A doença da alma americana no tempo de Trump, segundo os National

Ao sétimo álbum de estúdio, os The National não conseguem evitar que a intimidade procurada pelas suas canções carregue uma catarse em reacção à eleição de Trump. Matt Berninger explica o que está por detrás do regresso destes profissionais da melancolia.

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Matt Berninger no 22º Festival Super Bock Super Rock, em 2016, concerto no pavilhão Meo Arena dr

I won’t fuck us over/ I’m Mr. November” canta Matt Berninger em Mr. November, canção intersecção entre The Smiths e R.E.M. que agitava as águas do álbum Alligator (2005). No mundo muito cifrado e frequentemente aleatório das letras do cantor dos The National, em que citações roubadas de outras letras servem muitas vezes de cola para as suas próprias ideias, Mr. November (alusão ao mês decisivo das eleições norte-americanas) tinha, na verdade, um destinatário concreto: o candidato presidencial John Kerry, derrotado por George W. Bush em 2004, e o sentimento de elevado desconforto que Berninger imaginava tomar conta de qualquer ser na posição de disputar a Casa Branca. “Deve ser tão stressante e irritante representar constantemente esse papel”, justificou o músico em entrevista à Vice.

Embora Kerry estivesse na mira mental de Berninger em 2005, seria com a primeira eleição de Barack Obama, três anos mais tarde, que o nome da canção seria estampado em t-shirts apelando ao voto no candidato democrata. Na mesma altura, uma versão instrumental de Fake empire seria usada num vídeo de campanha de Obama, graças a Jim Messina, director de campanha (e fã dos National) que levaria inclusivamente a banda a tocar em comícios do já então Presidente dos Estados Unidos em 2010 e na disputa pela sua reeleição em 2012, participando ainda em várias acções de campanha.

Os dois mandatos presidenciais de Obama coincidiram também com a ascensão dos National, de fenómeno de culto de canções macambúzias a um certo miserabilismo de estádio, espécie de U2 muito menos histriónicos, fazedores de temas com pendor para uma melancolia insuflada até ganhar trejeitos épicos. Boxer (2007), High Violet (2010) e Trouble Will Find Me (2013) trataram de cimentar essa posição e de fazer crescer o cancioneiro até caber nas grandes arenas de espectáculos.

Sleep Well Beast, o sétimo e novo álbum, encontrava-se em avançado estado de fermentação quando Donald Trump venceu as últimas eleições presidenciais. Embora a discografia dos National não seja propriamente marcada por um discurso militante, o impacto do facto político na vida criativa do grupo fez-se sentir de imediato. “Tínhamos 30 e tal canções, depois o Trump venceu e algumas delas começaram a parecer-nos estranhas”, confessa o vocalista Matt Berninger ao Ípsilon. “Aquelas que acabaram por formar Sleep Well Beast pareciam ter em comum um sentimento catártico, necessário depois da vitória do Trump. E depois houve temas escritos especificamente em resposta ao acontecimento e outros cuja letra foi reescrita, como The system only dreams in total darkness e Turtleneck, mas também Walk it back.”

Apesar de Berninger se referir à candidatura, à conquista de uma base de apoio e à vitória final de Trump como “um lento e traumático desastre que vimos aproximar-se” e que resultou num choque a 8 de Novembro de 2016 – “e no dia seguinte foi como se o céu se cobrisse de um chumbo cinzento”, diz –, o homem dos National não embarca na demonização fácil do Presidente e prefere referir-se-lhe como um sintoma do rumo que o país tem tomado nas últimas décadas. Daí que as canções de Sleep Well Beast, frisa, “tenham que ver com alguma consciência do que é a América, uma consciência que mudou radicalmente com a sua vitória”. “Penso que durante os últimos meses de preparação do disco houve uma reavaliação dos nossos fundamentos sociais muito significativa.”

Essa mudança de fundamentos é descrita pelo músico como “uma verdade muito triste e dolorosa que está a vir à tona enquanto doença na alma americana e que testemunhamos no racismo e no sexismo”. Por isso qualifica Donald Trump de “verdadeiro produto da América, e não uma anomalia – como o temos andado a tratar”. “Temos estado a construir este monstro na nossa cave durante algum tempo e é muito humilhante. Mas acho que é bom percebermos quão cancerosas são algumas destas doenças que temos e quão profundamente podem estar instaladas. Não apenas na América, mas em todo o mundo – sexismo, racismo, repressão, um planeta moribundo. Estamos todos a lidar com um problema comum e que está mesmo à nossa porta.”

A doença diagnosticada por Berninger manifesta-se também na “aceitação de tanto disparate e das mentiras”. Algo que apenas acentua a sua crença de que “a América há muito tempo se encontra num lugar confuso acerca da sua História e das suas possibilidades”. E acusa os interesses corporativos de terem estado por detrás de todo este rastilho explosivo, convocando o medo do outro – e acentuando as diferenças de género, raciais, religiosas ou quaisquer outras. O inflamado e inflamável discurso político não é senão a face mais visível de um país numa intensa turbulência subterrânea.

Sleep Well Beast é, no entanto, um álbum que tem sido descrito pelo vocalista como versando sobretudo os altos e baixos de uma relação, em específico a vida a dois num casamento – talvez não tão específico a ponto de nos levar a pensar que se trata do seu (ainda que, aqui e ali, não recuse a existência de algumas falripas de realidade em temas como Guilty party, a que acresce ainda a curiosidade de a sua mulher dar uma ajuda na escrita, como que garantindo que a história, mesmo que ininteligível, não foge à verdade).

É sobretudo curioso averiguar como é que uma banda que dedica quase todos os seus versos à intimidade acaba por admitir a interferência dos acontecimentos políticos nessa esfera de reserva pessoal. Berninger não se esconde por detrás de generalizações e afirma que “quando falamos de política não estamos a falar dos políticos em si, de uma corrida de cavalos ou de um evento desportivo”. “Estamos a falar de pessoas que estabelecem regras para o planeta e para os nossos filhos.” E reflecte que já não vive a sua juventude, período em que o presente parece esticado até ao limite, sem fim à vista e com uma relação remota com a História – e em que o Civil Rights Movement da década anterior pode parecer um fenómeno do tempo da Antiguidade Clássica...

Com a idade, defende, passa a conseguir traçar-se uma linha entre causa e efeito, e o presente deixa de se assemelhar a uma ilha que se destaca de tudo quanto antes se passou. E por isso, ao ser pai de uma menina, e atentando à forma como “Donald Trump e as pessoas em Washington estão a tentar definir o que as mulheres podem dizer e fazer, quanto vale o seu trabalho em termos salariais e quanta liberdade podem ter com os seus corpos”, admite que “isso torna a política muito pessoal, sim: "Nem sei como é que alguém pode separar tudo isto.”

Matt Berninger não é, contudo, um homem iludido quanto ao papel que a música pode representar enquanto arma de combate. “O lugar que nos deu Woody Guthrie, Nina Simone, Bob Dylan e Joan Baez também votou Trump para Presidente e é impossível ligar esses dois pontos”, argumenta. Ou seja, tudo o que uma canção pode advogar e instigar é, afinal, muito pouco diante das forças (por vezes demasiado insondáveis) que gerem as emoções do povo na hora de colocar uma cruz num boletim de voto e decidir o futuro colectivo. “Uma banda rock pode criar música festiva, catártica”, reconhece, apontando ligeiramente em causa própria no que à catarse diz respeito. “Mas não acho que as canções possam criar mudanças políticas; acho sim que podem mudar um pouco os nossos corações e a forma como as nossas almas se compreendem. Ainda assim, não é algo tão poderoso quanto sair de casa e ir votar, ir falar com o nosso congressista e queixarmo-nos de coisas reais. Isso faz muito mais do que alguma canção rock alguma vez conseguirá.”

Discussões e nervosismos

Até há relativamente pouco tempo, Matt Berninger vivia com a sua família nos últimos dois andares da casa de Aaron Dessner, guitarrista e principal municiador de composições para os National. Bryce Dessner, irmão gémeo de Aaron, também guitarrista, teclista e compositor menos activo na vida do grupo (com uma carreira paralela na composição de música orquestral e de câmara contemporânea), vivia umas casas abaixo, na mesma rua. Durante um longo período, mesmo que as rotinas diárias fossem pouco coincidentes, a proximidade geográfica dos cinco National fazia com que a preparação de cada álbum resultasse num processo sem grumos.

Sleep Well Beast é o primeiro disco que os apanha a viver em diferente pontos do mundo (Los Angeles, Cincinatti, Long Island, Copenhaga e Paris), trabalhando a partir de uma permanente troca de ficheiros e obrigando à marcação de vários períodos concentrados de duas semanas – fizeram-no na Califórnia, em Paris e em Berlim – com sessões que se prolongavam facilmente madrugadas e manhãs adentro. “O facto de vivermos em cidades diferente levou a que construíssemos este disco mais colectivamente do que alguma vez tinha acontecido no passado”, garante o vocalista. “Teve o efeito oposto.”

A grande diferença – num álbum que percorre sem grandes acidentes de percurso a veia The Smiths do grupo num tema a puxar pela pompa como Day I die, que se veste de balada épica à moda dos U2 em Guilty party ou que carrega num rock cuspido em tons de Bad Seeds em Turtleneck – é que, desta vez, todos foram encorajados a tomar caminhos diferentes e a participar numa constante reinvenção das canções. Essa ruminação foi tão levada a sério que sessões inteiras de trabalho foram apagadas sem remorso e Matt só parou de reescrever as letras no momento de despachar o disco para as misturas. “Tornámo-nos muito temerários e muito soltos, não tomámos nada do que fizemos como demasiado precioso. Claro que tivemos muitas discussões, mas não há nenhuma canção rock que possa jamais magoar alguém fisicamente – emocionalmente talvez, e o objectivo até passa por aí.”

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Sleep Well Beast é o primeiro disco que apanha os membros do grupo a viver em diferente pontos do mundo (Los Angeles, Cincinatti, Long Island, Copenhaga e Paris) Graham MacIndoe

E que assuntos é que se discutem nos National? Pois bem, não tanto as canções. “Quando discutimos com alguém, fazemo-lo sobretudo acerca do facto de esse alguém não respeitar o quanto trabalhámos em algo ou não ver a mesma imagem abstracta daquilo que achamos que a canção deve ser”, defende. “Mas como em qualquer outra discussão, é sempre uma questão de nos sentirmos magoados ou desrespeitados por outra pessoa. Claro que nunca estamos verdadeiramente a discutir por causa de uma canção – isso seria ridículo. É sempre uma questão de ego, medo, raiva, receio de que a banda possa subitamente desaparecer, o pavor de nos podermos separar. O mesmo que acontece quando discutimos nos nossos casamentos ou nas nossas famílias, porque temos medo de perder alguém. Se nos irritamos com um irmão é porque nos preocupamos com ele. Não discutimos sobre canções – apenas fingimos que é sobre isso.”

Não sendo um álbum de ruptura em relação àquilo que conhecemos dos National – será até, porventura, um regresso ao sítio onde estavam há dez anos –, ouve-se em temas como I’ll still destroy you (um dos mais recompensadores de todo o registo) a mão de compositor de Bryce, seguidor de gente da vanguarda nova-iorquina como Philip Glass, Steve Reich ou os Bang on a Can, autor de vários quartetos de cordas para o Kronos Quartet. Matt diz que “Bryce nunca se sentiu desencorajado de trazer o seu mundo clássico para os National”, mas admite que este poderá ser um disco mais permeável a outras experiências exteriores ao grupo, e cita o exemplo do tributo aos Grateful Dead (Day of the Dead) em que os irmãos se empenharam durante quatro anos – “o Bryce e o Scott [Devendorf, baixista] são grandes fãs dos Dead e conhecem muito bem aquele material, mas terem tocado aquilo todos os dias, com aquele som, mudou-lhes qualquer coisa no circuito.”

Ainda assim, o vocalista não vê razão para se falar de uma maior disponibilidade para seguir por caminhos mais intrépidos. “Não me senti nada nervoso acerca do que estávamos a fazer”, diz, “e se estivéssemos a correr riscos penso que me teria sentido assim. Não estávamos muito preocupados com isso, não andávamos a dar high-fives uns aos outros por estarmos a ser incrivelmente aventureiros [risos]”. Todavia, e recordando a participação do grupo numa performance do islandês Ragnar Kjartansson, em que os National tocaram a canção Sorry durante seis horas seguidas (com uma pequena pausa para uma bucha), Berninger reconhece que as colaborações com diferentes artistas têm levado a que sintam mais confortáveis com a possibilidade da humilhação. “Humilharmo-nos é aquilo que deveríamos fazer – ou, pelo menos, arriscá-lo de cada vez que nos prestamos a alguma apresentação. Caso contrário, não é divertido de ver. Ninguém quer ver as pessoas à beira de um lago, quer é ver as pessoas a andar por cima do gelo fininho, que se pode quebrar a qualquer instante e fazê-las cair.”

Em Sleep Well Beast ouvem-se também uma maior preponderância de intromissões electrónicas, como em Walk it back, e um subtil ascendente rítmico que se estende a todo o disco. A combinação destes elementos – a electrónica temperada, os teclados melancólicos e as infiltrações da música orquestral – tem valido aos National o ocasional carimbo “Radiohead americanos”. Born to beg, do início ao fim, parece parida para confirmação desse estatuto oficioso.

E a verdade é que é fácil encontrar uma filiação inglesa nas canções da banda. Matt Berninger não o nega e lembra o dia em que a irmã levou para casa Louder than Bombs, compilação dos Smiths a roçar a perfeição, e percebeu que “havia um tipo de um lugar chamado Manchester, onde nunca tinha estado e do qual nada sabia, que se queixava das mesmas coisas” que o atormentavam. E que, ainda por cima, cantava sobre o que queria, pouco importado com o que terceiros pudessem achar disso. Matt cita ainda Joy Division, New Order e Wedding Present como referências fundamentais, junta-lhes Nick Cave, mas admite que é um pouco mais incestuoso do que isso nos seus gostos e rouba “a todos de igual maneira”.

Na sua cabeça, aliás, as canções dos National, nas quais reconhece uma inevitável marca d’água melancólica e especialmente propensa à tristeza – os malditos acordes menores dos irmãos Dessner, ri-se –, mudam constantemente de agulha. Num verso pode estar a cantar enquanto pensa num comboio atulhado de gente, para passados dois versos o seu banco de imagens o atirar para um passeio pelos bosques ou uma sala deserta, com uma mesa ao centro, desocupada, e daí saltar para uma mulher que trepa a uma árvore. As letras saltitam entre cenários a toda a hora. Mas Berninger resume-as sem dificuldade numa ideia de “tentar ser um bom pai, um bom marido, um bom amigo, um bom filho, encontrar equilíbrio, descobrir o que vai significar estar morto e o que fazer com isso enquanto se está vivo”. Outras vezes, são apenas sobre sexo e álcool. E, por baixo, um burburinho que nunca se cala e que é tanto a agitação de um homem quanto o eco da doença da alma americana.

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