Os Emmys não tiveram dúvidas e foram políticos: The Handmaid’s Tale e Veep fazem história

O melhor Drama é também o primeiro prémio principal para um serviço de streaming, o Hulu, e Julia Louis-Dreyfuss torna-se uma das actrizes com mais Emmys da história. Cerimónia de histórias de ressonância política.

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As palmas foram retumbantes para a vitória de The Handmaid’s Tale LUCY NICHOLSON/Reuters
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Aziz Ansari e Donald Glover nos bastidores MIKE BLAKE/Reuters
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Nicole Kidman foi premiada por Big Little Lies LUCY NICHOLSON/Reuters
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Elizabeth Moss celebra o seu Emmy por The Handmaid’s Tale LUCY NICHOLSON/Reuters
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Veep venceu outra vez LUCY NICHOLSON/Reuters

As artes, e as artes televisivas em particular, procuram há mais de um ano a solução ideal: devem ou não dirigir-se ao contexto político em que são produzidas, sobretudo quando é da televisão que uma das personagens principais vem e é conhecida por ver muita, muita TV? Os Emmys não tiveram dúvidas e deram uma festa em que ele esteve por todo o lado. The Handmaid’s Tale, uma história sobre mulheres e totalitarismo que Portugal ainda não estreou, foi a Melhor Série Dramática — e deu o primeiro importante prémio a um serviço de streaming, o Hulu. E Veep, sobre uma mulher egocêntrica e incompetente na Casa Branca, repetiu pelo terceiro ano consecutivo na Comédia. Até o boneco de Donald J. Trump foi vencedor.

Este ano, e por causa da data de exibição mais tardia, o gigante que é A Guerra dos Tronos, a série com mais prémios de sempre (38), não estava em contenda. Foi um espaço que se abriu para que os membros da Academia de Artes Televisivas votassem em novos e velhos nomes e fizessem a sua porção de história: o Hulu tornou-se na primeira plataforma de streaming a vencer o prémio principal dos Emmys, e portanto o prémio principal da televisão nos EUA.

E fê-lo com uma série cuja relevância continua a ser sublinhada, baseada no radical romance distópico de Margaret Atwood sobre uns EUA teocráticos, dominados pelos puritanos e, no fundo, a autonomia e os direitos reprodutivos das mulheres.  A sua actriz principal, Elizabeth Moss, recebeu também o prémio de Melhor Actriz Dramática, Ann Dowd o de Melhor Actriz Secundária na mesma categoria e The Handmaid’s Tale saiu da noite com oito estatuetas aladas (entre as quais as de realização e argumento). Ainda assim, mais uma vez, a HBO foi o canal mais premiado, com um total de 29 prémios. O Hulu, que não opera em Portugal, fez uma aposta ganha numa obra-chave de Atwood de 1985, e o concorrente Netflix (20 Emmys) seguiu-lhe na peugada com Alias Grace, adaptação de Sarah Polley do romance homónimo de 1996 da autora canadiana que se estreia antes do final do ano.

Mas de volta aos Emmys, entre os principais vencedores na Comédia estão Julia Louis-Dreyfus, que entrou também para a história dos prémios com o seu oitavo galardão (é, com Cloris Leachman, a actriz com mais distinções) graças à Selina Meyer criada por Armando Iannucci, e o estreante Donald Glover pelo protagonismo da nova comédia Atlanta (série que também escreve e por vezes realiza). Os actores secundários de comédia foram Kate McKinnon, que caricaturou Hillary Clinton, e Alec Baldwin pela sua viral imitação de Donald Trump. "Suponho que devia dizer 'Até que enfim, sr. Presidente, aqui está o seu Emmy", disse o actor logo à chegada ao palco. Ambos foram premiados pelo seu trabalho no programa de sketches Saturday Night Live (SNL), aquele que teve mais prémios (nove) na noite da cerimónia, transmitida em Portugal pela SIC Caras. Os Emmys revalidaram também a sátira política de SNL, que como lembra o New York Times não vencia a categoria de melhor programa de variedades e sketches há mais de 20 anos.

“Não é possível que alguém possa ver tanta televisão quanto o Presidente”, dissera horas antes Stephen Colbert, anfitrião da noite e batido por John Oliver (o seu programa em Portugal passa na RTP1) na categoria de série de variedades/talk-show. Mas ainda assim, e como o anfitrião lembrou no seu monólogo de abertura, o Presidente nunca venceu um Emmy apesar de ter estado nomeado para os prémios da TV pelo seu programa The Apprentice - que tanto fez pela sua popularidade. “Porque, ao contrário da presidência, os Emmys vão para o vencedor do voto popular”, disse Colbert numa sala cheia de pessoas que concordam com ele — e tirando da cartola um convidado especial e uma das figuras do carrocel de entradas e saídas da administração Trump, o ex-porta-voz da Casa Branca Sean Spicer.

nos Óscares se esperava uma reacção da comunidade do cinema à eleição de um Presidente que muitos dos seus membros não apoiam, e se fizeram leituras políticas quanto ao seu palmarés. Este ano não é diferente na vizinha televisão, que aliás tem cada vez mais condóminos em comum com Hollywood — De Niro não ganhou como Bernie Madoff, mas foi batido pelo jovem Riz Ahmed na minisérie The Night Of, uma série que deu a conhecer mais sobre “a islamofobia, alguma da injustiça do nosso sistema judicial”; Nicole Kidman, essa sim, foi a melhor actriz na mesma categoria por Big Little Lies, a minisérie da HBO que viu ainda premiados os seus actores secundários, Alexander Skarsgaard e Laura Dern.

A diversidade de temas premiados, mas também do elenco de galardoados é incontornável. "Quero agradecer a Trump por fazer dos negros o n.º 1 da lista dos mais oprimidos. Ele provavelmente é a razão pela qual estou aqui", disse Donald Glover sobre Atlanta. Sterling K. Brown, que interpreta um filho adoptivo negro numa família branca, foi premiado como protagonista de This is Us. Aziz Ansari e Lena Waithe foram distinguidos pela escrita de Thanksgiving, um episódio sobre a homossexualidade de uma rapariga negra em Master of None, e, com este prémio, Waithe tornou-se a primeira mulher negra a receber um Emmy por um guião de comédia. San Junipero, da minisérie Black Mirror, também sobre homossexualidade, foi outra destacada.

Estas noites de recordes fazem-se também de perdedores. Além daqueles que não foram de todo nomeados ou ignorados em categorias-chave (como The Leftovers ou The Americans), Westworld, a mais nomeada e da HBO, saiu sem estatuetas principais, e a megaprodução do Netflix The Crown viu John Lithgow premiado pelo seu Churchill secundário no Drama, mas de resto passou a noite em branco. A esmagadora maioria dos premiados da  69.ª edição dos Emmys passa em canais por subscrição em Portugal e, nos EUA, os canais de sinal aberto continuam em perda nos prémios maiores da indústria. Mesmo a NBC, que tinha em This is Us o seu trunfo de 2016/17, não conseguiu brilhar tanto quanto gostaria (apesar dos seus 15 Emmys).

Prémios e nomeações

Melhor Série Dramática

Better Call Saul (AMC/Netflix)
The Crown (Netflix)
The Handmaid’s Tale (Hulu, ainda sem estreia em Portugal)
Stranger Things (Netflix)
This Is Us (NBC/FoxLife)
Westworld (HBO/TVSéries)
House of Cards (Netflix/TVSéries)

Melhor Actor numa Série Dramática

Sterling K. Brown, This Is Us
Bob Odenkirk, Better Call Saul
Matthew Rhys, The Americans (FX/FoxCrime)
Liev Schreiber, Ray Donovan (Showtime/TVSéries)
Milo Ventimiglia, This Is Us
Anthony Hopkins, Westworld
Kevin Spacey, House of Cards

Melhor Actriz numa Série Dramática

Viola Davis, Como Defender um Assassino (AXN)
Claire Foy, The Crown
Elisabeth Moss, The Handmaid’s Tale
Keri Russell, The Americans
Robin Wright, House of Cards (Netflix/TVSéries)
Evan Rachel Wood, Westworld

Melhor Actor Secundário Numa Série Dramática

Jonathan Banks, Better Call Saul
John Lithgow, The Crown
Ron Cephas Jones, This Is Us
Jeffrey Wright, Westworld
Mandy Patinkin, Segurança Nacional (Showtime/Fox)
Michael Kelly, House of Cards
David Harbour, Stranger Things

Melhor Actriz Secundária Numa Série Dramática

Uzo Aduba, Orange Is the New Black (Netflix)
Millie Bobby Brown, Stranger Things
Chrissy Metz, This Is Us
Ann Dowd, The Handmaid’s Tale
Samira Wiley, The Handmaid’s Tale
Thandie Newton, Westworld

Melhor Série de Comédia

Atlanta (FX/TVSéries)
black-ish (ABC, ainda sem estreia em Portugal)
Master of None (Netflix)
Silicon Valley (HBO/TVSéries)
Unbreakable Kimmy Schmidt (Netflix)
Veep (HBO/TVSéries)
Uma Família Muito Moderna (ABC/Fox Comedy)

Melhor Actor Numa Série de Comédia

Anthony Anderson, black-ish
Aziz Ansari, Master of None
Donald Glover, Atlanta
William H. Macy, Shameless (Showtime/SIC Radical)
Jeffrey Tambor, Transparent (Amazon/TVSéries)
Zach Galifianakis, Baskets (FX)

Melhor Actriz Numa Série de Comédia

Pamela Adlon, Better Things (FX)
Allison Janney, Mom (CBS/Fox Comedy)
Ellie Kemper, Unbreakable Kimmy Schmidt
Julia Louis-Dreyfus, Veep
Tracee Ellis Ross, black-ish
Lily Tomlin, Grace and Frankie (Netflix)
Jane Fonda, Grace and Frankie 

Melhor Actor Secundário de Comédia

Louie Anderson, Baskets
Alec Baldwin, Saturday Night Live (NBC, sem estreia em Portugal)
Tituss Burgess, Unbreakable Kimmy Schmidt
Ty Burrell, Uma Família Muito Moderna
Tony Hale, Veep
Matt Walsh, Veep

Melhor Actriz Secundária de Comédia

Anna Chlumsky, Veep
Kate McKinnon, Saturday Night Live
Vanessa Beyer, Saturday Night Live
Leslie Jones, Saturday Night Live
Judith Light, Transparent
Kathryn Hahn, Transparent

Série Limitada

Big Little Lies (HBO/TVSéries)
Fargo (FX/TVSéries)
Feud: Bette and Joan (FX/TVSéries)
Genius (National Geographic)
The Night Of (HBO/TVSéries)

Melhor Actriz em Série Limitada ou Telefilme

Carrie Coon, Fargo
Nicole Kidman, Big Little Lies
Reese Witherspoon, Big Little Lies
Jessica Lange, Feud: Bette and Joan
Susan Sarandon, Feud: Bette and Joan
Felicity Huffman, American Crime

Melhor Actor em Série Limitada ou Telefilme

Riz Ahmed, The Night Of
John Turturro, The Night Of
Benedict Cumberbatch, Sherlock: The Lying Detective
Robert De Niro, The Wizard of Lies
Ewan McGregor, Fargo
Geoffrey Rush, Genius

Melhor Programa de Variedades

The Late Show with Stephen Colbert (CBS, SIC Radical)
The Late Late Show with James Corden (CBS)
Full Frontal with Samantha Bee (TBS)
Last Week Tonight with John Oliver (HBO,RTP3)
Jimmy Kimmel Live! (ABC)
Real Time With Bill Maher (HBO)

A lista completa de prémios pode ser consultada aqui.