Opinião

O que é um jornal de referência? (E de volta a Marcelo e Trump)

Os órgãos de comunicação social numa democracia têm uma seta, uma direcção, a procura da verdade do que aconteceu e acontece. As “redes sociais” apresentam-se como “redes”, ou seja como não tendo direcção

O Público está a comemorar as suas dez mil edições. É obra e essa obra deve muito aos que o fizeram e fazem, mas também à possibilidade de manter um jornal que é deficitário por parte dos seus proprietários. Este é um factor que não pode ser esquecido, porque este jornal representa um esforço mecenático que não deve ser ocultado e que lhe dá um espaço de liberdade pouco comum na comunicação social portuguesa. Não é o único caso conhecido, mas é aquele que mais independência tem em relação a qualquer projecto político que explique as razões do seu financiamento.

Nos anos do “ajustamento”, momento de maior poder de uma direita ideológica e de interesses, recursos significativos deslocaram-se para a criação de órgãos de comunicação claramente programáticos e “empenhados”, de que o melhor exemplo é o Observador, mas também uma parte da imprensa “económica”. O Público, sem deixar de ser afectado por essa ecologia ideológica, não soçobrou inteiramente. Ver-se-á como vai evoluir.

O Público é o que de mais parecido existe na imprensa portuguesa de um jornal de “referência”. Não é o único, mas é aquele que melhor junta a realidade com a vontade, ou seja é um jornal de referência e tem como modelo ser um jornal de referência. Como sempre acontece há um hiato entre uma coisa e outra, e esse hiato umas vezes é maior e outras vezes é menor, e essa dinâmica merece análise.

O jornal esforça-se por ter uma cobertura jornalística dos eventos, fragilizada pelas dificuldades actuais das redacções e pela escassez de meios, evitando a “tabloidização” e por ter uma cobertura que inclui as actividades culturais com maior relevo do que a restante imprensa, e um forte sector de opinião. O equilíbrio de cada uma destas partes é desigual, umas vezes o jornal chegou a parecer uma revista de ensaios, e o peso da informação, que é o essencial num jornal, escasseou.

Mas nem tudo no Público é de “referência”, a começar por essa parte inaceitável num jornal com pretensões, de manter uma secção de lixo com o nome de Facebook, algo que é completamente desadequado de qualquer critério de jornalismo sério. O mesmo acontece com a degradação dos comentários no corpo principal do jornal, no qual se nota uma clara mudança ideológica dos “comentadores-activistas” para uma direita mais populista e radical. A pergunta que se deve colocar é por que é que estes “comentadores-activistas” migraram para o Público, onde antes não estavam, tomando conta de muitas das pseudo-discussões que ocorrem nessas secções.

A parte em que um jornal de referência “mergulha” nas chamadas “redes sociais” é aquela que exige um maior escrutínio sobre os dilemas do jornalismo como profissão de mediação, dotada de um saber e de regras próprias, em que é suposto não valer tudo. E é também aquela que remete para os problemas cívicos e democráticos perante a pressão populista e as manipulações profissionais usando essas mesmas “redes sociais”.

O caso da interferência russa nas eleições americanas usando milhares de contas falsas do Facebook, o uso por parte de Trump do Twitter, e os serviços oferecidos por empresas que vendem aos seus clientes esquemas de manipulação das “redes sociais” a favor quer de produtos, quer de políticos, quer de políticas, tudo isto sem qualquer transparência e nalguns casos possibilidade de escrutínio, fazem parte de um pseudo-espaço comunicacional dominado pela controlo das “almas”, que tem cada vez mais efeitos perversos na vida democrática. É como se toda a comunicação se tornasse palco de “acções de guerra psicológica” que deixariam os velhos especialistas militares desta matéria como meninos de coro.

Para que este universo de manipulação tenha sucesso o primeiro alvo a abater é o jornalismo. Infelizmente dominados por uma ideia errada de “modernidade”, muitos jornalistas colaboram com o suicídio da sua profissão.

Um dos raros aspectos positivos da vitória de Trump nos EUA foi a acrescida consciência por parte da comunicação de referência americana deste processo e uma melhoria significativa de órgãos de comunicação social como o New York Times e o Washington Post, que perceberam também os erros que cometeram nos últimos anos. Essa consciência conduziu a um modus operandi jornalístico em que as verificações quase em tempo real dos factos, o combate à circulação das ”notícias falsas”, as medidas de contenção no uso informativo das “redes sociais” e um upgrade editorial que vai do jornalismo às questões cívicas que se colocam numa época de ataque às instituições democráticas e de poder autocrático com base na exploração populista, tudo isto está a mudar. Os resultados são dois: primeiro, estes órgãos de comunicação social têm aumentado os seus leitores e audiências e, segundo, Trump tornou-os no alvo preferencial dos seus ataques.

Uns e outro perceberam bem a natureza do conflito. Trump como ainda não os pode calar, usa toda uma parafernália de meios para relativizar a “verdade” e colocar no mesmo plano o jornalismo e a “comunicação” que circula nas “redes sociais”, entre os seus Tweets, que são um meio também de condicionar a agenda comunicacional, o uso de “fake news” e de teorias conspiratórias. Ao fazer isto, Trump e os seus apoiantes comunicacionais, dissolvem a distinção entre verdade e mentira a favor de “verdade-Trump” versus “verdade- democratas”, dando origem a uma politização perversa da comunicação, em que cada um é empurrado para escolher um campo independentemente da factualidade de um evento. É a teoria dos “factos alternativos” de Kellyane Conway.

Uma coisa penosa é ver os republicanos a fazerem piruetas para justificar as mais absurdas das afirmações de Trump, e que, como se vê na Fox News, imediatamente circulam as mais inverosímeis comparações. Um exemplo é a de que à retirada das estátuas dos generais confederados se seguiriam as de Jefferson e Washington, porque tinham escravos. Qualquer pessoa que saiba um mínimo de história americana sabe que isto não tem pés nem cabeça, mas imediatamente circula como argumento aceitável.

A democracia vive da combinação do progresso material, do “melhorismo” como critério político, e do respeito pelos procedimentos constitucionais e pela separação dos poderes, mas o lubrificante de todo este processo é que cada um seja cidadão, ou seja, tenha a informação mínima para poder controlar a sua vida e decidir livremente pelos seus interesses e pelas suas opiniões. A comunicação social cresceu com a democracia, como parte da opção cultural que é querer viver em liberdade, com poder do voto de cada um.

Este mundo está longe de ser perfeito, mas sabe-se bastante bem como é que ele se degrada e mesmo como acaba. Todas as grandes distopias do século XX anunciaram como a perda de autonomia está ligada ao que se sabe e ao que se oculta. O Processo de Kafka é sobre o mundo do homem comum preso num labirinto em que só de cima se “sabe”, ou seja do lugar do poder. O 1984 de George Orwell, talvez uma das obras que melhor iluminam os nossos dias, é sobre o controlo mediático e tecnológico dos indivíduos pela linguagem tornada propaganda.

Os órgãos de comunicação social numa democracia têm uma seta, uma direcção, a procura da verdade do que aconteceu e acontece. As “redes sociais” apresentam-se como “redes”, ou seja como não tendo direcção, por isso geram uma ideologia de falsa igualdade e de falsa participação. Mas as “redes sociais” são hoje um instrumento ideal para o poder de manipulação. Pode ser que no futuro não seja assim, mas hoje esse é um combate decisivo para manter a democracia e a liberdade. A imprensa de referência deve estudar muito bem esse mundo, mas nunca se esquecer que as suas regras são antagónicas com a actividade de informar.

Para a semana voltamos mais a Marcelo do que a Trump, para perceber como Marcelo beneficia de um paraíso comunicacional e Trump de um inferno. E de como o tratamento comunicacional de Trump é que é o normal no trabalho jornalístico e o de Marcelo é anormal, o que deveria merecer maior reflexão e análise por parte dos jornalistas.