“A importância do legado de Violeta Parra está na magnitude da sua obra”

As canções de um ícone da canção chilena e mundial na voz de Isabel e Tita Parra, respectivamente filha e neta da cantora e compositora que nasceu há um século. Esta terça-feira no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, às 21h.

Isabel Parra, Tita Parra, Juan Antonio Sánchez e Greco Acuña
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Isabel Parra, Tita Parra, Juan Antonio Sánchez e Greco Acuña MARCELO MACHUCA

O centenário do nascimento de Violeta Parra (1917-1967) não podia ser melhor celebrado em Portugal. Depois de um espectáculo de homenagem em Lisboa, em Abril, que reuniu várias cantoras (Aline Frazão, Lula Pena, Mísia, Rita Redshoes e Señoritas) no Cineteatro Capitólio, é agora a vez de Yo Soy La Feliz Violeta, em que a filha e a neta da cantora e compositora chilena, Isabel e Tita Parra, respectivamente, revisitam a sua obra e cantam, também, canções de sua autoria. Primeiro no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, esta terça-feira às 21h, depois no Cine-Teatro Louletano, em Loulé, às 21h30 de quinta-feira.

“Cantar Violeta faz parte da nossa vida”, diz ao PÚBLICO Isabel Parra, numa entrevista pelo telefone. “Porque começámos a cantá-la desde muito pequenos, junto dela [Isabel e o seu irmão Ángel Parra, que morreu em Março deste ano]. E com a minha filha [Tita] sucedeu o mesmo: cantava com a sua avó, acompanhava-a. O fenómeno de continuidade musical com o repertório de Violeta tem que ver com isso, com o termos nascido numa família de músicos, em íntima ligação com o canto popular, com o canto folclórico, e posteriormente com o canto composto por Violeta Parra e depois com as composições que nós próprias fizemos. É como uma cadeia musical que continua em pleno desenvolvimento.” Mas Violeta Parra não foi apenas cantora ou compositora. Foi também pesquisadora, folclorista, radialista, escritora, pintora, escultora, serapilheirista. “O importante do legado de Violeta está na magnitude da sua obra, que não é somente musical; tem uma obra visual, poética. É uma artista absolutamente multifacetada.”

Exilados e refugiados

Para Isabel Parra, a obra da sua mãe está em boas mãos, num museu inaugurado em Outubro de 2015, em Santiago do Chile. “Fez-se uma busca, nos últimos 20 anos, pelos trabalhos dela que estavam dispersos pelo mundo, em particular na Europa, nos lugares por onde ela foi passando. Resgatar essa obra, reuni-la, foi um trabalho enorme que se fez num momento propício.”

Falar das canções consideradas mais marcantes de Violeta será falar apenas de uma parte do seu trabalho, diz Isabel: “As canções do último disco, as suas últimas composições, são as mais conhecidas no mundo inteiro. Mas a mim parece-me que há muitas outras canções que não foram tão difundidas e que são muito importantes. O trabalho de Violeta é muito amplo, ela tem mais de 300 canções e nós [no Chile] conhecemo-las todas e difundimo-las todas.”

Isabel e Tita Parra têm vários discos gravados em nome próprio, e com composições suas, para além dos que dedicaram à obra de Violeta. Numa das canções que compôs, Isabel canta: “Ni toda la tierra entera/ sera un poco de mi tierra. É assim o profundo amor dos chilenos pelo Chile? “Não são somente os chilenos, mas todos os povos que são forçados, a dado momento, ao exílio, ao desterro, contra a sua vontade. Hoje são os refugiados, os migrantes, mas aquela altura [a da ditadura de Pinochet] foi para nós a primeira experiência de exílio, até aí não sabíamos o que era não podermos voltar à nossa terra. Essa canção brotou dessa experiência, dessa dor. E serviu para muitos latino-americanos que se identificaram com ela, porque tiveram idênticas experiências. Muita gente tomou esta canção como sua porque partilhou da mesma dor, da mesma carência.”

Com os pés na terra

O disco mais recente de Isabel Parra chama-se Com Los Pies Sobre La Tierra. “Interessava-me falar de problemas que não abordei no disco anterior, coisas mais simples, outras temáticas. Foi um disco que me deu muito prazer, porque disse nele o que queria dizer.” Isto num momento em que o mundo mudou, em vários aspectos. Isabel: “Respiram-se outros ares, outros interesses. É um mundo mais violento, mais individualista. Mas não é um fenómeno chileno, é mundial.”

De Portugal, Isabel Parra guarda uma boa imagem, embora em termos musicais reconheça que conhece pouco. “É um belo país, com uma música extraordinária. No exílio conheci um músico português maravilhoso, Luís Cília, que foi muito amigo nosso. Conheço o fado, uma música que fala do coração, da emoção, de que gosto muito, mas lamentavelmente conheço pouco mais da música portuguesa. Talvez agora possa conhecer músicos, compositores novos, não sei.”

Em Lisboa e Loulé, Isabel Parra (voz e guitarra) e Tita Parra (voz e cuatro venezuelano) terão consigo dois músicos: Greco Acuña (percussão) e Juan Antonio Sánchez (voz, guitarra, charango, flauta). O concerto do CCB tem apoio do Conselho Nacional da Cultura e das Artes do Chile e integra-se na programação de Lisboa 2017 – Capital Ibero-americana de Cultura.

“Os nossos concertos são simples, mas feitos com muito sentimento, com muita verdade”, diz Isabel Parra. “E com instrumentos acústicos. É isso que queremos transmitir ao público: a simplicidade, a profundidade que espero que encontrem na nossa música.”