Comentário

Foi do pior, foi do melhor

Veneza encontrou um território para concorrer com os outros grandes (Cannes e Berlim): americanos, (potenciais) Óscares, estrelas. Ainda por cima, o espectador não se sentiu fútil por embarcar no espectáculo (se é que embarcou...), foi em nome de uma causa: contra Donald Trump.

Charlotte Rampling em <i>Hannah</i>
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Charlotte Rampling em Hannah dr

Antes de acabar, houve Charlotte Rampling. Um olhar apaixonado sobre a actriz – olhar de quem tinha sido trespassado pelos seus olhos n’Os Malditos, de Visconti. Numa relação que se tornou de amizade ao longo de três anos, Andrea Palloro, cineasta italiano, pediu a Rampling que visse A Mulher sem Cabeça, de Lucrecia Martel, O Deserto Vermelho, de Antonioni, e Jeanne Dielman, 23 quai du Commerce, 1080, Bruxelles, de Chantal Akerman.

Temos (grande) actriz transcendendo o trabalho de casa. Temos um (pequeno) filme a querer mostrar trabalho. Hannah, retrato de senhora em desagregação, é uma aproximação sensorial à neurose - excessivamente estudada, chegando à afectação, escondendo, escurecendo, para construir estilo. Mas pode fazer pela actriz em Veneza o que 45 Anos de Andrew Haigh fez por ela e por Tom Courtney em Berlim 2015: um prémio de interpretação. Se Rampling vencer o “duelo” com Frances McDormand, a outra celebrada actriz do festival (por Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, de Martin McDonagh).

Se temos actriz, também temos actor: Denis Ménochet, em Jusqu'a la Garde, de Xavier Legrand. Há momentos em que se vê Jusqu'a la Garde, o filme com que terminou a competição da 74.ª edição do Festival de Cinema de Veneza, do lado dele. E ele é um pai violador. É “culpa” do filme: sendo sobre a violência doméstica, dá um salto sobre o “tema”, afasta-se do social, e aterra no puro medo, no thriller. É o medo que sentem as vítimas mas também o medo que sente o agressor. A família é espaço de violência, mesmo nas reuniões judicias para decidir sobre conflitos. Os planos e as personagens comunicam entre si com a secura dos estilhaços.

E então, foi bom? Foi do melhor e foi do pior. Veneza encontrou um território para concorrer com os outros grandes (Cannes e Berlim): americanos, (potenciais) Óscares, estrelas. Ainda por cima, o espectador não se sentiu fútil por embarcar no espectáculo (se é que embarcou...), foi em nome de uma causa: contra Donald Trump. Foram assim, espertalhaços, ansiosos por agradar ou até infantilizados, os filmes de Alexander Payne (Downsizing), George Clooney (Suburbicon), Guillermo del Toro (The Shape of Water), Darren Aronofsky (Mother!), Martin McDonagh (o inglês filmou na América Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, o preferido de painéis de críticos e de espectadores). Esta selecção – ficção científica, thriller, fantástico, horror… – foi uma aposta. Sucedeu-se num curto espaço de tempo (as vedetas tinham de viajar depois para Toronto, onde outro festival começou…) e fica, para o bem e para o mal, como rosto da 74.ª edição. Cannes não conseguiu a “coerência” temática deste espectáculo contra Trump...

Grandes filmes na competição? Dois? Mektoub, My Love, de Abdellatif Kechiche: sexo e comida, discoteca e ventura bucólica, convivência de classes no Sul de França, Verão de 1994. Passamos do êxtase, à saciedade e à saturação, é o pacto com o cinema do franco-tunisino. O homem vai ser atacado (mais uma vez; começaram aqui a dizer que tem a mania que é “macho”), mas é filme sem medo(s).

First Reformed, de Paul Schrader, vem de uma carreira aos pedaços, o cinema do realizador e argumentista parece ter sido absorvido por outros (Scorsese, por exemplo, que filmou o “seu” Taxi Driver). Mas há nele uma harmonia de corpos e gestos, uma relação com as palavras e com o silêncio que é tão grácil e ao mesmo tempo tão vigorosa – um comovente Ethan Hawke interpreta um reverendo em crise de fé e com um colete de explosivos -, que fica como o estado de graça do seu autor.

Se ficarmos entre sensibilidades opostas, a sensualidade de Mektoub, My Love e a agonia de First Reformed, ficamos mal? Não. Foi do melhor. Quem vai ganhar, sábado à noite? Annette Bening e os outros jurados é que sabem.