Aung San Suu Kyi, de Cinderela da paz a Madrasta Malvada

A líder birmanesa foi o rosto do activismo político em todo o mundo durante duas décadas, mas a perseguição do Exército do país aos rohingya está a empurrá-la desse pedestal. Muitos querem tirar-lhe o Nobel da Paz. Ela diz que vai falar sobre o assunto na terça-feira.

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Aung San Suu Kyi Cathal McNaughton/Reuters

A sala do luxuoso Hotel Sheraton, no coração de Manhattan, está cheia de olhos arregalados e ouvidos mais atentos do que um peão a atravessar uma rua movimentada. No palco, o arcebispo sul-africano Desmond Tutu acabou de falar sobre coragem, num dos painéis do fórum Clinton Global Initiative, e espera agora com ansiedade para ouvir a voz de Aung San Suu Kyi, em directo a partir da Birmânia. Estamos em Setembro de 2011, e a rock star dos activistas políticos de todo o mundo vai falar em público sobre os seus 23 anos de resistência pacífica contra a ditadura birmanesa – 15 deles passados aprisionada e sozinha em sua casa por ordem da junta militar.

Aung San Suu Kyi começa a falar, a partir da Birmânia, e Desmond Tutu não consegue disfarçar o entusiasmo na cadeira em que o sentaram nos Estados Unidos. Ao ver e ouvir a activista birmanesa, o arcebispo sul-africano transforma-se num adolescente que não sabe o que há-de fazer a um coração aos pulos. “Amo-te!”, declara-se Tutu. “Tenho de devolver o cumprimento, também o amo”, responde Suu Kyi depois de alguns segundos à procura das palavras mais adequadas.

Os elogios do arcebispo são tantos que provocam gargalhadas entre a assistência e suscitam um reparo do mediador da conversa, Charlie Rose: “Lá está ele outra vez”, diz o veterano jornalista, depois de Desmond Tutu ter demonstrado mais uma vez que se deixou enfeitiçar por Suu Kyi, ao elogiar-lhe “a compaixão e a beleeeezaaa…”

Faltavam muitos meses para que os dois se encontrassem pessoalmente pela primeira vez, mas a química estava à vista de todos – ele, Nobel da Paz em 1984 pela luta contra o apartheid sul-africano; e ela, Nobel da Paz em 1991 pelo activismo a favor da democracia na Birmânia, eram rostos da tolerância contra a violência, da paz contra a guerra, da luz contra as trevas. Ela, em particular, era há muito a activista mais idolatrada em todo o mundo, principalmente no Ocidente, tantas vezes posta ao lado de figuras como Martin Luther King Jr. ou Mahatma Gandhi.

Na quinta-feira da semana passada, seis anos depois daquele encontro virtual em Nova Iorque, o arcebispo sul-africano voltou a dirigir-se em público à antiga activista, que é agora a líder política da Birmânia apesar de o nome do seu cargo não o indicar – como na Constituição do país não há lugar para uma Presidente que teve dois filhos nascidos em Londres de um marido britânico, Suu Kyi passou a liderar o Governo no recém-criado cargo de conselheira de Estado (equivalente ao de primeira-ministra).

“No meu coração, você é uma irmã mais nova, querida e estimada”, disse Desmond Tutu na quinta-feira da semana passada, numa carta aberta onde quase nada resta das gargalhadas nervosas daquele encontro em Manhattan há seis anos: “Durante anos tive uma fotografia sua na minha secretária, para me lembrar da injustiça e do sacrifício por que passou por causa do seu amor e empenho em nome do povo da Birmânia. Você simbolizava a integridade.”

O arcebispo sul-africano reservou o último parágrafo para pôr um ponto final nas décadas de admiração e fascínio pela mulher que foi elogiada durante anos como um dos mais extraordinários exemplos de coragem c ívica em todo o mundo: “Se o preço político da sua chegada ao mais alto poder na Birmânia é o silêncio, então esse preço é demasiadamente elevado.”

O silêncio a que Desmond Tutu se refere na carta aberta tem um nome: rohingya. Um nome que nem a líder da Birmânia nem o discurso oficial de todo o país autoriza que se diga em voz alta: rohingya, a minoria étnica que vive na zona Norte do actual estado birmanês de Rakhine, na fronteira com o Bangladesh, e que é tratada pelas autoridades como um grupo de cidadãos de 4.ª categoria – apesar de viverem há séculos naquela zona, os rohingya são considerados imigrantes do Bangladesh, não fazem parte da gigantesca lista de 155 minorias étnicas reconhecidas oficialmente na Birmânia e nem sequer são tratados pelo nome que o resto do mundo se habituou a ouvir nos últimos meses.

A maioria é muçulmana, num país onde os budistas dominam a paisagem, mas o muro de ódio que se ergueu entre os rohingya e o resto da Birmânia é muito mais nacionalista do que religioso – há muito que a maioria do país preferia que os quase 800 mil rohingya desaparecessem do mapa, se possível para o Bangladesh e de preferência para sempre.

A situação dos rohingya é tão dramática que é comum ouvir responsáveis das Nações Unidas e de organizações de defesa dos direitos humanos a referirem-se a eles como a minoria mais perseguida do mundo. Na Birmânia, são imigrantes do Bangladesh que deviam voltar para terra deles; no Bangladesh, onde já estão mais de 300 mil refugiados, o plano do Governo passa por enviá-los para uma pequena ilha no Golfo de Bengala, a 60 quilómetros da costa, que fica debaixo de água entre Junho e Setembro por causa das monções e não tem uma única estrada.

A provação dos rohingya não é de agora, e é por isso que muitos admiradores da coragem e da integridade de Aung San Suu Kyi esperavam que a Nobel da Paz lhes desse a dignidade que reclamam assim que chegasse ao poder. Mas, um ano e meio depois de a antiga activista pró-democracia ter começado a governar o país, a situação dos rohingya só tem piorado – e a mistura de silêncios e de avales indirectos com que a conselheira de Estado tem comentado as operações do Exército birmanês no estado de Rakhine já fez com que muitos dos seus antigos admiradores tenham começado a pedir que lhe tirem o Nobel da Paz.

“Alguns dos meus amigos dedicaram toda uma vida de trabalho à campanha pela sua libertação dos muitos anos de detenção impostos pela ditadura militar da Birmânia, e pela restauração da democracia. Celebrámos quando ela recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1991; quando foi finalmente libertada da prisão domiciliária em 2010; e quando venceu as eleições gerais em 2015”, escreveu no jornal britânico The Guardian o escritor e activista George Monbiot, dois dias antes da carta aberta de Desmond Tutu.

“Nada disso foi esquecido. Nem isso, nem as muitas crueldades que ela sofreu, incluindo o isolamento, os ataques físicos e a amputação da sua vida familiar ”, sublinhou Monbiot. “Mas é difícil encontrar um líder político nos tempos mais recentes que tenha traído de forma tão cruel as grandes esperanças que nele foram depositadas”, sentenciou o escritor, pedindo aos seus leitores que assinem uma petição para tirar o Nobel da Paz a Aung San Suu Kyi.

O pensamento dos seus novos detractores é simples e linear: como a antiga activista foi elevada na Birmânia e no Ocidente à categoria de combatente pela democracia e pelos direitos humanos – o que lhe valeu os prémio Sakharov e Nobel da Paz, entre muitas outras distinções –, então o mínimo que se pode esperar dela é que seja uma voz forte contra a ofensiva do Exército birmanês na região onde vive a maioria dos rohingya.

Como isso não aconteceu – e como entretanto a Comissão de Direitos Humanos da ONU e organizações como a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch afirmam que está em curso uma limpeza étnica a roçar o genocídio contra os rohingya –, o compromisso de Suu Kyi com os valores que lhe deram notoriedade em todo o mundo está a ser posto em causa. Por causa dessa pressão internacional, a líder birmanesa decidiu não ir à reunião da Assembleia-Geral da ONU, que começa esta segunda-feira – em vez disso, vai ficar na Birmânia a preparar uma comunicação ao país sobre direitos humanos.

Mas o silêncio de Suu Kyi em relação aos rohingya pode ser mais complicado do que parece à primeira vista, diz Gwen Robinson, especialista em política da Birmânia na universidade tailandesa de Chulalongkorn. Num texto publicado no diário Nikkei Asian Review, com o título Mitos e realidades por trás da crise em Rakhine, Robinson diz que a líder birmanesa está entre a espada e a parede, num país onde os militares continuam a exercer o seu próprio poder, e onde a maioria da população vacila entre a total indiferença e o ódio em relação aos rohingya.

“Internamente, com o ressentimento popular contra os rohingya enraizado na história conturbada da Birmânia, até o silêncio de Suu Kyi perante os excessos militares é visto como uma posição favorável à odiada minoria, enquanto internacionalmente esse silêncio tem sido retratado como uma concordância com a campanha dos militares”, diz a especialista. Segundo Gwen Robinson, Suu Kyi não tem qualquer tipo de ascendente sobre a forte e enraizada máquina militar da Birmânia e “tem medo de perturbar o equilíbrio de poder” e de “dar uma imagem de fraqueza dentro do país” – por outras palavras, uma posição forte contra os ataques do Exército birmanês no estado de Rakhine poderia precipitar um novo golpe de Estado militar, e o regresso à estaca zero para um país que começa a dar os primeiros passos em direcção à democracia.

É este também o ponto de vista defendido por outro Nobel da Paz, o timorense José Ramos-Horta, num texto assinado em conjunto com a australiana Janelle Saffin, sua antiga conselheira. “Ninguém está acima de culpas pelas violações dos direitos humanos que estão a ser cometidos no estado birmanês de Rakhine. Mas, ao apontar apenas o dedo à conselheira de Estado, Aung San Suu Kyi, a comunidade internacional está a permitir que os generais da Birmânia – que levaram o país à desgraça ao longo de décadas – fiquem em segundo plano a assistirem ao escalar da crise.”

Num artigo em que sublinham a fragilidade do processo democrático na Birmânia – com uma Constituição de 2008 que mantém os civis afastados das decisões ligadas à Defesa –, Ramos-Horta e Saffin condenam as atrocidades, acusam os líderes militares e pedem tempo para a Suu Kyi: “Dito de forma simples, criar uma cultura de respeito pelos direitos humanos e pelo primado da lei – há muito ignorado e violado na Birmânia – não vai acontecer de um dia para o outro.”