Braço-de-ferro entre Trump e Partido Democrata deixa sonhos dos dreamers em suspenso

Líderes do Partido Democrata anunciam que chegaram a acordo com a Casa Branca para que 800 mil pessoas voltem a ficar a salvo da deportação, mas usaram a palavra "muro" e Donald Trump recuou.

Cerca de 800 mil pessoas levadas para os EUA estavam abrangidas pelo DACA
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Cerca de 800 mil pessoas levadas para os EUA estavam abrangidas pelo DACA SHAWN THEW/EPA

O plano do candidato Donald Trump para construir um muro "grande e lindo" ao longo de toda a fronteira com o México chegou finalmente ao topo da agenda política dos Estados Unidos e vai agora testar a capacidade do presidente Donald Trump para cumprir essa ambiciosa e controversa promessa.

De forma surpreendente para quem não acreditava que Trump fosse capaz de dialogar com quem está do outro lado de qualquer discussão, a Casa Branca começou a negociar, na última semana, um acordo com a liderança do Partido Democrata.

Esse acordo tem dois objectivos fundamentais, um para cada uma das partes. O Partido Democrata quer que o Presidente ressuscite um programa que protege da deportação os imigrantes que foram levados pelos seus pais para os Estados Unidos com menos de 16 anos de idade; em troca, o presidente Donald Trump quer um compromisso do Partido Democrata para aprovar no Congresso o financiamento de um "enorme reforço da segurança nas fronteiras".

Esse programa de protecção – criado pelo ex-presidente Barack Obama em 2012 e chamado DACA (Deferred Action for Childhood Arrivals) – foi revogado por Donald Trump, mas também foi sempre claro que essa revogação seria usada pelo Presidente como uma moeda de troca, como o próprio deu a entender esta quinta-feira, ao elogiar esses imigrantes. "Será que alguém quer realmente expulsar jovens bons, instruídos e bem sucedidos que têm emprego, alguns deles a cumprir serviço nas forças armadas? A sério! Eles estão no nosso país há muitos anos sem terem culpa disso – foram trazidos pelos pais quando eram muito jovens", escreveu Trump em duas mensagens no Twitter.

Por isso, tanto a Casa Branca como o Partido Democrata estão de acordo: ambos querem que o tal programa DACA de Barack Obama volte a ser aplicado, embora muito provavelmente com outro nome e de certeza com a assinatura do actual Presidente. O que está a dificultar o anúncio oficial de que há acordo é aquilo que o Partido Democrata e a Casa Branca entendem por "enorme reforço das fronteiras".

Muro novo ou renovações

Na madrugada desta quinta-feira, o líder do Partido Democrata no Senado, Chuck Schumer, e a líder do Partido Democrata na Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, saíram de uma reunião na Casa Branca e fizeram um anúncio surpreendente: tinham chegado a acordo com o presidente Donald Trump para voltar a proteger os imigrantes que foram levados pelos pais para os Estados Unidos quando eram menores (conhecidos como dreamers, quase 800 mil pessoas) e, em troca disso, comprometeram-se a trabalhar num "pacote sobre segurança na fronteira". Até aqui, tudo bem; mas a bomba política veio depois – segundo os líderes do Partido Democrata, esse compromisso deixava de fora a construção do tal muro "grande e lindo" prometido por Donald Trump durante a campanha eleitoral.

A necessidade que os líderes democratas tiveram de salientar que o muro não estava incluído no acordo pode ser visto como uma forma de pressão: agora que o presidente Donald Trump aceitou voltar a proteger os dreamers, terá menos margem de manobra para voltar atrás. E a Casa Branca ficou com a batata quente nas mãos: as últimas horas foram passadas na defensiva, a tentar tranquilizar os apoiantes de Donald Trump de que o muro vai mesmo ser construído, ao mesmo tempo que tenta tranquilizar a maioria do povo americano sobre o futuro dos dreamers.

A porta-voz da Casa Branca, Sarah Huckabee Sanders, foi a primeira a dizer que não houve acordo sobre o muro. "Apesar de o DACA e a segurança na fronteira terem sido discutidos, a exclusão do muro não foi acordada", escreveu a responsável no Twitter.

Mais tarde, o próprio Presidente veio falar para os seus apoiantes sobre o muro – e sobre o que agora se entende por "muro" na Casa Branca.

"Não foi feito nenhum acordo na última noite sobre o DACA. Terá de haver um acordo sobre um enorme reforço da segurança na fronteira em troca de um consentimento. Seria sujeito a votação", escreveu Trump no Twitter, numa resposta à manobra política dos líderes do Partido Democrata de amarrarem o Presidente a um acordo concluído.

E ficou a promessa de que a grande promessa de campanha (o muro) vai mesmo ser cumprida – aliás, já está a ser cumprida, diz Trump. Só que poderá não ser apenas um muro – e também não tem de ser "grande e lindo". "O MURO, que já está a ser construído sob a forma de uma nova renovação de velhas vedações e muros, vai continuar a ser construído", escreveu o Presidente Donald Trump.

A assistir de fora a tudo isto, e com cara de poucos amigos, estão os líderes do Partido Republicano no Congresso. Muitos deles, como o speaker da Câmara dos Representantes, Paul Ryan, tiveram muitos problemas com o candidato Donald Trump – durante a campanha, vários nomes de peso do Partido Republicano tentaram impedir a nomeação de Donald Trump como candidato oficial do seu partido, evidentemente sem sucesso.

Mensagem para o Partido Republicano

Mas, quando Trump foi eleito Presidente, e o Partido Republicano renovou as suas maiorias na Câmara dos Representantes e no Senado, em Novembro passado, pensava-se que o Partido Democrata iria ficar de fora das grandes decisões do país – por serem todos do mesmo partido, a Casa Branca e os líderes do Congresso seriam uma máquina de legislação e promulgação que iria mudar totalmente a face do país deixado por Barack Obama.

O problema é que, quase oito meses depois da tomada de posse de Donald Trump e do arranque do novo Congresso, nem a Casa Branca nem o Partido Republicano alcançaram grandes vitórias – os líderes do Partido Republicano não conseguiram convencer um número suficiente de congressistas para acabarcom o Obamacare, por exemplo, o que agravou ainda mais a relação entre Trump (que tinha prometido o fim do Obamacare durante a campanha) e a liderança do partido no Congresso. Quase todas as vitórias da Casa Branca (como a restrição à entrada de cidadãos de países de maioria muçulmana) têm sido alcançadas através de decretos presidenciais, que podem ser revogados pelo próximo Presidente.

No Congresso (onde as mudanças são mais duradouras, porque dependem da formação de maiorias através de acordos muito difíceis de alcançar) o Partido Republicano e a Casa Branca conseguiram aprovar a nomeação do juiz conservador Neil Gorsuch para o Supremo Tribunal – uma mudança muito importante, já que o Supremo é chamado a decidir sobre as grandes discussões da sociedade americana, e os seus juízes só são substituídos quando morrem ou quando se reformam. Neil Gorsuch fez 50 anos no mês passado; os seus colegas mais velhos são Ruth Ginsburg (84 anos), Anthony Kennedy (81 anos) e Stephen Breyer (79 anos).

Apesar de Donald Trump ter negado esta quinta-feira a existência de um acordo com o Partido Democrata sobre o DACA (pelo menos nos termos usados pelos líderes do partido adversário), a verdade é que a Casa Branca está a dialogar com o outro lado, o que também pode ser entendido como uma mensagem para os congressistas do Partido Republicano: ou começam a aprovar a agenda do Presidente, ou o Presidente vai começar a fazer acordos com o Partido Democrata.