Crítica

Em Life is Strange: Before the Storm somos alguém para encontrar

Awake, o primeiro episódio desta prequela, é um encaminhamento em ramo sólido; um encaminhamento que se afirma pela naturalidade com que lida com a juventude, desenvolvendo personagens até terem vida própria e o nosso interesse.

A primeira temporada de Life is Strange recorre constantemente à fotografia como prancha para assuntos mais transversais a uma determinada faixa etária. Por diversas vezes ao longo do quinteto de episódios, Max, a protagonista, usa a sua paixão e a descoberta da vocação para levar o argumento – e os jogadores – a reflectirem sobre o quadrante humano na fase da adolescência.

Não são adolescentes a serem adolescentes, mas sim adolescentes a tentarem perceber o resto das suas vidas. Quem jogou a obra da Dontnod sabe que ao lado de Max está Chloe, a rapariga rebelde de cabelo azul; quem jogou sabe que Chloe tem uma rebeldia que vai além do que normalmente é atribuída à sua faixa etária.

Agora a série está de regresso com várias alterações. Enquanto a Dontnod está ocupada com Vampyr, é a Deck Nine responsável na assinatura de Life is Strange: Before the Storm, uma prequela de três episódios – quatro, caso comprem a Deluxe Edition – que coloca em destaque Chloe. Sendo uma prequela, Max ainda está em Seattle antes de regressar a Arcadia Bay.

O primeiro episódio, Awake, é uma apresentação do novo conceito. Além da nova produtora e da personagem agora protagonista, há também uma alteração crucial feita ao cerne da jogabilidade. Max tinha o poder de rebobinar o tempo, moldar as suas escolhas até ao melhor discernimento e até ao melhor serviço prestado ao argumento. Chloe não tem esse poder, mas sim uma habilidade nada sobrenatural, o “backtalk”.

Ainda que o grosso da jogabilidade continue assente na interacção com outras personagens em várias cenas, na escolha das interjeições de entre múltiplos ramos disponíveis, Chloe faz com que o jogador esteja atento ao que é dito, mais concretamente a uma palavra que se destaque. Posteriormente, podemos arrasar com quem estamos a falar, puxando-lhe o tapete argumentativo as vezes necessárias até ganharmos a situação, normalmente de forma humilhante para o nosso “rival” temporário.

Na prática isto resulta como algo mais natural, fazendo-nos passar do plano do fantástico para um ângulo com o qual nos podemos relacionar sem grande esforço. A produtora pode chamar-lhe “backtalk”, mas na sua essência é um estado, uma forma ardilosa de mesclar o humor com a ânsia e a fúria que um corpo adolescente detém como um vulcão prestes a entrar em erupção.

Sagaz, destemperada, acutilante, Chloe está disposta a entrar em conflito sempre que a oportunidade surge. Sabemos que a jovem perdeu o pai, William; sabemos que a sua mãe, Joyce, namora com David, uma ameaça de padrasto que paira sobre a jovem como o seu próprio inferno.

Uma das grandes vantagens de ser uma prequela é que o jogador sabe muito mais do que as personagens. Sabemos quem é afinal David, sabemos o papel que Max virá a ter na sua vida aquando do regresso – Before the Storm decorre três anos antes da primeira temporada. Sabemos, sobretudo, o que acontecerá a Chloe Price no seu futuro. É injusto para as personagens, claro, mas é extremamente gratificante para o jogador.

Outro dos aspectos mais gratificantes de Awake é que começamos a conhecer melhor Rachel, uma personagem que está desaparecida na primeira temporada de Life is Strange. Ou seja, começamos a compreender que papel concreto teve a jovem misteriosa na vida de Chloe antes do regresso de Max. Aliás, a produtora não tem qualquer problema em deixar-nos ser amigos de Rachel ou moldarmos a narrativa ao ponto de declararmos a nossa intenção de sermos algo mais – sem catálogos ou julgamentos, apenas com naturalidade.

PÚBLICO -
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O arranque de Life is Strange: Before the Storm é um triunfo na forma como captura a adolescência de uma forma geral. Graças a uma caracterização profunda destas vidas, dá ao jogador um motivo de querer saber, de preocupação, de investimento. Não nos quer fazer reviver a nossa juventude, mas usar o desenvolvimento das personagens para deixar no ar pontas a que qualquer um se pode agarrar.

A sua principal falha, que nunca chega a prejudicar a recomendação, é quando não sabe parar. Ou melhor, quando Chloe, mesmo tendo em conta os seus problemas, perde o Norte e a equipa de argumentistas não sabe quando parar, gritando ao jogador por demasiado tempo esta fúria. Em alguns trechos, em vez de sermos levados a sentir a rebeldia inerente ao cômputo geral da sua personalidade, somos contemplados com uma persistência escusada dos comportamentos que ultrapassam a compaixão e se tornam quase uma caricatura de Chloe.

Felizmente não é o tom predominante do primeiro episódio, mas sim apontamentos vagos. O que é predominante são as peças memoráveis: viagens improvisadas de comboio, uma participação numa partida de Dungeons & Dragons, jogos inventados por Rachel e Chloe num dia para celebrarem a sua aproximação, a afirmação de um lar que a protagonista sente destruído; Awake coloca Rachel num pedestal e fá-la descer de lá por causa de Chloe; Awake ajuda-nos a ter um novo ângulo sobre estas vidas, sobre as vidas que se revelarão por completo dali a algum tempo.

Munido de incontáveis nuances, o primeiro episódio é o dissipar das dúvidas sobre todas as novidades perante a afirmação. Mergulhando até encontrar a sua essência, depois de terminado é fácil perceber que o episódio conquista no drama que recusa o barato. Levantando questões para agarrar o jogador nos restantes episódios, são duas horas de construção, mas que preenchem, que vão à angústia buscar mais uma porção de carisma e de elevação face à ideia já feita da adolescência.

Todo este ensemble passa também pela caracterização gráfica. Desde a escola ao quarto – e à casa – de Chloe, passando pela já mencionada viagem de comboio e pela sucata que terá um papel fundamental anos depois, o ambiente é uma parte intrínseca da história contada, pois a caracterização dos locais é feita com atenção prestada aos pormenores, o que ajuda a capturar o espírito destas vidas, que chocam e se recolhem; que se unem e se afastarão.

É verdade que há trechos técnicos que podiam ser mais polidos, como algumas texturas, a modelagem das personagens, e pormenores como as folhas e os efeitos dados ao fogo. Before the Storm está longe de ter o melhor aspecto, mas outras valências se suplantam facilmente. Ninguém joga Life is Strange à procura do estado da arte, mas sim à procura da sua dose de efervescência narrativa, da dor e da alegria, da sobrevivência ao peso de viver vidas interessantes, cáusticas e afirmativas.

Tudo isto é embalado por uma banda sonora que continua a ser excelente. Temas que reflectem o espírito jovem e que servem, em todo o seu esplendor, para assinalar os pontos narrativos mais sensíveis, como um estalar de dedos que mímica o ritmo e nunca deixa o episódio de arranque da nova temporada cair numa pasmaceira à deriva – há o propósito de enaltecer o enamoramento por esta realidade e a respectiva justificação.

Há também uma última mudança: a actriz que emprestou a voz a Chloe na temporada original não repete o papel devido a uma greve que afectou o sector. Assim, Ashly Burch dá lugar a Rhianna DeVries, que assina uma prestação notável – e por notável entenda-se que continua o carisma e a acidez já demonstrada na temporada de estreia.

Note-se, porém, que Burch está presente na equipa de argumentistas da nova obra, mas tem alguém à sua altura na vocalização. Também Kylie Brown, como Rachel, consegue atingir várias vezes o píncaro de entrega, deixando completamente em aberto o que podemos esperar da personagem nos restantes episódios de Before the Storm, que deverão conduzir-nos às circunstâncias da sua saída de cena. É um destino que, apesar de já conhecermos o desfecho, certamente tem matéria-prima para nos encantar na resolução e na execução.

Não seria um erro pensar que Life is Strange, como um todo, vai buscar muito à televisão, especialmente na cadência da revelação das arestas que captam a nossa atenção e detêm o nosso interesse. Dizer-se que é um drama juvenil é redutor, sobretudo porque leva a videojogo vários aspectos da personificação de vários problemas que não conhecem faixa etária. É uma luta, claro. Uma luta pela afirmação perante o meio que rodeia Chloe e que desaguará na temporada que já deverão ter jogado quando arrancarem com este episódio.

Life is Strange foi-se afirmando, episódio após episódio. Mesmo com as suas falhas, Awake, o primeiro episódio da nova temporada, não é um espectáculo de marionetas já ensaiado sobre a adolescência. Carisma, aprofundamento de personagens através de um argumento que nos amarra, são as suas maiores valências. É um videojogo que quer ser um videojogo, apesar de estudar o caderno de apontamentos de outros meios; é um videojogo que nos faz investir por estas lutas, que quando não resvalam sobre a persistência do fel, elevam a raiva contra uma sociedade que traiu a sua confiança, a sua existência no seu seio. Chloe não pediu nada disto e agora podemos jogar a sua descoberta e o seu insurgimento.