Rohingya: A repressão do exército birmanês foi o motor da revolta

O Exército de Salvação Rohingya de Arracão é classificado como uma organização terrorista pelo Governo de Suu Kyi. Nasceu após os conflitos entre budistas e muçulmanos de 2012 e o seu apoio tem crescido entre a minoria muçulmana discriminada na Birmânia.

Manifestação pelos direitos dos rohingya em Bruxelas
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Manifestação pelos direitos dos rohingya em Bruxelas ABEDIN TAHERKENAREH/EPA

Quando o ex-secretário-geral das Nações Unidas Kofi Annan apresentou as conclusões da comissão que durante um ano analisou o problemático Noroeste da Birmânia, a 24 de Agosto, avisou que uma resposta excessiva do exército só agravaria a escalada do conflito entre as forças de segurança e um grupo armado da minoria muçulmana rohingya.

Três horas mais tarde, pouco depois das 20h00 na hora local, o comandante da revolta rohingya Ata Ullah enviou uma mensagem aos seus apoiantes, exortando-os a dirigirem-se à base da serra Mayu e levarem objectos metálicos para servirem de armas.

Pouco depois da meia-noite, 600 km a Noroeste da principal cidade, Rangum, um remendado exército rohingya, armado com facas, paus, pequenas armas de fogo e bombas rudimentares, atacou 30 postos policiais e uma base do exército.

“Se 200 ou 300 pessoas vierem, 50 morrerão. Mas se Deus quiser, os outros 150 conseguirão matá-los à facada”, disse Ata Ullah numa outra mensagem de voz, que circulou à hora do ataque pelas apps de mensagens online e a que a Reuters teve posteriormente acesso.

Este foi o maior ataque até agora do grupo de Ata Ullah, o Exército de Salvação Rohingya de Arracão (ARSA). O grupo deu-se a conhecer em Outubro do ano passado quando, segundo as estimativas do Governo birmanês, 400 combatentes atacaram três postos fronteiriços. O exército estima que na ofensiva de Agosto tenham participado 6500 homens.

A capacidade para montar uma investida mais ambiciosa mostra que muitos jovens rohingya se juntaram ao ARSA depois da repressão do exército em retaliação pelos ataques de Outubro, de acordo com mais de uma dúzia de entrevistas a rohingyas de Rakhine, membros das forças de segurança e governantes locais. A resposta foi brutal. Tal como agora, houve alegações que as tropas governamentais incendiaram aldeias e assassinaram e violaram civis.

Guterres critica e pede ajuda

A crise no estado de Rakhine, devastado pelos conflitos étnicos, é a maior que a líder do Governo birmanês, Aung San Suu Kyi já enfrentou. E a forma como este ícone da democracia tem lidado com ela está a ser uma desilusão para os seus antigos defensores no Ocidente. O secretário-geral da ONU, António Guterres, apelou às autoridades da Birmânia para que ponham um fim à violência contra os muçulmanos rohingya, classificando a acção que está a ser levada a cabo como limpeza étnica, e sublinhando os riscos de desestabilização da região e possível catástrofe humanitária.

Guterres pediu também uma mobilização "maciça" para ajudar os 400 mil rohingya que já fugiram para o Bangladesh desde o fim de Agosto, desde que o exército começou a retaliação pelas acções do ARSA, sublinhando que é provável que ainda mais civis fujam.

Os líderes rohingya e alguns analistas políticos dizem que a incapacidade de Suu Kyi em resolver os problemas da minoria muçulmana, que há gerações vive em condições tipo apartheid, tem reforçado o apoio ao grupo armado. A inexperiente milícia transformou-se numa rede de células presentes em dezenas de aldeias e capazes de lançar uma ofensiva alargada.

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Manifestação a favor dos rohingya e contra o Governo de Suu Kyi na Indonésia Darren Whiteside/REUTERS

O Governo da Birmânia declarou o ARSA uma organização terrorista, acusando-o também de matar civis muçulmanos para evitar que colaborem com as autoridades e de incendiar aldeias rohingya - alegações que o grupo nega. 

Habitantes das aldeias rohingya e organizações de direitos humanos afirmam que o exército atacou também aldeias de forma indiscriminada, incendiando casas à passagem, enquanto o Governo birmanês alega estar a conduzir uma operação antiterrorista dentro dos limites da lei, e que os soldados foram instruídos a não maltratarem civis.

Suu Kyi comprometeu-se a seguir as recomendações da comissão liderada por Kofi Annan, que encorajou uma maior integração. Também já antes pedira compreensão para as complexidades étnicas do seu país. Numa declaração na quarta-feira passada, culpou os “terroristas” por “um grande icebergue de desinformação” sobre o conflito em Rakhine, não fazendo qualquer menção aos rohingya em fuga.

“Humanos não deviam viver assim”

Numa entrevista à Reuters em Março, Ata Ullah ligou o surgimento do seu grupo com os episódios de violência em 2012 entre budistas e muçulmanos de Rakhine, em que morreram quase 200 pessoas e 140 mil, na maioria rohingya, foram desalojadas.

“Não podemos acender as luzes à noite, e não nos podemos movimentar durante o dia”, disse à Reuters nessa entrevista inédita, fazendo referência às restrições sobre o comportamento e os movimentos da população rohingya. “Checkpoints em todo o lado: todas as entradas, todas as saídas. Os humanos não deviam viver assim.”

Um líder da comunidade rohingya que se manteve no Norte de Rakhine afirmou que, enquanto o resto da Birmânia desfruta das novas liberdades postas em prática por Suu Kyi, após décadas de ditadura militar, a minoria muçulmana tem sido cada vez mais marginalizada. O apoio popular aos rebeldes cresceu depois da operação militar do ano passado, disse. “Quando as forças de segurança chegaram à nossa aldeia, todos os habitantes pediram desculpa e imploraram que não lhes incendiassem as casas – e eles mataram as pessoas que lhes foram pedir isso. Houve quem visse os filhos a morrer à sua frente, mesmo implorando misericórdia. As suas filhas e irmãs foram violadas – como poderiam eles viver sem pensar nisso a toda a hora? Eles querem lutar, vivam ou morram.”

A Reuters não conseguiu confirmar estes relatos por fonte independente. No mês passado, uma comissão governamental birmanesa, liderada pelo antigo chefe dos serviços de inteligência militar e agora vice-presidente, Myint Swe, rejeitou as acusações de crimes contra a humanidade e de limpeza étnica durante a repressão do ano passado.

Células em aldeias

Os habitantes das aldeias e os oficiais da polícia da região dizem que, desde Outubro passado, o ARSA estabeleceu células em dezenas de aldeias, onde os activistas locais recrutaram novos membros. “Partilharam os seus sentimentos com a comunidade, as pessoas falaram umas com as outras, contaram o que aconteceu a amigos e conhecidos. E depois explodiram”, disse o líder da comunidade rohingya.

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Aldeia queimada pelo exército perto de Maungdaw, no estado de Rakhine REUTERS

Rohi Mullarah, ancião da aldeia Kyee Hnoke Thee, afirmou que os líderes da revolta enviavam frequentemente mensagens pelo WhatsApp ou o WeChat para os seus seguidores, encorajando-os a lutarem pela liberdade e pelos direitos humanos, e conseguindo assim mobilizar muitas pessoas sem correrem o risco de serem apanhados a recrutar numa zona altamente militarizada.

“Eles quase só mandavam mensagens para os habitantes, não… moviam as pessoas de um lado para o outro”, disse, afiançando que a sua aldeia não participou nos ataques e que até tinha sido afixado um cartaz à entrada a dizer que os militantes que tentassem recrutar na aldeia seriam atacados.

Há décadas que muitos dos anciãos rohingya rejeitam a violência e procuram dialogar com o Governo. Embora o ARSA tenha recentemente ganho influência, especialmente entre os jovens descontentes, muitos anciãos têm condenado a violência do grupo.

Nos últimos meses tem havido relatos de assassínios de autarcas, informadores do Governo e chefes de aldeias em Rakhine, levando à especulação de que os revoltosos adoptaram tácticas brutais para evitar que haja fugas de informação.

“Cortam os canais de comunicação do Governo e instigam uma campanha de medo, que lhes permite controlar a região,”, afirmou Sein Lwin, chefe de polícia em Rakhine. Uma fonte do exército directamente envolvida nas operações confirmou que se tornou muito mais difícil obter informações sobre os planos do ARSA. Em alguns locais, "nenhum representante do Estado se atrevia a ficar lá”, disse fonte do exército. 

O informador

Apesar do sucesso dos rebeldes em abafar a informação, foi uma dica de um informador rohingya que evitou que os ataques de 25 de Agosto fossem piores para as forças birmanesas, revelou a fonte do exército.

Cerca de uma hora depois de os homens de Ata Ullah terem entrado na selva, na noite de 24 de Agosto, o exército recebeu a informação de um ataque iminente. A mensagem, recebida às 21h00, falava em múltiplos ataques, mas não dizia onde. O aviso foi suficiente para deslocar algumas tropas para postos mais importantes, reforçando locais estratégicos, o que salvou muitas vidas do lado do Governo.

Os raides dos combatentes rohingya começaram à 1h00 e prolongaram-se até ao nascer do sol. Ocorreram sobretudo na cidade de Maungdaw, a mesma dos três ataques de Outubro passado. Desta vez, contudo, a distância entre os locais atacados foi cerca de 100 km. “Ficámos surpreendidos por terem atacado uma área geográfica tão vasta – abalou toda a região”, disse a fonte do exército.

Reuters

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