Os monstros de Guillermo del Toro vencem o Leão de Ouro de Veneza

Ficção científica e fantástico-poético: assim é The Shape of Water, parábola sobre a América e a discriminação "do outro". No final da 74.ª edição, foi tocante ver Charlotte Rampling, a melhor actriz, comovida aos 71 anos com este "regresso" a Itália, o país onde tudo começou para ela.

Guillermo del Toro arrecadou o prémio principal do festival de cinema
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Guillermo del Toro arrecadou o prémio principal do festival de cinema EPA/ETTORE FERRARI

O Leão de Ouro de Veneza para os monstros de Guillermo del Toro, para um “filme de género” — são vários, fantástico-ficção científica, ainda toque de thriller e maionese poética a cobrir. Isto significa que “é possível”, disse Guillermo del Toro, o realizador de The Shape of Water, no início da noite deste sábado, no Lido. Foi o final da 74.ª edição do Festival de Veneza. Guillermo diz esperar que o prémio incentive jovens cineastas a terem fé naquilo em que acreditam, e no caso dele a fé são “os monstros”.

Não era preciso ver para crer. The Shape of Water estava na lista dos favoritos, era um dos que, do contingente americano, oscarizável e etc., que Veneza programou, tinha conseguido o entusiasmo de alguma imprensa — o outro era Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, de Martin McDonagh, que se ficou por um prémio de argumento que, afinal, é mais adequado ao virtuosismo do filme, assente na escrita do realizador e dramaturgo britânico que começou o texto a pensar nos actores, Frances McDormand, Woody Harrelson e Sam Rockwell.

A vitória de The Shape of Water é também a vitória de Alberto Barbera, o homem que manda no festival e que vem apostando na produção americana como estratégia para se impor aos outros grandes (Cannes e Berlim). Esta edição ainda teve a característica suplementar de esse contingente chegar com a forma de ficção científica, thriller, fantástico, horror, géneros que se diz serem menosprezados pelos festivais. Mas os filmes de Alexander Payne (Downsizing), George Clooney (Suburbicon) ou Darren Aronofsky (Mother!), para além do de Del Toro, traziam programa actual, falaram da América e fizeram militância contra Donald Trump. Uns de forma “clever”, outros ansiosos por agradar e alguns até a fazer a papinha ao espectador, que tratam de forma infantil.

É o caso de The Shape of Water, espécie de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain do fantástico-poético: história de amor entre uma empregada de limpeza muda num laboratório de segurança máxima (anos 60, Guerra Fria) e a criatura anfíbia que os americanos ali escondem dos russos e que representa os “outros” que o nosso mundo (não nos anos 60, hoje!) isola em nome de uma pureza qualquer. Tem os seus momentos de puro kitsch, o filme do cineasta mexicano, até canta e dança a preto e branco. E irá a caminho dos Óscares, como aconteceu a outros aplaudidos no Lido, e amigos de Del Toro, casos de Alfonso Cuarón (Gravidade, em 2013) e Alejandro Iñárritu (Birdman, em 2014).

Foram os monstros de Guillermo, houve os fantasmas do israelita Samuel Maoz, que pela segunda vez tem prémio importante no Lido: em 2009, Leão de Ouro por Libano, agora, com Foxtrot, o Grande Prémio do Júri. No anterior, a guerra (a primeira Guerra do Líbano, em 1982, a partir de uma experiencia autobiográfica), neste o estado de guerra: é um filme sobre a intimidade de quem habita a violência de um país em conflito. O filme dança, manipula a realidade como sonho, e o sonho como realidade, quer fazer o espectador “sentir”. A complicada convivência entre a sinceridade da catarse e a manipulação artificiosa, eis a ginástica para o espectador de Foxtrot.

Um dos grandes momentos da noite foi o de Charlotte Rampling, prémio de interpretação por Hannah, do italiano Andrea Pallaoro. Charlotte tem 71 anos e o prémio em Itália tem para ela uma dimensão emocional enorme, disse — e viu-se. É um retorno. Foi em Itália, onde chegou aos 22 anos, que tudo realmente começou para ela, quando trabalhou com Visconti (Os Malditos) ou com Liliana Cavani (O Porteiro da Noite).

O melhor filme do palmarés é o que leva o Leão de Prata para o Melhor Realizador: Xavier Legrand, por Jusqu’à la Garde (que também recebeu o prémio para a melhor primeira obra, atribuído por um outro júri, por isso é mesmo a revelação desta edição). Um dos últimos títulos apresentados, é uma história de violência doméstica que dá um salto sobre o “tema”, afasta o filme social e aterra no thriller. Um filme sobre a família como espaço de violência: os planos e as personagens a comunicarem entre si com a tremenda secura dos estilhaços.

Palmarés da 74.ª edição

  • Leão de Ouro: The Shape of  Water, de Guillermo del Toro
  • Leão de Prata, Melhor Realizador: Xavier Legrand, Jusqu’à la Garde
  • Grande Prémio do Júri: Foxtrot, de Samuel Maoz          
  • Taça Volpi, Melhor Actor: Kamel El Basha, por The Insult, de Ziad Doueiri
  • Taça Volpi, Melhor Actriz: Charlotte Rampling, Hannah, de Andrea Pallaoro
  • Prémio Especial do Júri: Sweet Country, de Warwick Thornton
  • Osella de Ouro, para a Melhor Contribuição Técnica: não atribuído
  • Osella de Ouro para o Melhor Argumento: Martin McDonagh por Three Billboards Outside Ebbing, Missouri          
  • Prémio Marcello Mastroianni para um actor ou actriz emergente: Charlie Plummer, por Lean on Pete, de Andrew Haigh

O júri, presidido pela actriz Annette Bening, integrou a cineasta e argumentista húngara Ildikó Enyedi, o realizador Michel Franco, as actrizes Rebecca Hall, Jasmine Trinca e Anna Mouglalis e o realizador e argumentista Edgar Wright.

O prémio Luigi de Laurentiis para a melhor primeira obra, escolha de um júri específico, foi atribuído a Jusqu’à la Garde, de Xavier Legrand. A secção Horizontes escolheu, como melhor filme, Nico, 1988, de Susanna Nicchiarelli.