A “universidade” das empresas do IPN está nomeada para prémio europeu

"Aceleradora" pega em empresas de base tecnológica e ajuda-as a crescer e a expandir-se para novos mercados. Há 23 a trabalhar nas instalações do Instituo Pedro Nunes.

Foto
Adriano Miranda

“Na incubadora fazemos o infantário, creche e primária. Depois, na ‘aceleradora’ fazemos o secundário e a universidade”, diz o director da TecBis, Paulo Santos. Esta será talvez a forma mais simples de apresentar a TecBis, a “aceleradora” de empresas do Instituto Pedro Nunes (IPN).

Substitua-se “crianças” por “start-ups”, “jovens por “empresas” e percebemos melhor como funciona a metáfora do responsável pela estrutura sediada em Coimbra. Se na incubadora — a actividade de origem do IPN que arrancou em 1995 — a instituição ajuda as start-ups a dar os primeiros passos com o objectivo de aumentar a sua taxa de sobrevivência, a “aceleradora” é destinada a empresas já noutra fase de maturação. “Aqui já é a Champions League”, começa por dizer Paulo Santos que, com Rui Miranda, coordenador da TecBis, nos vai levar numa visita pelos corredores da “aceleradora”.

Nas salas do edifício D do IPN estão as empresas “que mostram maior ambição, que já passaram o vale da morte” — ou seja, que sobreviveram à fase de start-up e que estão “vocacionadas para a internacionalização e intensificação tecnológica”.

É esse trabalho iniciado em 2014 que a Comissão Europeia reconhece, através da nomeação para o prémio Regiostars, atribuído a projectos que configurem boas práticas regionais financiadas por fundos comunitários. A TecBis, que conta com investimento total de 8,2 milhões de euros (7 milhões dos quais provêm do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional), está nomeada na categoria Especialização Inteligente para Inovação de Pequenas e Médias Empresas e a decisão vai ser conhecida no próximo 10 de Outubro, em Bruxelas.

Em média, 50% do volume de facturação das empresas sediadas na TecBis provém do estrangeiro, aponta Rui Miranda. “É esse o caminho que as pequenas e médias empresas devem seguir”, argumenta Paulo Santos. Em Portugal, a taxa de exportações em percentagem do PIB ronda 40%, mas “tem de se fazer mais”.

Um voo para médicos

“Encontramos aqui uma amostra do que um país como Portugal deve procurar”, afirma Paulo Santos, ao entrar na sala da Take the Wind. E por “amostra” o responsável refere-se à facturação de 2,3 milhões de euros em 2016, com 93% a ter origem em mercados estrangeiros, sendo os maiores os EUA e a China.

O seu produto principal é o Body Interact, “um simulador de voo para médicos e enfermeiros”, descreve o CEO da empresa, Pedro Pinto. No fundo, o programa treina em ambiente digital os profissionais de saúde, desde o diagnóstico até à resolução. O público-alvo vai desde estudantes de Medicina à certificação de profissionais.

A Take the Wind começou em 2008 como start-up. Depois de seis anos de incubação, passou a empresa e tem hoje operações em 23 países. Conta com 28 trabalhadores de áreas tão distintas que vão da programação à psicologia ou do design às ciências biomédicas.

Só na TecBis estão 600 trabalhadores distribuídos por 23 empresas. Dá para ter uma noção do crescimento, se compararmos com as 260 pessoas nas instalações das start-ups na incubadora. Mas o salto não se avalia apenas pelo número de trabalhadores. Na TecBis já há empresas a facturar milhões.

O exemplo mais mediático é talvez a Feedzai, a consultora tecnológica especializada em detecção de fraude que tem actualmente 200 trabalhadores e facturou 32 milhões de euros em 2016. “É a nossa estrela do século XXI”, admite Paulo Santos, por comparação com a Critical Software, que nasceu ali nos anos 1990.

Mas porque é que uma empresa com a dimensão da Feedzai ainda precisa de assistência? Paulo Santos explica que é uma questão de infraestruturas e cooperação. Quando o IPN trabalhava apenas como incubadora, “já se notava uma dificuldade: as empresas que iam saindo tinham dificuldades em encontrar espaço”. “O espaço físico, só por si, já é uma dificuldade”, explica, mas “o mais importante é o ecossistema” que ali se encontra, em que as empresas trocam conhecimento. Depois há também os laboratórios de investigação e os apoios técnicos que o IPN providencia, desde estudos de mercado, candidaturas a incentivos ou apoio na internacionalização.

“Esta estrutura é uma oportunidade de manter as empresas mais algum tempo neste ecossistema, de continuar a apoiá-las no seu crescimento”, completa Rui Miranda. Por outro lado, sugere que as empresas tecnológicas “não gostam muito de investir em betão e comprar lotes”, pelo que encontram no Pedro Nunes a infra-estrutura para se lançarem.

O processo de crescimento da Feedzai também ilustra o papel da “aceleradora” do IPN. “Fazemos parte de redes de aterragem suave em novos mercados”, diz Rui Miranda.Recorda que a empresa, que tem cerca de 60 trabalhadores em Coimbra, “teve o seu grande boost através de um programa da Universidade do Texas com o governo português, em que o IPN é parceiro”. O grande salto começou aí.

Fixar talentos na região

Na lista de missões do IPN cabe a fixação de jovens qualificados. Rui Miranda está preocupado em captar os talentos saídos da universidade. O Pólo II da Universidade da Coimbra (onde estão as engenharias e informática) está a escassas centenas de metros do campus do IPN, mas esse nem sempre é o caminho óbvio para quem acaba a formação superior.

Os responsáveis apresentam a sua instituição como trunfo de atractividade para a própria universidade. Na zona centro, “as universidades estão com um problema: é a maior região do país, mas tem dois milhões de habitantes”, adianta Paulo Santos. Refere que “os estudos demográficos mostram que, até 2030, a universidade pode perder metade da população estudantil”. Na concorrência com grandes centros urbanos como Lisboa e Porto, o IPN pode servir “como factor de competição”.

Quando o instituto surgiu, em meados da década de 1990, 90% dos recém-formados nas áreas tecnológicas não ficavam em Coimbra. “Não havia empresas”, recorda Paulo Santos. Com a criação do IPN, nasceram “empresas como a Critical Software e a Wit e o mindset também mudou”.

A Stratio pode ser um exemplo dessa captação de talentos. A jovem empresa lançou o primeiro dispositivo há cerca de dois meses, mas teve dois anos prévios de desenvolvimento de produto. Nesse processo, foram buscar profissionais à Volvo e à Mercedes, conta o vice-presidente executivo Rui Sales.

No fundo, a Stratio adapta a tecnologia espacial e utilizada na Fórmula 1 a camiões e autocarros e uma pequena caixa preta instalada nos veículos até faz grande parte do trabalho. O dispositivo recolhe todos os dados dos sensores do veículo e envia toda a informação em tempo real para um servidor. Através da análise de big data é possível “prever problemas e avarias antes de eles acontecerem”, explica Rui Sales.

Rui Sales adianta que, para já, o foco mantém-se na instalação do dispositivo em camiões, autocarros e veículos de recolha do lixo que tenham até 15 anos. Actualmente estão já a trabalhar com a Câmara Municipal de Lisboa, mas os principais mercados são Espanha e Reino Unido. No entanto, já estão a pensar no passo seguinte, para que o Stratio possa vir de origem com determinados fabricantes.

No final da visita, Teresa Mendes, directora do IPN, sublinha que a TecBis “tem um grande impacto na cidade e na região”, sendo este um dos indicadores com peso na atribuição do prémio Regiostars. Rui Miranda enumera o contributo da estrutura: para além dos postos de trabalho, “o emprego que cria é qualificado, tem rendimentos muito superiores à média”, contribuindo com “mais inovações e mais desenvolvimento”. E estes são parâmetros que estão em linha com estratégia da própria Comissão Europeia para a competitividade da economia da União.