela é apenas uma entre os muitos portuenses a passarem pelo mesmo sufoco.

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No prédio ao lado do seu, “a dona Alice acabou por desistir”. Houve um momento em que também ela era a única a viver ali, depois de todos os vizinhos aceitarem fechar as portas. Mas a pressão acabou por falar mais alto — e a portuense, que ali morava há mais de 60 anos, acabou por ir para o Bairro de Santa Luzia, em Paranhos, já nos limites do Porto. “Pediu uma habitação social, não tinha como pagar uma renda”, conta Ana, 28 anos, gestora de marketing.

A hora de almoço aproxima-se e os Aliados vivem um dia normal. Há autocarros turísticos, pessoas de mapa na mão, máquinas fotográficas e telemóveis ao alto. De repente, os olhares colados na longa avenida ou no imponente edifício da Câmara Municipal do Porto desviam-se para uma gigante faixa branca de letras azuis: “O Porto não se vende”. A segurá-la estão quatro pessoas de máscaras brancas, de frente para o hotel de luxo InterContinental. Outros distribuem panfletos — em português e inglês. Pedem a atenção da cidade, que se pense na gentrificação, no turismo descontrolado, no direito à habitação.

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O impacto é imediato. Edgar Fernandez e Zaida Castillo vão cochichando. Ele é espanhol, ela peruana, ele um repetente no Porto, ela uma estreante. Nunca tinham ouvido falar da lista de reivindicações da manifestação organizada no âmbito da passagem da Caravana da Habitação pelo Porto e apoiada por cerca de 20 associações e colectivos. “Quer dizer que os turistas são um problema?”, espanta-se Edgar Fernandez, “nunca tinha pensado que isso era possível”. Zaida Castillo acena: “É um destino muito barato, isso chama muita gente. Espero que se encontre uma solução boa para todos.”

“É o mesmo que se passa em Madrid e Barcelona”

Menos espantado parece um grupo de espanhóis e italianos acompanhados por um guia de bandeirinha na mão. “Têm cinco minutos para tirar fotografias aqui”, diz-lhes, “depois vamos almoçar”. A câmara do Porto no cimo da avenida e a estátua de D. Pedro IV mesmo ali ao lado já não são a atracção principal. “É o mesmo que se passa em Madrid e Barcelona”, comenta uma turista perante o gesto de concordância de outra: “É preciso mudar isto!”

Quem não está para manifestações é António Oliveira, 79 anos, “portuense de gema e com muito orgulho”. Olha indignado para quem vai distribuindo panfletos, irrita-se com as máscaras. “Reprovo completamente esta atitude”, revolta-se. “Apoiante convicto” do presidente Rui Moreira, não compreende as reclamações ali feitas: “O Porto está muito melhor, não me sinto nada prejudicado. Pode haver casos menos bons, mas são pontuais, oxalá venham ainda mais turistas.”

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Fernando Pimenta, membro da organização colectiva da manifestação, quer deixar a letras garrafais uma ideia antes de ir ao ponto central: “Não somos contra o turismo, só queremos encontrar um equilíbrio”, explica. “Que o emprego criado no sector não seja precário, por exemplo, que haja uma distribuição do investimento público na habitação, que haja maior controlo das rendas”.

Neste sábado, em frente à câmara, os activistas não levam só respostas. Querem também ouvir sugestões — têm, aliás, pedido aos portuenses que enviem testemunhos e ideias para uma cidade mais equilibrada. Já receberam mais de 30. Muitos relatam estar a ser expulsos das suas casas: “Os senhorios aproveitam o boom turístico para rentabilizar os imóveis com alojamento local ou pedem rendas incomportáveis”. Na Baixa do Porto não é difícil encontrar T0 a 500 ou mesmo 700 euros. “A desregulação é completa”, lamenta Fernando Pimenta, 22 anos, estudante da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto que gostaria também de ver uma maior aposta em alojamento universitário: “Aliviaria bastante o mercado”, sugere.

“Sem saudosismos”, os activistas querem questionar o rumo do Porto: “A cidade está mais bonita, mas as pessoas que cá vivem não podem ser esquecidas e excluídas destas mudanças.” A posição não é, no entanto, unânime. Como comprova a chegada de dois agentes da Polícia de Segurança Pública durante esta acção de divulgação. Alguém os terá chamado.

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Pedem-se identificações, os activistas recusam. Aquela iniciativa, argumenta a PSP, necessita de uma autorização prévia. O pequeno grupo contesta: se qualquer pessoa precisa de autorização para distribuir panfletos então a polícia teria de autuar todos os dias as empresas de turismo que o fazem na baixa do Porto. “E até bandeirinhas usam.” Perante a recusa, um dos agentes chama a superior. Conversa para a frente e para trás. A agente cita o decreto-lei 406, de Agosto de 1974: qualquer reunião em espaço público deve ser comunicada por escrito com 48 horas de antecedência. Mas concede o desconhecimento. Retira-se a faixa. Os activistas dispersam. Mas só por agora. Este sábado voltam à rua, com a promessa de não baixar os braços: “O Porto é de todos, não vamos desistir.”