Mulheres estão a consumir mais álcool, tabaco e cannabis

Dados do Inquérito Nacional à População Geral apresentado terça-feira ainda são preliminares mas vão obrigar a afinar estratégia nacional. "Há que encontrar formas mais eficazes de fazer prevenção junto das mulheres”.

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Daniel Rocha

O comportamento das mulheres está a alterar-se. Respondem em boa parte, por vezes ainda mais do que os homens, pelo aumento do consumo de bebidas alcoólicas, tabaco e cannabis que se verificou nos últimos cinco anos em Portugal. É o que consta no Inquérito Nacional à População Geral apresentado nesta terça-feira em Lisboa, que vai obrigar o Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD) a repensar estratégias.

“Há que encontrar formas mais eficazes de fazer prevenção junto das mulheres”, admite João Goulão, director nacional do SICAD. A intervenção está muito limitada às grávidas e visa, sobretudo, prevenir o síndrome fetal alcoólico. “Há que alertar para outras consequências, como o cancro da mama.” Há estudos epistemológicos que confirmam que o álcool causa cancro da faringe, laringe, esófago, fígado, cólon, recto e mama.

Já lá vão 16 anos desde o primeiro inquérito que permite perceber o consumo de substâncias lícitas (álcool, tabaco, medicamentos, isto é, sedativos, tranquilizantes e/ou hipnóticos, e esteróides anabolizantes) e ilícitas (cannabis, ecstasy, anfetaminas, cocaína, heroína, LSD, cogumelos mágicos e novas substâncias psicoactivas). Fez-se em 2001 e repetiu-se em 2007, 2012 e 2016/17. 

Esta terça-feira de manhã foi apresentado um resumo com os dados preliminares das respostas recolhidas entre Dezembro de 2016 e Julho de 2017, através de inquéritos aplicados a 12 mil pessoas entre os 15 e os 74 anos. Os investigadores estão ainda “a validar a consistência de alguns pontos de amostragem cujos efeitos poderão permitir ajustar alguns resultados”. Porém, o resumo deste relatório fornecido pelo SICAD não menciona números comparativos.  

Subida nos últimos cinco anos

O estudo – coordenado pelo sociólogo Casimiro Marques Balsa, professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Lisboa – mostra que houve um aumento de consumos entre 2001 e 2007 e uma estabilização ou até uma ligeira redução entre 2007 e 2012, embora com subidas nalguns indicadores, e que nos últimos cinco anos houve uma subida dos consumos de álcool, tabaco e cannabis.

Se olharmos para a prevalência ao longo da vida, o consumo de bebidas alcoólicas apresenta uma tendência de subida quer entre homens, quer entre mulheres. Os valores acima da média foram encontrados entre os consumidores mais velhos (35 e os 64 anos). No consumo de tabaco a subida é ligeira e deve-se, sobretudo, às mulheres. Nos medicamentos há uma descida, sem diferença de género.

Na cannabis, nota-se uma subida nos dois géneros atendendo à população total, uma descida entre os homens e uma subida entre as mulheres atendendo à população jovem, isto é, entre os 15 e os 34 anos. Na cocaína a tendência é de ligeira subida na população total e de descida entre jovens. Já no que diz respeito à heroína, a prevalência encontrada é igual à verificada em 2012, quer entre a população total, quer entre a população jovem. O estudo detecta um recuo entre os homens e uma subida entre as mulheres. Em todas as outras substâncias ilícitas há uma descida das prevalências de consumo ao longo da vida.

Aumentos de consumo sem explicação

João Goulão não encontra nos dados agora revelados quaisquer explicações para os aumentos nos consumos. “Temos de cruzar variáveis para obter mais informação e orientar a nossa acção”, comenta, numa conversa telefónica. Lança, ainda assim, algumas hipóteses para cima da mesa.

O aumento do consumo de cannabis, de que já tinha conhecimento por outras vias, não lhe parece alheio aos movimentos pró-legalização. “A regulamentação do uso terapêutico, que já existe em alguns Estados, é usado como cavalo de Tróia por quem defende a legalização do uso recreativo”, diz. “Passa-se a ideia de que é tão bom que até é usado no tratamento de doenças. E essa discussão vai fazendo um caminho que é difícil de desmentir”, apesar de a cannabis herbácea que se produz a nível doméstico, na Europa, nunca ter tido tanto teor de THC. E de não serem suaves os canabinóides sintéticos detectados pelo sistema de alerta rápido da União Europeia.

O aumento do consumo de bebidas alcoólicas afigurar-se-lhe mais difícil de interpretar. Julga que diversos factores podem concorrer para esse fim. Importa, por exemplo, perceber os efeitos da crise financeira, económica e social. Será evidente que a vida nocturna é hoje mais vibrante em muitas cidades portuguesas. “A retoma económica, que já se vai sentido de algum modo, reflecte-se no consumo recreativo?”, questiona. “As pessoas têm mais dinheiro no bolso para gastar nisso?”

Não lhe parece adequado usar estes dados para questionar a eficácia das campanhas que foram sendo feitas nos últimos anos. “O que teria acontecido se não tivéssemos feito campanhas?”, pergunta. “Se olharmos para outros países europeus vimos consumos muito superiores.”

A esmagadora maioria da população nunca experimentou substâncias psicoactivas ilícitas (90%). Quase toda a gente se absteve de consumir cogumelos alucinogénios e novas substâncias psicoactivas (99,8%). O mesmo não se poderá dizer das substâncias lícitas. Só metade da população se abstém de fumar cigarros. E só 13% dizem o mesmo sobre bebidas alcoólicas.

Bebidas alcoólicas são a droga de eleição

As bebidas alcoólicas são a droga de eleição de quase metade dos consumidores recorrentes de algum tipo de substância (48%). No caso especifico das drogas ilícitas, a cannabis é a que apresenta maior número de declarações que assumem um consumo com frequência mais regular.

De acordo com o resumo do estudo, “4,9% da população apresenta um consumo de bebidas alcoólicas sem risco, 37,1% um consumo de baixo risco e 12,6% um consumo de risco médio”. É de 3,6 “a percentagem de consumidores de risco elevado/dependentes alcoólicos”. E “é de 1% a prevalência da população residente em Portugal consumidora abusiva ou dependente de bebidas alcoólicas”. O valor é mais elevado entre os homens (1,7%) do que entre mulheres (0,4%).

No caso do consumo de cannabis, “0,6% da população apresenta um risco moderado ou elevado”. Há ainda 0,8% que apresenta um risco baixo e 3% que não apresenta quaisquer riscos associados ao consumo desta droga. Estes consumos de risco moderado e elevado são mais significativos entre homens.

A idade média do início dos consumos varia de acordo com a substância. O primeiro cigarro fuma-se, em média, aos 17 anos. A primeira bebida alcoólica também é ingerida, por norma, nessa idade. O consumo regular de tabaco e de cannabis, esse, tende a acontecer por volta dos 18 anos.

Quando se procura analisar a duração dos consumos, nenhuma substância bate o álcool. A duração média é de 25 a 26 anos. Segue-se o tabaco, acima dos 20 anos. Entre as substâncias ilícitas, a cannabis e na cocaína são as drogas associadas aos consumos mais longos (em torno dos 15 anos).

“Para já, este estudo levanta mais inquietações do que respostas”, conclui. Mesmo assim, irá usá-lo para “afinar a estratégia 2013-2020”. Chega a tempo do Plano de Acção para a Redução dos Comportamentos Aditivos e das Dependências 2017-2020, que deverá ser lançado até ao final do ano.