Três peças para Tamara engolir e regurgitar

Em Trilogia Antropofágica, a coreógrafa uruguaia Tamara Cubas engole três peças de criadores brasileiros e digere-as para tentar descobrir o quanto pode ser transformada pelo outro, o quanto o seu corpo está disponível para se deixar habitar.

<i>Permanecer</i>, primeiro ato de <i>A Trilogia Antropofágica</i> de Tamara Cubas
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Permanecer, primeiro ato de A Trilogia Antropofágica de Tamara Cubas nacho correa

Foi o desejo que primeiro lançou a coreógrafa Tamara Cubas na direcção das três peças que compõem a sua Trilogia Antropofágica. O desejo porque era um imperativo físico de se envolver com as criações de Marta Soares, Marcelo Evelin e Lia Rodrigues. Tanto assim que a vontade de Tamara era comê-las. Entregou-se tanto a cada uma dessas três peças/performances que queria tragá-las, carregá-las consigo, que fizessem realmente parte de si.

Esse impulso e o desenho em bruto do gesto já lhe estavam entranhados no corpo quando começou a pesquisar as formas de aproximação a Vestígios (Marta Soares), Matadouro (Marcelo Evelin) e Pororoca (Lia Rodrigues). Já em Multitud (2011) e em Puto Gallo Conquistador (2014), o olhar de Tamara Cubas era atraído pela “relação com o poder, a relação com o outro, a possibilidade de heterogeneidade no colectivo”, a "desocidentalização" e o escarafunchar nas feridas do colonialismo. E andava então a rodear-se das palavras de Espinosa e sobre a capacidade de afectar o outro, a primeira das pistas que queria desenvolver na sua trilogia. Faltava-lhe, no entanto, a porta de entrada para as peças, o motor conceptual que pudesse emprestar uma forma e sugerir um método.

E foi essa porta de entrada que descobriu numa conferência e no posterior contacto com a investigadora brasileira Suely Rolnik. E foi pela mão de Rolnik que Tamara chegou à boca. Ou seja, através do trabalho da investigadora, a coreógrafa foi empurrada até esbarrar com a antropofagia, tal como recuperada pelos artistas brasileiros que na década de 1920 se enamoraram com o modernismo e descobriram nos índios tupinambás e nas suas práticas autofágicas um mote teórico capaz de sustentar a arte que queiram produzir e lançar para o mundo – inspirada no que acontecia na Europa, mas engolindo-a e desenvolvendo-a de acordo com um contexto local. “Suely plantou em mim as noções de antropofagia como uma solução, como um ponto de vista para pensar as relações entre as pessoas”, conta Tamara Cubas ao Ípsilon. Em grande parte porque “os índios tupinambás têm uma relação muito interessante com a antropofagia – eles comem o outro porque reconhecem que o outro pode modificá-lo, reconhecem a qualidade de afectação do outro em si”. “Então há uma relação com esse outro, normalmente o colonizador, mas em que há também uma relação de admiração ou que reconhece no outro algo com potencial transformador.”

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Resistir, segundo ato nacho correa

Era precisamente disso que Tamara andava à procura. Não uma inspiração pura e simples em costumes canibais, mas uma ritualização e uma forma de deglutir três obras marcantes na sua vida e permitir que vivessem dentro de si, a transformassem, passassem a circular no seu organismo como algo seu, para depois serem devolvidas ao mundo já digeridas e ruminadas, alteradas, provavelmente irreconhecíveis. Daí a decisão de avançar com uma trilogia. Uma única peça não permitiria a Tamara concluir se é, de facto, possível ser modificado por outro de acordo com o enunciado artístico que definiu. E daí que afirme que “não tem tanto que ver com as peças em si”. Cada uma das três paragens da Trilogia Antropofágica é mais uma estocada nessa investigação pessoal ainda por terminar. Não arrisca ainda assumir uma resposta final, embora não esconda que a tentação, antes de estrear em Lisboa o terceiro e derradeiro objecto de regurgitação artística, é a de se declarar transformada pelo processo. “Mas é ainda uma especulação”, ressalva.

Será sempre uma especulação até que Tamara Cubas assista ao terceiro capítulo a acontecer diante do seu público. Por muito que, relata num português cheio de um balanço apreendido em terras brasileiras, ao terminar o último ensaio da residência em que ficou fechada a revisitação de Pororoca se tenha espantado a pensar: “Nossa, como é que a gente chegou até aqui?” Como se, subtraído todo o caminho entre os dois pontos, olhando para a partida e a chegada, fosse impossível relacionar as duas obras.

Zoom out e rewind

A Trilogia Antropofágica de Tamara Cubas, dividida em três actos (Permanecer, Resistir e Ocupar), marca a abertura de temporada do Teatro São Luiz, em Lisboa, com as três peças a serem apresentadas de forma faseada (15 e 16 de Setembro, 19 e 20, 23 e 24) e integradas na programação de Lisboa 2017 – Capital Ibero-Americana de Cultura. E podem ser observadas a partir de dois movimentos distintos: zoom out e rewind. Zoom out porque o lugar destinado ao espectador se afasta cada vez mais do palco. Em Permanecer, primeiro acto criado a partir de Marta Soares, a instalação depende da passagem dos espectadores pelo cenário. Em Montevideu, quando se estreou em Maio de 2016, durante as cinco horas em que o espectáculo acontece (sem qualquer obrigação de “permanecer” na sala durante a totalidade da apresentação), cada elemento do público foi convidado, à vez, a colocar-se em frente à bancada e a deixar-se ficar um pouco naquele território, num jogo de revelação mútua.

Em Resistir, a partir de Marcelo Evelin, Tamara Cubas coloca em cena cinco bailarinos que se deslocam sobre um monte de tábuas de madeira espalhadas pelo chão, enquanto o público assiste a partir da bancada montada no palco mas não tem qualquer intervenção directa no espectáculo. No terceiro acto, inspirado por Lia Rodrigues, os bailarinos são já 11 e vêem-se diante de um muro, enquanto os espectadores estão já numa grande sala, num afastamento progressivo do epicentro de cada obra. Por outro lado, o rewind acontece à boleia dos materiais com que os intérpretes criam uma relação em cada acto: se na última peça o muro é a presença que medeia todos os gestos, ao recuar-se para a etapa anterior esse muro aparece destruído, caído, reduzido a um amontoado de tábuas, enquanto em Permanecer as tábuas já não existem, são substituídas por um chão de carvão que sugere mais um passo na destruição. “De trás para a frente”, reconhece Tamara, “há um processo que vai desarmando espaço, estrutura e colectivo. Da frente para trás o colectivo vai crescendo, mas acabamos por só poder assistir de longe ao corpo em fúria de Ocupar.”

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Ocupar, Primeiro ato nacho correa

Nessa perspectiva de Ocupar (verbo encontrado para traduzir avassallar, que Tamara descreve como algo que “tem que ver também com a ideia de um rio que galga as suas margens e arrasta tudo consigo”), o afastamento sabota a possibilidade de o público se deixar afectar por qualquer fúria ou qualquer outra emoção. É como “com os corpos que vemos na televisão, do Médio Oriente, sempre longe de mais”, diz a coreógrafa. O espanto e o horror podem até infiltrar-se na pele de quem assiste, mas a probabilidade de ser verdadeiramente afectado por algo que acontece “muito longe de nós, cultural e geograficamente”, é escassa. Enquanto em Resistir a vibração daquilo que os performers fazem em palco é sentida fisicamente pelos espectadores e em Permanecer o espectáculo nunca existirá se o público não cumprir com a sua parte.

Os verbos que Tamara Cubas associa aos três movimentos da Trilogia Antropofágica fornecem uma outra ordem de pistas. Mas reflectem sobretudo uma escala íntima, da sua própria relação com as três peças originais, pelas quais Tamara Cubas diz ter um intenso amor – sendo que cada uma das criações dialoga também com o interior da trilogia. E deixam transparecer, por exemplo, o quanto Tamara estava embrenhada na investigação artística dos desaparecidos durante a ditadura no Uruguai na altura em que viu Vestígios pela primeira vez. Permanecer, Resistir e Ocupar são, por isso, um monólogo de Tamara Cubas com as questões fundamentais que a preenchem, um diálogo colectivo que empreende com os bailarinos à procura da transformação operada por cada obra e uma tentativa de enfiar pela goela abaixo do público uma obra que cada um digerirá por sua conta e risco.