Paulo Bragança: “muito fado” em Alfama e três discos no horizonte

Depois de anos de ausência e de silêncio, um assumido regresso: Paulo Bragança está de volta aos palcos e aos discos. Este sábado canta no Festival Caixa Alfama, uma estreia. E planeia um novo trabalho em três discos, a publicar até ao Verão de 2018.

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Paulo Bragança numa fotografia recente: onze anos fora do país, seis dos quais incógnito LUÍS CARVALHAL

Paulo Bragança está de volta, e desta vez para ficar. Viveu 11 anos fora do país, seis dos quais totalmente incógnito (sem deixar nenhum contacto em Portugal, nem sequer à família), por razões que explicou em entrevista recente a Bruno Horta, no Observador, e que aqui justifica com acrescidos pormenores. Após gravar quatro discos (Notas Sobre a Alma, 1992; Amai, 1994, também editado pela Luaka Bop de David Byrne; Mistério do Fado, 1996; e Lua Semi-Nua, 2001), zangou-se com a indústria, sofreu desgostos por mortes próximas, viu-se roubado (com a conta a zeros) por pessoas a quem confiava a gestão da sua vida artística e decidiu bater com a porta. Primeiro com a do mundo: usou drogas para tentar acabar com a vida, mas felizmente falhou. Depois, com a do país.

Saiu de Portugal em 25 de Março de 2006, só reaparecendo fugazmente em 2012. Sem qualquer contacto, excepto na embaixada portuguesa em Dublin, onde se fixou depois de curtas incursões por Londres e pela Roménia: se ele morresse, avisariam a família. Até que um dia se realizou em Dublin um jogo de futebol com clubes portugueses, uma final importante. “O embaixador ligou-me a dizer: está cá a imprensa toda por causa do jogo, não acha que é altura de falar para a imprensa? Então, acabou por acontecer.” Deu entrevistas e o seu nome reapareceu. Adquiriu, entretanto, nacionalidade irlandesa, que mantém. Tem uma casa na Irlanda e outra em Lisboa, onde vive. Em 2017 já cantou no Museu do Fado, no Festival Bons Sons, no Festival Entremuralhas em Leiria e na Festa do Avante! e agora estreia-se no Caixa Alfama (este sábado). Participa no novo disco dos Moonspell, 1755, no tema (e vídeo) In Tremor Dei, e em Novembro deverá lançar um novo disco, gravado com Carlos Maria Trindade.

Operário e actor

Para trás, tudo aprendizagens. Mochila às costas e sem destino certo. Chegado a Dublin teve logo um choque. “Naquele dia havia um campeonato mundial de golfe e nem que eu tivesse mil euros no bolso arranjaria onde dormir. Só depois das 11 da noite é que consegui encontrar um local. Quando paguei 50 e tal libras esterlinas, pensei que me iam dar a chave de um quarto mas conduziram-me a uma camarata com 18 beliches! E eu nem sequer sabia que existiam hostéis! Nem me despi, deitei-me na cama vestido.”

Por entre várias peripécias, cantou em bares (era apenas “Paulo”), dormiu na rua (“por opção”) e foi fazendo o seu próprio caminho, até que lhe arranjaram um emprego certo. “O único trabalho que tive foi na câmara de Dublin, como ladrilhador. Em vez de andar por ali sem fazer nada, de vez em quando ia com os ladrilhadores para saber como se fazia. Comecei a mexer nas coisas, a perceber, e eles contrataram-me. Como não tinha tanto dinheiro assim, aceitei. Porque não? Não era para sempre, era uma experiência.” Ficou como supervisor da secção. “Aí percebi que com estas mãos, as minhas mãos, conseguia pregar um prego! Para mim aquilo foi uma satisfação imensa. Em cinco dias, eu podia agarrar numa casa de banho ou numa cozinha que estava podre e pô-la impecável. Foi fabuloso!” O trabalho era rigoroso, mas nunca teve problema nenhum.

Um, dia estava em casa de uma directora de fotografia chamada Orla Russell, a tratar de uma obra, quando ela de repente lhe perguntou se gostava de cinema. “Disse que sim, que gostava.” Mas quando pensou que ela lhe ia perguntar por realizadores preferidos, ela disse-lhe que estava a pensar nele para protagonista de um filme. “O que é que acha?”, perguntou-lhe. “Respondi: acho bem. E pela primeira vez, depois daquele tempo todo, disse: então vá ao Facebook e veja este nome. E ela foi. Dois dias depois, estava tudo a falar na ‘portuguese star’. Disse-lhes que não era nada disso, que estava ali exilado. Mas foi a partir daí que as coisas começaram.” Fizeram muitas reuniões, para preparar o filme. “O papel das artes naquele país é fundamental, não é como aqui. Não é por acaso que têm o maior número de prémios Nobel da literatura, na música não há ninguém que toque ou cante mal, mas tocam naturalmente, sem pretensões artísticas. E foi isso que me levou a lá ficar. A literatura já conhecia antes, a música não.”

O tal filme, entretanto, foi rodado e estreado. “Era uma curta-metragem do Fergal Rock, a preto e branco, chamada Henry & Sunny, que se tornou um filme de culto": "Recebeu prémios, foi ao Fantasporto, na altura, e a vários festivais. O Fergal é um excelente realizador, está até neste momento em Hollywood a fazer uma longa-metragem.”

O adeus às aulas

Até que, na câmara, o trabalho cessou. “A crise começou e eles dispensaram imensas pessoas, eu incluído. Isso foi em 2008.” Começaram então a levá-lo a bares, conheceu músicos, um italiano desafiou-o a ocupar-se da zona de espectáculos do seu wine bar e ele nem hesitou. “Mandei logo fazer um palco e dinamizaram-se ali horas de poesia, música, storytelling, eu também cantava quando queria, o Jeremy Irons era assíduo porque mora na Irlanda, ele e a mulher. Parava ali muita gente.” Nesse tempo também tomou conta de um castelo, a pedido do dono, comerciante de arte. Outra ocupação, e no coração geográfico da Irlanda. “Era tudo pessoas que eu ia conhecendo, foi assim.”

E surgiu-lhe outra oportunidade: ofereceram-lhe a possibilidade de dar aulas, porque ele entretanto se formara em Filosofia com bons resultados, numa universidade irlandesa. Oportunidade que ele quase aceitou. “Adoro ensinar, o ordenado era muito atractivo, mais de seis mil euros fora os extras e fora o prestígio de ser professor numa faculdade." Mas fechar a porta à música com tal compromisso, que seria para quatro anos, era uma opção pesada. E ele acabou por não aceitar. “Eu nem sabia como estavam as minhas cordas vocais, nunca tinha ido a um médico ver isso. Depois fui e disseram-me: ‘as suas cordais vocais estão como se tivesse acabado de nascer’. Pronto, estava tudo bem.”

Um disco que serão três

As apresentações de Paulo Bragança, este ano, no Museu do Fado, no Festival Bons Sons e na Festa do Avante!, antecederam a do Festival Caixa Alfama, onde se estreia este sábado (palco Ermelinda Freitas, no Largo das Alcaçarias, às 23h). “Têm sido todos diferentes. No Museu do Fado, por exemplo, foi só fados tradicionais e algumas coisas minhas; já o Bons Sons passou por coisas minhas e já coisas do novo disco.” Disco esse que deverá subdividir-se em três, com edição sequencial. “Estou a pensar fazer uma trilogia: agora um, na Primavera outro e se calhar no Verão outro. Terá originais, claro. Terá uma música romena. O triângulo será Lisboa-Dublin-Istambul. Passa por aí. Haverá, nesses discos, um assumidamente de versões e outro de coisas só minhas.”

No Caixa Alfama estarão, com Paulo Bragança (voz), Bruno Amorim (guitarra portuguesa), Tiago Silva (viola de fado), Jorge Carreiro (contrabaixo) e um músico dos Melech Mechaya, André Santos (guitarra). “Este espectáculo está a ser concebido só para o Caixa Alfama, daí o cuidado em ser muito fado, fado, fado. Não quero estar ali a meter nada que baralhe, devido à especificidade do festival. Há depois uma parte diferente, mas que se conjuga. E talvez tenha um convidado a cantar, veremos.”