Crítica

Serralves e a arte como questão

A instalação de Ricardo Jacinto e o projecto de Alessandro Bosetti no Museu como Performance.

Fotogaleria
No chão jazia uma árvore de pratos de dimensões semelhantes, em que aos cabos de som se associa a representação de ramos. André Delhaye © Fundação de Serralves, Porto
Fotogaleria
Já sentado com o violoncelo, o trabalho de Ricardo Jacinto continuou a cingir-se à exploração de elementos muito pequenos André Delhaye © Fundação de Serralves, Porto

Qualquer pretexto para ir a Serralves é um bom pretexto e o fim-de-semana O Museu como Performance, no âmbito do qual foram apresentados dez projectos artísticos de artes que funcionam no tempo, faz pensar por que motivo não somos mais vezes confrontados com propostas musicais daquela Fundação, sobretudo no acolhedor auditório (se não o melhor, dos melhores da cidade).

No sábado, Ricardo Jacinto (Lisboa, 1975) ocupou a belíssima sala 5 (a primeira das galerias do museu), onde, à entrada, o público era recebido por uma delicada instalação: um piano com o pedal permanentemente pressionado por um peso servia de ressoador de duas notas, ocasionalmente ornamentadas com pequenos ruídos, (re)produzidas pelo computador. Daquele objecto de forte conotação clássica, o artista removeu a percussão e conservou a preocupação com um aspecto que, também nos três diferentes momentos em que se apresentou ao público (às 15h, às 17h e às 19h30), assumiu grande importância: a qualidade do som.

A performance das 17h00 dividiu-se em dois momentos, começando por um jogo de intensidades à volta dum instrumento visualmente apelativo: no chão jazia uma árvore de pratos de dimensões semelhantes, em que aos cabos de som se associa a representação de ramos. Com baquetas, Ricardo Jacinto fazia vibrar um prato (depois outro e outro), brincando a cada vez, com o auxílio de um microfone omnidireccional, com o som que captava de cada prato e que fazia soar nos altifalantes localizados na outra ponta da sala (próximo dos quais se colocaria no segundo momento, acompanhado do violoncelo). Já sentado com o violoncelo, o trabalho de Jacinto continuou a cingir-se à exploração de elementos muito pequenos, encadeados uns nos outros de forma livre, ora por variação, ora por contraste, sendo o processamento electrónico muito pouco espalhafatoso: a poética do som, o som pelo som.

Um pouco menos estimulante para os sentidos, mas talvez intelectualmente mais desafiador, foi o projecto que Alessandro Bosetti partilhou na sala 12, com a ajuda de um “grupo musical não profissional” composto por uma dúzia de pessoas de formação diversa. A primeira impressão de um discurso caótico, ao fim de uns minutos de observação/fruição desfaz-se em códigos simples que permitem a Bosetti “controlar” os seus “súbditos”. Como um improvisador, Bosetti manipula musicalmente “instrumentos” (as 12 pessoas), jogando um pouco com a imprevisibilidade do discurso destes (mas também com os timbres, intensidades e localização/orientação). Quem entra na sala é chamado a experimentar o “cocktail party effect”, tentando focar a sua atenção numa só ou mais vozes. E ao longo das cinco horas da performance, com momentos mais inteligíveis, sonoramente mais densos, mais despovoados ou monocórdicos, (quase) nada se repete.

Outro aspecto estimulante que, não sendo novidade, não deixa também de ser ainda pouco comum, pelo menos numa considerável fatia da nova música, é a livre circulação de público durante as performances. A ausência de delimitações claras relativamente a um espaço a ocupar pelo público ou mesmo dos comportamentos esperados deste obrigam a um diferente confronto com as manifestações artísticas, simultaneamente mais arejado e menos propício a fruições protegidas de ruído. O que Serralves permite, a cada momento, é que nos questionemos muito e sobre muita coisa. E não é esse o papel da arte?