Rentrée ficção: 47 anos depois chega Maya Angelou

Novos romances de Hélia Correia, Dulce Maria Cardoso, António Lobo Antunes e Mário de Carvalho marcam a rentrée da ficção nacional, quando chegam traduções de Philip Roth, Javier Marías, Colson Whitehead ou a publicação em Portugal de uma grande memorialista: Maya Angelou.

Foto
Maya Angelou morreu em 2014, aos 86 anos, considerada um dos nomes fundamentais da literatura norte-americana, mas permanece quase desconhecida em Portugal

Ela não conseguia lembrar-se do resto do poema; dois versos e mais nada. E o esquecimento não melhorava quando ouvia o riso dos colegas da Igreja Metodista Episcopal de Pessoas de Cor. Ela era assim, esquecia-se muito e estava envergonhada no seu vestido novo de tafetá, feio, que antes achara bonito e viu como uma espécie de meio para a sua redenção pessoal. “Enquanto observava a Mãezinha a pôr folhos na bainha e umas preguinhas bonitas na cintura, soube que, assim que o vestisse, iria parecer uma estrela de cinema. (Era de seda, o que compensava a cor horrorosa.) Eu ia parecer uma daquelas meninas brancas e graciosas, que encarnavam tudo o que havia de bom no mundo, o ideal de toda a gente. Delicadamente pousado em cima da máquina de costura Singer preta, o vestido era mágico, e, quando as pessoas me vissem com ele, viriam ter comigo a correr e diriam: ‘Marguerite [às vezes, era ‘querida Marguerite’], por favor perdoa-nos, não sabíamos quem eras’, e eu responderia, generosamente: ‘Não, não podiam saber. É claro que vos perdoo.’” Ela é a personagem central do romance autobiográfico Sei Porque Canta o Pássaro, de Maya Angelou, que a Antígona faz chegar à edição portuguesa este mês de Setembro quando passam 47 anos da publicação original.

O volume conta os primeiros 17 anos da vida de Maya Angelou, nome literário de Marguerite Ann Johnson, romancista, poeta e activista que integrou o movimento dos direitos civis na América ao lado de Martin Luther King. Alguém que antes de ser escritora fez de quase tudo para sobreviver. Foi cozinheira, prostituta, até se formar em estudos americanos na Universidade da Carolina do Norte em 1982. Em 1993, declamou o seu poema On The Pulse of Morning na cerimónia de tomada de posse de Bill Clinton. Morreu em 2014, aos 86 anos, considerada um dos nomes fundamentais da literatura norte-americana, mas permanece quase desconhecida em Portugal. O livro é um dos destaques deste mês que marcam o início da rentrée literária em Portugal.

É tempo de novidades, algumas esperadas. Chega o romance vencedor do Pulitzer de ficção em 2016, A Estrada Subterrânea, de Colson Whitehead (Alfaguara), narrativa que reconstitui os anos de escravatura nos Estados Unidos; a Relógio d’Água publica Um Deus em Ruínas, da britânica Kate Atkinson (Costa Award, 2015); Homens Sem Mulheres, o volume de contos de Haruki Murakami (Casa das Letras) estará disponível dia 19, o mesmo dia em que chega a primeira edição em português (mais uma tradução de Francisco Agarez) de O Escritor Fantasma, de Philip Roth (D. Quixote), romance de 1979, o primeiro da série que o escritor dedicou a um dos seus alter-egos, Nathan Zuckerman. Ainda na D. Quixote, volta Lisbeth Salander em O Homem que Perseguia a sua Sombra, de David Lagercrantz, quinto volume da saga Millennium, iniciada por Stieg Larsson. José Rodrigues dos Santos tem novo livro, a 23, O Reino do Meio, último livro da Trilogia do Lótus. Ainda a continuação da publicação da obra de Eduardo Galeano pela Antígona, com O Caçador de Histórias e, na Quetzal, O Caminho Imperfeito, livro de viagens de José Luís Peixoto. 

Surpresa de saudar é a publicação de Um Amor Feliz, do alemão Hubert Fichte, pela Cotovia, numa tradução de José Vieira Mendes. É a viagem de dois irmãos, em 1964, a um país governado por um ditador. Esse país é Portugal. Destaque ainda em Setembro para Octaedro, de Julio Cortázar, O Galo de Ouro, de Juan Rulfo, e A Porta, de Magda Szabó (Cavalo de Ferro); Rapaz, Neve, Ave, de Helen Oyeyemi (Elsinore), a reedição de Ébano, de Ryszard Kapuscinski (Livros do Brasil). Entre os aguardados por muitos leitores está Escutai as Nossas Derrota, do francês Laurent Gaudé (Sextante), romance centrado na guerra como uma constante civilizacional ao longo dos tempos.

Como acontece quase todos os anos, em Outubro há um novo romance de António Lobo Antunes. Chama-se Até que as Pedras se Tornem Mais Leves que a Água (D. Quixote). Também em português, saliente-se a publicação pela Cotovia do romance Tempo de Espalhar Pedras, de Estevão Azevedo, um retrato pungente da desumanização no Brasil actual; e de Espanha chega Baile e Sonho, segundo volume da trilogia O Teu Rosto Amanhã, uma das obras maiores de Javier Marías (Alfaguara). O terceiro, Veneno e Sombra, tem saída agendada para Novembro. Da escocesa Ali Smith chega How to Be Both (ainda sem título em português), livro que na verdade é um romance em duas versões e foi finalista de vários prémios, entre eles o Man Booker, e venceu o Costa Award em 2014. É narrada na perspectiva de um estudante universitário actual e de um jovem renascentista. Mais um notável exemplo da capacidade narrativa de Smith.

Também em Outubro, o mês com mais lançamentos agendados deste final de 2017, além do terceiro volume das obras de Galeano, Mulheres, Antígona publica Baleia, uma novela de Paul Gadenne, e Europeana, Uma Breve História do Século XX, de Patrik Ourednik. E sublinhe-se um título da Quetzal: O Livro de Emma Reyes – Memória por Correspondência, da pintora colombiana Emma Reyes (1919-2003). Um livro que quebra as regras da memória convencional para se contar o que descreve como um talento acidental.

Outro destaque é o livro do francês Emmanuel Bove (1898-1945), Os Meus Amigos (Cotovia), e da Argentina chega Distância de Segurança, da escritora Samanta Schweblin (Elsinore). O Nobel japonês Kenzaburo Oe surge com uma história autobiográfica, Morte pela Água (Livros do Brasil), e na Dom Quixote, há o mais recente título de John Le Carré, Um Legado de Espiões, que marca o regresso do agente Smiley; Isso Não Pode Acontecer Aqui, do Nobel Sinclair Lewis, e Contos, de Lampedusa. A Asa traz um novo de Arturo Pérez-Reverte, Falcó, e um dos livros do mês da Relógio d’Água é A Autobiografia de Alice B. Toklas, de Gertrude Stein (também publicada pela Ponto de Fuga, este mês de Setembro). É uma memória da relação da escritora americana com a sua companheira de toda a vida. Rosa Mantero tem um romance novo na Porto Editora, A Carne, de outro espanhol, Javier Cercas, temos O Monarca das Sombras (Assírio & Alvim). Cercas pega numa história familiar para ir até à Guerra Civil Espanhola, recuperando algumas das feridas mais dolorosas do seu país.

Para Novembro reservam-se algumas das obras mais aguardadas em português desta rentrée. Na Tinta-da-china, o novo romance de Dulce Maria Cardoso – com título ainda por revelar. É o primeiro da escritora depois do celebrado O Retorno (2012). Também Hélia Correia tem um romance para publicar. Chama-se Um Bailarino na Batalha e é o regresso da vencedora do prémio Camões em 2015 ao grande formato desde 2010, ano em que publicou Adoecer (2010). Sai na Relógio d’Água.

Kalaf Epalanga, nome do conhecido cantor do grupo Buraka Som Sistema, terá um romance na Caminho, com título ainda por conhecer, e, na mesma chancela, Sandro William Junqueira publica Quando as Girafas Baixam o Pescoço, espécie de fábula citadina. Entretanto, a Quetzal continua a republicar a obra de José Eduardo Agualusa, a Relógio d’Água a de Agustina Bessa-Luís e a Porto Editora a de José Saramago. A Tinta-da-china anuncia um novo livro de Ricardo Araújo Pereira.

Um dos destaques de Novembro vai justamente para a Tinta-da-china: na sua colecção de viagens publica Constantinopla, de Edmondo de Amicis. Será a primeira edição integral em Portugal deste clássico do século XIX, numa tradução de Margarida Periquito a partir do italiano. É o mesmo mês em que chega A Sede, do norueguês Jo Nesbo, e A Trégua, de Primo Levi (Dom Quixote). A Elsinore traz romance de Paul Beatty que antecedeu O Vendido. Chama-se disponibiliza A Dança do Rapaz Branco. Na Porto Editora, há Isabel Allende, Para lá do Inverno, e Veracruz, de Olivier Roland, na Sextante. E em Dezembro sai na Relógio d’Água o mais recente e celebrado livro de Kamila Shamsie. O título original é Home Fire e é uma actualização da Antígona, de Sófocles. As relações sociais, familiares e de fé no mundo contemporâneo.

E, não é novo, mas a tradução é uma novidade: Os Detectives Selvagens, de Roberto Bolaño, saem numa edição especial, revista, aumentada, na Quetzal.