Crónica

A Marginal é linda

É impossível uma pessoa habituar-se à Marginal. De Lisboa para Cascais é uma beleza, de Cascais para Lisboa é outra.

Há quem diga que a Marginal começa em Moscavide, para lá do Parque das Nações, continuando sem tirar os olhos do rio Tejo e da esplendidamente longínqua margem sul, até passar pelo Terreiro do Paço e chegar ao Cais do Sodré, onde vai correndo paralelamente ao comboio que sai dali para Cascais.

Cascais também se contorna junto ao oceano até à estrada do Guincho onde a Marginal continua mais em segredo, em direcção do Cabo da Roca e de além. Assim, no caminho mais bonito que conheço, se aprende a diferença entre um rio e o mar, com todas as misturas e cores de águas e de céus pelo meio.

Ajuda conhecer todas as paragens de comboio, tanto do lado mar como do outro. A vista do comboio, à medida que se insinua, é um filme que se projecta em movimento. Depois passeia-se de carro, numa hora calma, num dia bonito. A vista é inteiramente nova — e surpreendente. Às vezes segue-se junto ao comboio e ele faz-nos companhia, partilhando a mesma velocidade.

Em Caxias pode-se virar para a auto-estrada. Pois sim. Vasco Pulido Valente acertou em cheio quando disse que a partir de uma certa idade ninguém resiste a "ir por baixo", seguindo pela Marginal, hipnotizado pelas nuvens e pelas luzes.

Quanto mais bonita se torna a Marginal — e isso tem acontecido, sei lá porquê, com a passagem dos anos —, mais depressa acaba. Afinal é uma estrada muito curta, que passa num instante.

É impossível uma pessoa habituar-se à Marginal. De Lisboa para Cascais é uma beleza, de Cascais para Lisboa é outra.