Alemanha: Contra os neonazis, fazendo troça deles

Combater o extremismo com humor, levando-o a contribuir para organizações que promovem a inclusão: na Alemanha uma organização dá o exemplo

Foto
A proibição de exibir símbolos nazis é contornada de várias maneiras ALEXANDER BECHER/EPA

Foi uma ideia que saiu “de cigarros e cerveja”, diz Fabian Wichmann, da organização Exit-Deutschland, que ajuda no processo de saída de neonazis dos grupos de extrema-direita. Todos os anos, um grupo de neonazis marcha até ao local em que foi enterrado o antigo líder nazi Rudolf Hess, na cidade de Wunsiedel, na Baviera. Os habitantes estavam fartos, já tinham tentado tudo: a campa foi retirada, houve contra-manifestações, nada resultou. Até que surgiu a ideia: pô-los a marchar contra si próprios, fazendo ao mesmo tempo troça deles.

Organizações locais, empresas, habitantes, prometeram doar dez euros por cada metro caminhado pela marcha neonazi. Os neonazis não sabiam, mas iam sendo acompanhados por linhas no chão “Obrigado por 2500 euros!”, por cartazes cor-de-rosa (“Ah, se o Führer soubesse…”), e no final houve confetti e certificados atestando que a marcha tinha acabado de resultar na doação de dez mil euros para… a Exit-Deutschland.

A acção “Rechts gegen Rechts” (direita contra direita) foi feita em 2014 e foi planeada para poder ser viral. “Mas não sabíamos se ia resultar”, diz Wichmann. “E nunca imaginámos que pudesse ter este alcance.” Este ano houve um novo pico depois de um artigo do New York Times apresentar a ideia como uma solução para acções de extrema-direita como a de Charlottesville, EUA (em Agosto), num artigo com o título “como troçar dos nazis”.

O propósito maior não era o dinheiro. “Estas marchas [neonazis] são manifestações de poder”, diz Wichmann. O modo como marcham, sérios, vestidos de negro, tinha um contraponto no rosa festivo dos cartazes. “Queríamos mesmo ter uma nova narrativa que fosse maior e mais poderosa.”

Foto
Marcha neonazi Exit-Deutschland

O trabalho foi feito também em colaboração com os habitantes da cidade. Wichmann gostaria de repetir a iniciativa, mesmo tendo-se perdido o factor-surpresa. “É totalmente replicável. Mas as pessoas têm medo e para já não querem”, diz.

Se em Wunsiedel  não vai acontecer previsivelmente tão cedo, têm sido feitas acções semelhantes noutras cidades, e também nas redes sociais.

“Obrigado pelo seu comentário”

Na Alemanha, os comentários de ódio são proibidos e podem levar a processos contra quem os faça. Já há algum tempo que as autoridades estão a pressionar redes sociais como o Facebook ou o Twitter para que ajam mais rapidamente na retirada deste tipo de comentários.

Mas isto não está a acontecer, o que abriu espaço para a Exit levar a cabo outra campanha: mais uma vez, empresas e organizações comprometem-se a doar uma dada quantia por cada comentário de ódio identificado. Este fica guardado num print screen e quem o fez recebe uma mensagem dizendo: “Muito obrigado. Com este comentário de ódio acabou inadvertidamente de contribuir com um euro para uma organização” de integração, apoio a refugiados, ou algo semelhante, conta Wichmann.

As reacções são variadas. “Há muito poucos autores destes comentários que respondem desculpando-se”, nota. “Também há quem depois apague.” Por outro lado, já há muitos utilizadores do Facebook a chamar a atenção para comentários, aumentando o alcance da acção. “Desde Outubro de 2015 angariámos mais de 50 mil euros deste modo”, diz.

Entre as acções mais conhecidas da Exit está também a T-Shirt de Tróia: num festival de música neonazi venderam t-shirts aparentemente conotadas com o nazismo. Mas depois de uma lavagem, o motivo original saía e aparecia a mensagem: “Se isto saiu, tu também podes sair” e o contacto da organização.

Obviamente não é isto que vai levar um neonazi convicto a sair do seu grupo. O que se pretende é deixar uma ideia de opção. Se mais tarde a pessoa começar a ter dúvidas – em geral o processo é longo e nem sempre há um “clique” concreto – sabe que poderá ter ajuda.

Saudação 88

Das primeiras coisas que Wichmann diz é que não há um neonazi típico e sobretudo não há só cabeças rapadas sem grande formação. “Há pessoas assim, claro, mas também há advogados, pessoas com meios financeiros, bem integradas na sociedade. É um grupo muito diversificado”, diz Wichmann.

Por isso os processos de saída são diferentes. Há casos em que o grupo está ainda ligado a actividades criminosas, e é essencial para a pessoa até em termos de emprego. Há casos mais extremos, de pessoas que têm de mudar de cidade, de identidade. Há outros em que basta cobrir ou apagar tatuagens.

Quão visíveis são os neonazis também depende. A proibição de exibir símbolos nazis é contornada de várias maneiras – recentemente, numa manifestação em Berlim, manifestantes saíam de uma tenda da polícia com faixas negras à volta de braços, por exemplo, para cobrir as tatuagens. Estas não são proibidas só por si, apenas a sua exibição, explica Wichmann.

O uso de Heil Hitler, a saudação nazi, também é proibido, daí os neonazis usarem muito 88 (H é a oitava letra do alfabeto), suásticas são sugeridas mas não desenhadas, expressões são escritas sem vogais. Outras vezes há um estilo concreto. Recentemente apareceram os nipsters, ou nazi hipsters.

Wichmann diz que até agora as mudanças políticas na Alemanha, com um pequeno partido xenófobo cada vez mais aceite, não afectam o seu trabalho. “O nosso público-alvo é mesmo muito específico”, nota. A política em geral é relativamente irrelevante para estas pessoas. “Mas isso”, avisa, “poderá mudar quando entrarem no Parlamento”.