No anfiteatro Steve Jobs, Tim Cook vai tentar mostrar que o iPhone é especial

Com o mercado a abrandar, as marcas aumentam ecrãs, melhoram câmaras e usam inteligência artificial para convencer os consumidores de que vale a pena trocar de telemóvel.

Tim Cook, durante a apresentação do ano passado
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Tim Cook, durante a apresentação do ano passado Reuters/ROBERT GALBRAITH

Mesmo para uma marca habituada a captar atenções, a expectativa em torno do novo iPhone está invulgarmente elevada. Para os fãs, o momento é simbólico: o primeiro iPhone foi apresentado por Steve Jobs há uma década. Para a Apple, é uma questão de negócio: o telemóvel é a jóia da coroa, com um enorme peso na facturação total, e os números de vendas revelam um ritmo de crescimento baixo, tal como acontece com o mercado dos telemóveis em termos globais.

Longe vão os tempos em que o sector crescia a dois dígitos ao ano. No ano passado, segundo números da analista IDC, a venda de smartphones subiu apenas 2,3%, sobretudo com a ajuda de marcas asiáticas emergentes. Em zonas como a América do Norte ou a Europa, por exemplo, a maioria das pessoas já tem um smartphone. Mesmo na China, outrora um importante motor para o mercado, a procura está há muito a arrefecer. Em vários dos países em desenvolvimento, o crescimento faz-se sobretudo nos segmentos de preço mais baixo, um terreno onde a Apple não joga.

Com muitos mercados numa fase madura, os fabricantes esforçam-se por apresentar motivos que levem os consumidores a querem substituir os aparelhos que têm na mão por telemóveis novos. Uma das apostas são os ecrãs de dimensões generosas (que contribuíram para que as vendas de tablets no segmento do consumo tenha afundado). Também as câmaras continuam a ser uma característica importante e muitos fabricantes optaram por ter duas câmaras traseiras nos seus modelos, especialmente nos de gama mais alta, permitindo assim mais qualidade e mais opções no momento de tirar uma fotografia. Acontece, por exemplo, em modelos da Samsung, da HTC, da Huawei e também no mais recente modelo da OnePlus, uma pequena fabricante chinesa que criou nos últimos anos uma comunidade de adeptos. No caso da Apple, a estreia nos telemóveis de duas câmaras aconteceu no ano passado, com o iPhone 7 Plus.

As empresas têm também investido na ideia de telemóveis mais inteligentes. Os assistentes virtuais estão progressivamente mais sofisticados e mais conectados: respondem a perguntas, mostram alertas de trânsito e até antecipam necessidades, indicando restaurantes, horários dos transportes públicos e o estado do tempo nos locais onde o utilizador se encontra. A Apple tem a Siri, criada há seis anos, e que recentemente mudou de mãos entre os executivos da empresa, no que foi visto como um sinal da importância crescente da tecnologia. Já os vários Android têm o Google Now (também disponível para iPhone) ou o Google Assistant, e a Samsung fez este ano a sua incursão nesta tecnologia, com a assistente Bixby. Esta tecnologia equipa os recentes Galaxy S8 , S8+ e Note 8. Um dos objectivos da marca sul-coreana, que há anos lidera o mercado, é transformar o telemóvel num centro de controlo para todo o tipo de aparelhos conectados.

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Como habitual, a Apple não revelou nada do que pretende apresentar. Mas, em vésperas de lançamento, uma invulgar fuga de informação antecipou o que poderão vir a ser vários pormenores da nova linha. Foi tornada pública uma versão final do próximo sistema operativo iOS, que vai equipar os novos aparelhos. Um sistema operativo permite saber muitos pormenores sobre o equipamento a que se destina e, de acordo com os programadores informáticos que se dedicaram a dissecá-lo, são esperados três novos aparelhos: um iPhone 8 e um 8 Plus (essencialmente, evoluções dos actuais 7 e 7 Plus) e um terceiro telefone, chamado iPhone X, que será o topo de gama.

Muitas das conclusões obtidas a partir da análise daquela versão do iOS estão em linha com o que a imprensa norte-americana e os blogues especializados têm vindo a noticiar: um grande ecrã a ocupar praticamente toda a parte frontal do aparelho, tecnologia de reconhecimento facial que poderá servir para desbloquear o telefone e a ausência de um botão central, um componente que tem sido uma constante em todas as gerações do iPhone. Ao contrário do que acontece com alguns modelos de telemóveis Android, o botão não será apenas substituído por uma versão digital. Funcionalidades como regressar ao primeira ecrã ou mostrar todas as aplicações abertas podem ser substituídas por gestos, numa nova interface – a confirmar-se, será a maior alteração ao iOS desde que, em 2013, o aspecto do sistema foi substancialmente alterado e este passou a incorporar uma série de novos gestos.

Também o preço tem sido um tema de discussão online, com vários órgãos de comunicação a anteciparem que deverá rondar pela primeira vez a fasquia dos mil dólares. O analista Horace Dediu, que há anos se dedica a escrutinar as práticas de negócio da Apple, notou que a empresa tem vindo a aumentar sucessivamente o preço dos novos telemóveis e que um preço em torno dos 1100 dólares seria consistente com as práticas dos anos anteriores.

O preço do iPhone é um aspecto importante para as contas da empresa. No segundo trimestre deste ano, a Apple facturou 24,9 mil milhões de dólares (cerca de 20,8 mil milhões de euros) com o telemóvel, o que significou um aumento de 3% em relação ao mesmo período de 2016. Aquele valor representou 55% das receitas totais. Nos últimos dois anos, as vendas do telemóvel representaram, em média, 63% das receitas da Apple.

Quando nesta terça-feira subir ao palco do anfiteatro Steve Jobs, nas novas e futuristas instalações da empresa, o presidente executivo, Tim Cook, terá a tarefa de convencer os consumidores de que vale a pena trocar o aparelho que têm por um novo iPhone. Quem parece já estar convencido são os investidores: as acções da Apple valorizaram 40% desde o início do ano.