Editorial

O silêncio das Euribor

O silêncio dos partidos que apoiam o Governo é ensurdecedor.

As taxas Euribor já entraram em terreno negativo há muito tempo. De tal forma que muitos dos titulares de contratos de crédito à habitação não só sentem o alívio dessa factura todos os meses, como, a partir de determinado momento, viram o valor negativo das taxas eliminarem por completo o spread cobrado pelos bancos.

Até aqui nada de novo. Mas as taxas continuaram a descer. E foi perante essa realidade que se colocou a questão: se o spread dos contratos foi eliminado e, como tal, os titulares de contratos de crédito à habitação não pagam juros, deverá essa redução suplementar passar também a reflectir-se numa diminuição, agora, do capital em dívida?

O Banco de Portugal (BdP) começou por dizer que sim, que não havia outra alternativa. Até emitiu uma circular onde deixava o seu entendimento reflectido. Mas os bancos fizeram vista grossa. Os partidos da esquerda reagiram e ainda com o anterior governo em funções apresentaram propostas legislativas para que o entendimento do BdP passasse a lei. As iniciativas foram chumbadas. Veio um novo Governo e surgiram novas iniciativas dos partidos à esquerda. As propostas foram aprovadas na generalidade e foram ouvidas várias entidades no Parlamento, entre as quais o BdP. Ora, a instituição liderada por Carlos Costa, em tom de ameaça, lembrou que se a redução das taxas de juro se mantivesse e essa redução levasse não só à eliminação dos juros a pagar, mas também do capital a pagar, seria o mesmo que exigir aos clientes que depositam dinheiro num banco que pagassem ao banco por este lhes guardar o dinheiro.

O resultado está à vista. As propostas, aprovadas na generalidade em 2016, continuam a amadurecer no Parlamento. As taxas Euribor continuam a diminuir. Os bancos continuam a aumentar as comissões que cobram aos seus clientes. O silêncio dos partidos que apoiam o Governo é ensurdecedor. Podiam desistir das propostas, mas preferem fazer que nada se passa. Não vão os bancos começar a cobrar por nos guardarem os nossos depósitos.

P.S.: Ontem estivemos todo o dia à conversa com os nossos leitores, com os nossos convidados, com mais de 1000 pessoas que apareceram no primeiro Festival P. Conversámos, aprendemos uns com os outros, divertimo-nos muito. Não foi só um prazer estar com todos. Foi um prazer ver os sorrisos com que todos lá estiveram e sentir que o nosso público ajuda e ajudará o PÚBLICO a ser melhor. Fica a promessa: mais dias assim virão, mesmo ao seu lado.