Entre a comédia e o drama, País Irmão chega à RTP1

A grande aposta de ficção da RTP1 da temporada é uma comédia filmada como se fosse um drama sobre os bastidores de uma grande co-produção de uma telenovela entre o Brasil e Portugal. O PÚBLICO assistiu a um dia de rodagens.

A rodagem de <i>País Irmão</i>
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A rodagem de País Irmão CATARINA DE SOUSA

Tarde de Agosto em Xabregas, Lisboa. O Teatro Ibérico, um antigo convento que funciona como sala de espectáculos, está transformado em IFUBEG, Igreja da Felicidade Universal e do Bem-Estar Geral, com direito a indicação à porta e tudo. Lá dentro, as câmaras rolam e há sermões e exorcismos em cima do palco, bem como o testemunho de uma senhora que, graças à IFUBEG, foi curada de um cancro e agora tem uma loja de móveis em Paços de Ferreira.

Esta igreja evangélica improvisada faz parte das rodagens de País Irmão, a nova série de 18 episódios da RTP1 que se estreia nesta segunda-feira, às 21h. Na série, a igreja é uma das contrapartidas do financiamento da co-produção de uma telenovela de época, Corte Tropical, entre Portugal e o Brasil. A igreja entra com dinheiro, tem direito a um canal por cabo e um edifício lisboeta. A ambiciosa telenovela dentro da série é um projecto posto em marcha pelo governo para ajudar a encobrir um escândalo e voltar aos tempos em que o país parava para ver Roque Santeiro ou Gabriela.

Parte da forte aposta da RTP em séries, País Irmão pretende ser uma mistura entre comédia e drama, a tratar o fazer rir com toda a seriedade possível e uma vontade de nunca cair na caricatura fácil. Criada por Tiago R. Santos, Hugo Gonçalves e João Tordo, esta produção da Stopline Films de Leonel Vieira conta com um vasto e diverso elenco encabeçado por José Raposo e Afonso Pimentel, respectivamente, José e Luís Ávila, uma dupla pouco unida de pai e filho, produtor e argumentista, que são responsáveis pela telenovela. Além dos dois, os actores incluem, venham de Portugal ou do Brasil, nomes como Natália Lage, Virgílio Castelo, Victoria Guerra, Jéssica Córes, Lídia Franco, Dinarte Branco, Manuel Cavaco, Paula Lobo Antunes, Bruna Quintas, Nuno Lopes, Margarida Carpinteiro, António Durães, Welket Bungué, Maria João Bastos ou Filipa Aerosa, entre muitos outros.

Tiago R. Santos, com experiência em argumento para cinema e televisão, explica ao PÚBLICO: “Há uma grande diferença, a série começa comigo, com o Tordo e o Gonçalves, directamente a tratar com a RTP. Não é igual a seres contratado para um projecto de uma ideia ou do canal ou de uma produtora. Escrevemos e delineámos tudo antes sequer de ir parar à Stopline. Não houve tanta interferência como costuma haver. Já estava tudo feito em termos do caminho que a história seguiu e do desenvolvimento das personagens, a única reescrita foi enquadrar tudo no orçamento que estava disponível”, diz, ressalvando também a importância de a RTP estar a apostar em séries “com cunho e voz própria, que nascem dos argumentistas” e não envolvem “replicar ideias exploradas lá fora ou importar”, mas sim “contar histórias únicas que sejam nossas”.

Sérgio Graciano, que realizou a série, diz entre takes que se tentou filmar comédia como se de drama se tratasse. “São pessoas reais, as situações é que são estranhas. Tento filmá-las o mais normal que podem ser, com hiper-naturalismo”, explica na abordagem aos actores, referindo que é uma abordagem que nunca viu acontecer em Portugal e sublinhando que há uma forte carga de “crítica social” em toda a história. “Gosto de séries como Louie ou Atlanta, supostamente de comédia, mas com momentos profundamente dramáticos e melancólicos. A comédia nunca é sublinhada, está lá, como estão outras coisas. São híbridos, tudo pode acontecer”, diz Tiago R. Santos.

“Penso muito no Wes Anderson e no género de humor que ele tem. Não temos a capacidade ainda para ter o tipo de tempo que ele tem e explorar a cor e o enquadramento. Estamos a fazer uma série e temos de ser realistas e eu adapto o que gostava de ter àquilo que posso ter. É uma crítica grande à sociedade”, refere também Graciano.

Jéssica Córes, do elenco brasileiro, faz de Thaís Meireles, uma actriz da telenovela que “tem um passado obscuro”, foi salva pela igreja apesar de não ser crente e lutar contra a homofobia dentro dela, e se celebrizou através de concursos e reality-shows. A actriz diz que “nunca tinha feito comédia”, que é “uma coisa complicada, em que é preciso ter muito cuidado, senão cai-se no exagero”. Joaquim Nicolau, director de casting que também ajuda na direcção de actores, concorda: “A série tem uma lógica e tónica de comédia, mas é sofisticada: não procuramos o riso, ele acontece por causa da situação.” Tal como Lídia Franco: “Esta tem talvez o humor que eu prefiro, subtil, inteligente, com crítica social e actor. Resta saber, como é feito tão rapidamente e vai já estrear-se, o resultado.”

José Raposo, um dos protagonistas, diz que trabalha sempre assim: “Sempre tive a opinião de que a comédia tem de ser feita a sério, o que realmente tem graça na comédia é a situação. Eu venho da revista, que tem esse rótulo do ‘teatro menor’, que eu não acho nada. Acho que está tudo doido, que as pessoas não viram, não souberam bem o que era aquilo, e institucionalizou-se que era uma coisa baixa, de palhaçada, e não é nada disso.” Contudo, admite que “ali pede-se uma exteriorização em relação aos textos, porque os ‘bonecos’ são para isso mesmo. O texto e o contexto são completamente diferentes. A base é realmente comédia, mas aqui existe drama e tragédia”. E exorcismos.