O ADN da cultura portuguesa reunido em 30 volumes

A colecção Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa, dirigida por Carlos Fiolhais e José Eduardo Franco, reúne textos fundadores da ciência e da cultura em português, publicados entre os séculos XII e XVIII. A distribuição é do Círculo de Leitores.

DANIEL ROCHA
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DANIEL ROCHA

Os primeiros textos em português de diferentes áreas do conhecimento vão ser publicados em Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa, colecção de 80 livros que, em 30 volumes, reúne pela primeira vez documentos fundadores das humanidades e das ciências.

A edição, que é dirigida por Carlos Fiolhais e José Eduardo Franco e será apresentada esta terça-feira em Lisboa (Auditório 2 da Fundação Gulbenkian, às 18h30, com intervenções de António Barreto, José Pacheco Pereira e Pedro Santos Guerreiro), sexta-feira no Porto e no próximo dia 28 em Coimbra, constitui "um levantamento de textos fundamentais da língua e da cultura portuguesa, no sentido em que foram os primeiros escritos" sobre diversos ramos do conhecimento, ao longo de sete séculos, disse à agência Lusa o físico Carlos Fiolhais. É uma colecção dos primeiros livros e textos publicados em português, entre os séculos XII e XVIII, sobre física, química, anatomia, farmácia ou engenharia, mas também teatro, retórica, história, gramática, filosofia, educação, viagens, cozinha ou guerra, exemplifica, sublinhando que "quase nenhum ramo [do conhecimento] fica de fora".

As três dezenas de volumes a publicar ao longo de três anos constituem "uma biblioteca fundamental, que é como que o ADN da cultura portuguesa, sintetiza o docente da Universidade de Coimbra. Estes volumes, que não entrarão no mercado livreiro, mas terão distribuição através do Círculo de Leitores, permitirão aos portugueses acederem a obras pioneiras e "aperceberem-se do extraordinário brilho" da história do país e orgulharem-se desta "cultura muito antiga que conseguiu abranger praticamente todo o conhecimento humano", que "chegou ao mundo todo", contactou com as outras culturas e enriqueceu a cultura global, comentou ainda.

"Por vezes pensamos que o outro, o estrangeiro, é que é bom", que os franceses ou os ingleses, por exemplo, "fizeram e nós copiámos ou fomos atrás deles" e que "a nossa língua só é conhecida por ser literária", mas ela é também "uma língua de ciência", que se exprime "desde muito cedo" em português.

Seleccionados por serem "os primeiros [em português] sobre qualquer assunto", os livros e documentos que integram Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa não são, no entanto, fac-símiles dos originais ou simples traduções (do português arcaico para o moderno), mas transcrições "o mais exactas possível", de acordo com "critérios linguísticos estabelecidos por especialistas", e adaptações que os tornam inteligíveis, refere Carlos Fiolhais.

As obras transcritas, fixadas e criteriosamente actualizadas mantêm, sempre que possível, arcaísmos e "o sabor arcaico da construção", revelando, deste modo, a língua portuguesa antiga, acrescenta. Também por isso (e para isso), o projecto envolve, diz, "recursos humanos extraordinários" e não apenas especialistas em linguística, mas também em cada área do saber, que produziram ainda notas explicativas e textos de apresentação e de enquadramento, explica o catedrático de Coimbra, que dirige a colecção com José Eduardo Franco, da Universidade Aberta.

A colecção abrirá com o volume Primeiros textos em português, coordenado por José António Souto Cabo (Universidade de Compostela), que reúne cantigas de amor, de amigo, de escárnio e mal-dizer, mas também vai além da poesia trovadoresca que constitui a mais antiga expressão da literatura de língua portuguesa, ao incluir uma seleção de prosa literária e os primeiros exemplos documentados do uso do português em textos não literários. Seguir-se-lhe-á o volume Primeiro tratado de física, coordenado por Carlos Fiolhais: trata-se de A Recreação Filosófica, do iluminista Teodoro de Almeida (1722-1804). "Escrito em forma de diálogo, o livro é não apenas um compêndio de física, mas constitui também um livro de divulgação, tendo obtido amplo reconhecimento", adianta o comunicado distribuído à imprensa pelo Círculo de Leitores.

Publicada sob a égide das universidades Aberta e de Coimbra (a mais recente universidade pública portuguesa e a mais antiga, nota Carlos Fiolhais) e com o alto patrocínio do Presidente da República, Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa mobiliza uma equipa multidisciplinar de mais de 170 investigadores, especialistas e consultores portugueses e estrangeiros, pessoas ligadas a cerca de meia centena de centros de investigação, academias, politécnicos e universidades nacionais e internacionais, entre outras entidades.