Reportagem

“Dizem por aí que ela não andava boa da cabeça”

Suspeita de matar filho internada na psiquiatria do Hospital da Guarda. Consumida com desentendimentos com familiares, estaria deprimida e há anos que não tinha emprego. Temia que filho fosse vítima de bullying.

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Paulo Pimenta
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Era só o primeiro dia de aulas. Dentro da cabeça, a professora Rosa Malés ensaiava o que havia de dizer. Uma mãe telefonara-lhe a pedir que contasse à filha que Rafael fora morto, porventura pela mãe dele. Outras mães já tinham contado aos filhos, restava saber se bem, se mal.

Todos conhecem Rafael na Escola Básica do Barracão, em Panóias de Cima, freguesia rural da Guarda. O rapaz, de 11 anos, frequentou-a cinco anos. E Rosa foi sempre a sua professora. Transitara agora para o 5.º ano. Para ele, nesta terça-feira, o dia da recepção aos alunos já seria na Escola Secundária da Sé, na cidade.

Como explicar o que aconteceu terça-feira na casa de Rafael, dois pisos de um azul desbotado, rente à Estrada Nacional 233, no lugar de Catraia do Sortelhão, na freguesia de Santana de Azinha? Talvez nem a mãe, que está agora internada na psiquiatria do Hospital da Guarda, conseguisse.

Tinha de falar. “Isto é uma coisa demasiado próxima”, diz. “Não dá para fingir que não existe.”

Conhecia alguns factos. Por volta das 16h30, o pai, jardineiro no Hospital da Guarda, chegara a casa e deparara-se com a mãe desorientada e o filho a morrer. Quando os Bombeiros Voluntários da Guarda lá chegaram, o rapaz estava em paragem cardiorrespiratória. Ainda trataram de fazer as manobras de reanimação e suporte avançado de vida, mas já não puderam salvá-lo.

Como explicar às crianças?

Parecia-lhe importante explicar às nove crianças que tinha dentro da sala que “a mãe do Rafael não está bem”. Não quer que se amedrontem, caso ouçam dizer, como viu nas redes socais, que a mulher é um monstro. E quis que soubessem que ainda não se sabe muito bem como morreu a criança.

Nem a mãe, nem o pai foram ainda ouvidos formalmente. “Ela será ouvida quando o estado dela o permitir”, salientou fonte da Polícia Judiciária. “Se for ouvida sem ter condições físicas e intelectuais, o depoimento pode ser considerado irregular. Quando as tiver, será presente a um juiz.”

Na terça-feira “teve um momento de lucidez”. Nessa altura, terá declarado à PJ que tirou a vida ao filho. A autópsia começou a ser feita ao final da tarde desta quarta-feira. Tudo indica que foi asfixiado com um cachecol entre as 9h e as 10h. Resta saber se tomou medicamentos antes.

Conversas poucas em Catraia do Sortelhão. E quem o faz apressa-se a dizer que a mulher, de 47 anos, está muito deprimida. O diagnóstico fora feito havia muito e as receitas até tinham sido aviadas na farmácia, mas ela não tomava os medicamentos ou tomava-os de forma intermitente.

“Dizem por aí que ela não andava boa da cabeça”, comenta um vizinho, já entrado na idade, no Café Diana. “Ela adorava aquele filho”, diz uma vizinha, atrás do balcão. “Aquele filho era tudo para ela. Era o mundo dela. Começou a ficar doente. Se calhar não teve a ajuda que precisava…”

Nunca mais encontrou emprego estável

Muito trabalhou nas cablagens. Foi funcionária da maior fábrica do distrito. Em 2010, a Delphi despediu 601 pessoas. A empresa ainda tentou reduzir os custos e adaptar a estrutura ao volume de encomendas, mas acabou por encerrar aquela unidade. No final de 2010, mais 321 pessoas ficaram sem emprego.

Muitas colegas integraram duas fábricas ligadas à indústria automóvel, a Dura Automotive Portuguesa - Indústria de Componentes Automóveis e a Coficab Portugal - Companhia de Fios e Cabos. A mãe de Rafael, essa, nunca mais encontrou emprego estável. Tinha a sensação que nada fazia, apesar do filho, da casa, dos porcos, das galinhas, da horta e do trabalho sazonal nos viveiros de morangueiro.

Por causa das elevadas altitudes e das baixas temperaturas, os morangueiros desenvolvem-se bem na Guarda. Está prestes a começar a época de maior trabalho. A grande apanha dos morangueiros estende-se de Outubro a Fevereiro. Os viveiros precisam sempre de braços extra para recolher os pés, seleccioná-los e juntá-los em molhos, que depois são colocados em caixas e etiquetados.

Não era só o desemprego. Também andava consumida com desentendimentos com familiares, em particular com uma tia. Metera na cabeça que ela lhe andava a roubar água. Alertara os Serviços Municipalizados de Água e Saneamento, mas a equipa não encontrava nada de suspeito.

Moram vários familiares neste lugar feito de casas intervaladas por hortas. Na casa que se segue, a tia com quem não fala. Na casa seguinte, a tia que mora em França. Do outro lado da estrada, uma irmã e logo outra irmã.

Os tios de França estão cá. Fernando Lopes Antunes e a mulher vieram passar duas semanas à terra, como de costume. “Quando cheguei, ela veio ver-me. Ela tem um prediozinho atrás do meu”, conta ele. “Eu disse-lhe que ia meter água e ela disse-me: 'Se fosse a você, não metia. Você não sabe o que se passa aqui?’ Achei que ela não estava normal. Tinha um olhar duro.”

A água era o assunto constante. E a atitude de suspeição estava a alastrar-se a outras esferas da vida.

Temia que filho fosse vítima de bullying 

Em Dezembro, a professora Rosa levou os alunos a um evento natalício que houve na cidade. Os rebuçados distribuídos pelos palhaços contratados pela Câmara da Guarda não chegaram para todas as crianças presentes. A professora tratou de comprar mais para que nenhum dos seus alunos ficasse sem a boca doce. Ao saber da história, a mãe de Rafael assumiu que “o filho estava a ser discriminado pela câmara” por causa da polémica da água.

À PJ, a mulher terá dito temer que o filho viesse a ser vítima de bullying na nova escola. Ninguém sabe onde foi buscar tal receio. “Ele aqui nunca sofreu bullying”, afiança Rosa. “Era o aluno mais velho, porque perdeu um ano, o 2.º ano. E era um líder. Tinha características de líder. Os outros faziam o que ele mandava. Foi o único aluno que me ligou várias vezes nas férias." Estava entusiasmado com a mudança de escola. "Já tinha os livros."

Os colegas querem todos ir ao funeral. “Telefone à minha mãe para eu conseguir ir, por favor”, pediu um deles à professora à saída para o almoço. E Rosa acha que devem ir todos despedir-se do amigo. “Todos querem ir, mas não sabem se os pais autorizam. Vou comprar uma flor por cada um e mandar em nome da escola.”