Crítica

O grande amor da vida dele

Nem filme de velho, nem filme de velhinho moderno: o veterano alemão Volker Schlöndorff assina um sereno drama clássico à moda antiga.

O que Schlöndorff filma, com paciência e delicadeza, é um homem a medir a extensão do mal que fez
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O que Schlöndorff filma, com paciência e delicadeza, é um homem a medir a extensão do mal que fez

Faz parte da ironia do tempo que passa que aquilo que foi ontem aclamado como inovador ou vanguardista seja hoje considerado bafiento: as “novas vagas” de ontem são os convencionalismos anquilosados de amanhã. Ainda não há muito tempo, Bertrand Tavernier, na sua belíssima Viagem pelo Cinema Francês, demonstrava como tudo isso não passa de uma etiqueta fugaz ou prática que serve para “arrumar” filmes em gavetas sem prestar necessariamente atenção ao que os singulariza. O veterano Volker Schlöndorff (O Tambor, 1979) começou precisamente como assistente de realizadores franceses como Louis Malle ou Alain Resnais, foi um dos nomes de ponta do jovem cinema alemão dos anos 1960 e 1970 a par de Herzog ou Wenders, mas hoje é visto como um cineasta menor que se deixou seduzir pelo exacto conformismo contra o qual se erguia.

Depois de um já muito recomendável Diplomacia (2014), Reviver o Passado em Montauk é a melhor prova de que Schlöndorff não está nem anquilosado nem conformado. Sim, é verdade que o filme se instala num subgénero perfeitamente delimitado — o drama adulto literário que terá tido o seu “momento alto” nos anos 1970. (Nem por acaso, o filme foi co-escrito com o romancista irlandês Colm Tóibín, e cita um romance do suíço Max Frisch.) Sim, é verdade que é daqueles filmes que transpiram todo um conforto burguês, levantando aquela questão eternamente lançada por Morrissey: “Isto não tem nada que ver com a minha vida!” Mas até tem, porque Reviver o Passado em Montauk é um filme subterrâneo sobre o remorso e a culpa, sobre a tentação do abismo que nos atrai a todos — como poderia ter sido o caminho que nunca tomámos? No caso, conta-se a história de um escritor que, de passagem por Nova Iorque para lançar um livro, procura reencontrar o grande amor da sua vida que deixou escapar; Max quer perceber se há hipótese de reparar esse mal, mas Rebecca sabe que não é esse exactamente o verbo certo.

O que Schlöndorff filma, com precisão, paciência e delicadeza, é um homem (o sueco Stellan Skarsgård, a ferrar o dente num papel como raramente tem) a medir a extensão do mal que fez, enquanto toma consciência que, por muito que a sua arte e a sua vida se entrelacem, uma não substitui a outra. Schlöndorff fá-lo sem nunca ceder excessivamente ao bafio preguiçoso, nem inventar truques narrativos ou formais para modernizar desnecessariamente (à excepção, talvez, do infeliz genérico de abertura). Não é um filme de velhinho moderno, nem é um filme de velhinho: é um filme clássico, pausado, seguro, de uma surpreendente serenidade e compreensão para com as suas personagens que deitaram tudo a perder. Será, quando muito, um belo filme de maturidade, que não se dá com os ritmos frenéticos dos nossos dias. Talvez por isso pareça velho. Mas não é.