Uma utopia viva chamada Träd, Gräs och Stenar

Na Suécia dos anos 1970, os Träd, Gräs och Stenar faziam do rock experiência comunal, protesto e festa. Essa banda resistiu: a viagem é no sábado, em Santarém, no festival Reverence.

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Nos concertos dos Träd, Gräs och Stenar não havia audiência nem havia banda. Qualquer pessoa podia subir ao palco e tocar com eles, levando a improvisação a lugares ainda mais desconhecidos. “Era muito comum: alguém chegava e ia tocar flauta, cantar, tocar pandeireta ou coisas desse género. Pessoas que não conhecíamos”, conta o guitarrista Jakob Sjöholm, ao telefone a partir da Suécia.

Quando se juntou à cena de onde nasceriam os Träd, Gräs och Stenar (Árvores, Erva e Pedras, em português), Jakob não sabia que acabaria por fazer música. Estava mais interessado em fotografar, era o seu “contributo” àquele movimento que cruzava artes e políticas de esquerda na capital sueca. “Era um grupo de 20 ou 25 pessoas em Estocolmo que estavam a fazer coisas diferentes. Alguns eram escritores, outros pintores, coisas deste género”, descreve. “Havia concertos com pessoas a ler poesia.”

O mundo ia no ano 1966 e os ares de mudança metiam-se em todo o lado. Estes artistas de Estocolmo preocupavam-se com o avanço do capitalismo e daquilo que classificavam como o imperialismo americano, visível, por exemplo, na guerra do Vietname, assustavam-se com a ameaça nuclear e viam partes da cidade serem rasgadas para abrir espaço para construir arranha-céus. “Éramos de esquerda, mas mais anarquistas”, diz Jakob, entre risos. “Interessavámo-nos muito pelos temas ambientais. Diziam que não éramos uma boa banda política porque falávamos muito de natureza e não cantávamos os slogans políticos.”

Em 1967, Terry Riley, co-inventor do minimalismo, levou à Suécia a sua peça In C e recrutou músicos locais como Bo Anders Persson. A repetição, os sons contínuos e a exploração de loops em fita que o compositor norte-americano punha na sua música entusiasmaram o jovem sueco e, no Verão de 1967, nasciam os Pärson Sound. Durante a curta vida, o grupo não lançou nenhum disco, mas as gravações foram editadas mais tarde. Em 1968, os Pärson Sound transformam-se nos International Harvester, mais tarde Harvester (mais do que uma banda, eram um colectivo que incluía também happenings, arte e teatro). Os Harvester tinham como meta “fazer um som tão grande que qualquer pessoa” podia “encontrar um local para si dentro dele”. Finalmente, em 1969, das cinzas dos Harvester formam-se os Träd, Gräs och Stenar, que lançam em 1970 o primeiro álbum – obra pioneira de riffs pesados, derivas xamânicas de flautas e palmas, incursões pelo Oriente e transformações radicais de All along the watchtower, de Bob Dylan, e (I can't get no) Satisfaction, dos Rolling Stones.

O fotógrafo Jakob fez-se músico. Entrou para os Träd, Gräs och Stenar em 1971, apesar de pouco dominar a guitarra. “Era muito inocente. Quando comecei, não sabia tocar muito bem, mas isso era muito interessante. Não éramos virtuosos tecnicamente, mas tínhamos uma coisa em que éramos bons: usávamos os ouvidos. Tentávamo-nos ouvir, éramos muitos bons a ouvirmo-nos uns aos outros e a ouvirmos a música como um todo, em vez de cada um ouvir apenas o que estava a fazer. Isso fez com que a música soasse como soa.”

Sejam livres

Os concertos dos Träd, Gräs och Stenar eram, mais do que meros espectáculos, momentos de encontro de uma comunidade: havia música e outras artes, política, comida biológica, conversas. Na primeira encarnação da banda, tocaram em todo o lado: cafés obscuros em remotas terras suecas; uma pista de um aeroporto; um prado no rio Vindel, durante o sol da meia-noite; em Christiania, uma antiga zona militar de Copenhaga transformada em comunidade anarquista.

Em Djungelns Lag (1971), ouvimo-los elevarem os blues aos céus, graças a doses generosas de distorção, e a inventarem uma folk livre, aberta a todos os caminhos. Mors Mors (1972) revela uma banda cada vez mais à vontade e solta, com comunicação telepática entre os seus membros. Escreveram numa reedição recente: “A nossa música era uma espécie de grito de guerra ritualista, um apelo às pessoas para que sejam livres, para que sigam o seu próprio ritmo, a sua própria harmonia.”

Ao mesmo tempo, bandas alemãs como os Can e os Amon Düül também testavam os limites do rock, fazendo dele uma música quase sagrada e cerimonial. Mas, com excepção de algum rock dos Estados Unidos (“eles conseguem sempre comunicar o que fazem”, brinca Jakob), os Träd, Gräs och Stenar desconheciam estas movimentações. “Acho que a mesma coisa estava a acontecer em todo o mundo, em diferentes sítios. É uma coisa mágica. Claro que ouvíamos Velvet Underground, mas não fazíamos ideia do que acontecia na Europa”, conta Jakob. Além do rock e de outra música ocidental, ouviam “música indiana, gamelão, aquilo a que se chama hoje world music”.

A banda acabou em 1972, reunindo-se por pouco tempo em 1980. Em 1995, voltou à vida. Este ano, a editora sueca Subliminal Sounds lançou Tack för Kaffet, álbum gravado numa oficina rural, no velho espírito da banda, e que revela um colectivo tão apurado como o de há 45 anos (ouça-se E-moll slow, monstro de percussão esparsa, jazzy, e guitarras tacteando a noite, à procura de uma harmonia qualquer).

Em Tack för Kaffet ainda ouvimos Torbjörn Abelli e Thomas Mera Gartz, dois membros fundadores falecidos recentemente. Jakob Sjöholm é hoje o único sobrevivente dos primeiros tempos dos Träd, Gräs och Stenar. É uma banda renovada que se apresenta no sábado no Festival Reverence, agora no Parque da Ribeira de Santarém (começa sexta com bandas como Amenra, Oathbreaker, Bo Ningen e Moonspell; acaba no sábado com Mono e Gang of Four em destaque).

“Quando os outros morreram e eu tornei-me no único sobrevivente dessa banda, pensei inicialmente que seria impossível voltar a tocar”, reconhece Jakob. “Mas encontrámos uma forma de continuar a tocar. Não soa exactamente como era dantes, mas é o mesmo espírito e a mesma forma de ouvir a música e ver a vida. É a mesma coisa, é o mesmo espírito. Parece muito natural continuar a tocar. Penso que é porque a nossa música é tão improvisada.”