Crítica

Moses Sumney: uma imensa oração pela solidão

Soul fantasmagórica, espacial, oceânica, marcada por uma voz celestial. Entra-se no álbum de estreia de Moses Sumney e nunca mais se sai dele.

Entra-se no álbum de estreia de Moses Sumney e nunca mais se sai dele
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Entra-se no álbum de estreia de Moses Sumney e nunca mais se sai dele

 Somos seres sociais. Precisamos uns dos outros. Mas, alega Moses Sumney, 26 anos, a habitar em Los Angeles, que o encontro com o outro não tem de acontecer necessariamente na forma de amor romantizado, essa construção social de que só nos completamos quando encontramos uma alma gémea, seja lá o que isso significar.

 Em Aromanticism, o seu notável álbum de estreia, discorre sobre como a solidão pode ser em simultâneo conforto e desafio, em contraponto a essa noção hegemónica do amor romantizado. Não porque professe o autoisolamento, mas porque deixámos de saber estar a sós, coisa essencial quando nos queremos entregar aos outros.

 Ouve-se como uma espécie de oração do início ao fim, o que não deixa de ser surpreendente porque as canções foram sendo compostas ao longo dos três últimos anos. Moses Sumney não é um novato para os mais atentos, tendo lançado alguns singles que já antecipavam o que está aqui: um conjunto canções soul distendidas, vulneráveis, com traços de folk, jazz e electrónica, como se Moses cantasse para si próprio e, nesse movimento, nos tocasse a todos.

 É possível pensar em muitas outras figuras históricas – de Nina Simone a Nick Drake – ou das que foram reinventando a soul nos últimos anos para o enquadrar, mas apenas a partir de ângulos particulares (de James Blake a Benjamin Clementine, de Frank Ocean a FKA Twigs, de Solange a Sevdaliza), porque no todo é muito singular, voz imensa em falsete, dedilhar acústico e orquestrações clássicas, e depois um rumor ambiental infinito em redor, criando uma soul oceânica, com tempo e espaço para divagar e se deixar enlevar, que em vez de entristecer, acaba por envolver.

 Há baladas apenas para voz e digitalismo espacial (como na excelente Doomed, com ele a interrogar-se sobre uma existência sem amor), para voz, guitarra acústica e ecos (Indulge me, Dont bother calling, Plastic), ou para ligeiros e celestiais apontamentos jazzísticos (Quarrel, Make out in my car). A única canção que, por momentos, escapa à serenidade é Lonely world, com a batida electrónica a irromper como se Moses tomasse consciência de que não está só.

 Na criação do álbum propriamente dito não esteve só, cantando, compondo, orquestrando e improvisando em baixo, sintetizadores e guitarra com o auxílio de Thundercat, Paris Strother (King), Matt Otto (Majical Cloudz) ou Nicole Miglis (Hundred Waters). Ainda assim é daquelas obras saídas de um universo próprio, como se a sua função fosse estar a um canto, à margem, pronto a conduzir-nos à intimidade. É desses discos que a cada nova audição se transforma num instrumento de descoberta da realidade, com a música a ter a capacidade de traduzir de forma simples e poética realidades complexas. Não são necessários grandes artifícios.  Basta uma voz, uma guitarra, alguns ecos e orquestrações e muito espaço. Magnífico.