Editorial

Alguém pediu uma vichyssoise?

Vai um desafio? E que tal se contássemos os choques entre Passos e Marcelo, só desde a rentrée do PSD, a meio de Agosto?

Passos bem dizia que não queria Marcelo - ele sabia porquê. Vai um desafio? E que tal se contássemos os choques visíveis entre os dois, só desde a rentrée do PSD, a meio de Agosto?

Começou com o novo discurso do PSD sobre a lei de imigração, que Marcelo destruiu uns dias depois; continuou pelo discurso de Cavaco contra Costa e Marcelo (que Passos elogiou, carregando contra quem o criticou); também pelos incêndios, onde o Presidente pediu tréguas até às eleições e Passos… ignorou. 

Já chega? Não. A lista prolonga-se na guerra dos enfermeiros ao Governo - que, pelo menos aos olhos de Belém, terá uma boa dose de influência social-democrata. E só acaba naquele momento raro em que Passos deixou transparecer o que lhe vai na alma, quando criticava os “anúncios” de medidas simpáticas que o Governo vai fazendo em época eleitoral: "Talvez o senhor Presidente da República possa dizer alguma coisa sobre essa matéria.” 

Nada disto acontece agora por acaso. O Presidente convenceu-se que o PSD está a usar de todos os meios para dinamizar as suas bases e maximizar os resultados nas autárquicas. O que também não surpreende, porque na sombra desta eleição há uma disputa anunciada dentro do próprio PSD. Vejam o que aconteceu ontem, porque por aí há muita guerra palaciana em curso: mais uma notícia sobre viagens, agora envolvendo Pedro Duarte (crítico de Passos, ex-mandatário de Marcelo); e uma resposta do próprio e de um outro envolvido, destapando alegadas fontes do partido: “Jogadas miseráveis”, disse Mauro Xavier. Bonito serviço.

A verdade é que Marcelo e Passos são do mesmo partido, mas não representam o mesmo PSD. E o destino de um é inversamente proporcional ao do outro: um sucesso de Marcelo passa pelo conforto deste Governo, o sucesso de Passos no PSD terá que ser “apesar” de Marcelo.

Na última segunda-feira, no Negócios, o comentador Pedro Adão e Silva classificava Marcelo e Costa como “uma coligação de palácios”. E fazia a síntese do que aí vem, visto do lado de São Bento: o grande teste ao poder efectivo de Marcelo, dizia ele, passa “pela capacidade de contribuir para reposicionar o seu espaço político de origem e reconstruir o campo para entendimentos entre PS e PSD.” Ou, dito de outra forma, livrar António Costa do peso da geringonça.

Já dizia Marques Mendes na SIC: curioso é que Passos e Marcelo fossem amigos e que Passos não se desse com Cavaco. Mais curioso seria se o homem que mais combateu o bloco central, em 1985, fosse agora o que lutaria por ele. Como é que contava Paulo Portas?