Do Haiti à Florida, à espera de um desastre sem precedentes

Temperatura da água do Atlântico acima de 30 graus mantém o furacão Irma na força máxima há vários dias, a causar destruição nas Caraíbas. E, a partir de sábado, ameaça ultrapassar a pior tempestade que já atingiu a Florida.

Furacões Katia (esquerda), Irma e Jose
Furacões Katia (esquerda), Irma e Jose NOAA/REUTERS
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O Haiti, massacrado há um ano pelo furacão Matthew, sentia já os efeitos do monstruoso Irma e temia a sua passagem durante a madrugada pela sua costa norte. “Se Saint Martin ficou 95% destruída, com os seus edifícios sólidos, acho que o Haiti vai desaparecer”, disse ao jornal Le Figaro Jean-Marie Theodat, da associação Haiti Futur, testemunhando a ansiedade que se vivia no país.

O Norte das Caraíbas continua à espera do pior, com a passagem do gigantesco furacão Irma, que fez pelo menos 11 mortos na quinta-feira. E a Florida prepara-se para a tempestade que deve chegar no fim-de-semana e promete ultrapassar o histórico Andrew, em 1992, que durante anos foi o mais destruidor a atingir os Estados Unidos, com ordens de evacuação obrigatórias das localidades costeiras, incluindo Miami Beach.

Na rota do Irma estão ainda as ilhas Turcos e Caicos, as Bahamas, a República Dominicana e os cayos (ilhéus) de Cuba. Para trás, a fúria do grande furacão, com rajadas de vento que chegaram a atingir 360 Km por hora, deixou pelo menos dez mortos e ilhas devastadas como Saint Martin e São Bartolomeu, que são território francês (à excepção da metade meridional da primeira ilha, que pertence aos Países Baixos).

Na Florida, esgotam os víveres nos supermercados e escasseia combustível nas bombas de gasolina porque todos querem fugir da costa – recorda-se o furacão Andrew, que há 25 anos chegou à costa como categoria 5 na escala Saffir-Simpson, e que até ter acontecido o Katrina, em 2005, era aquele que maiores prejuízos tinha causado nos EUA.

O Andrew destruiu mais de 63.500 casas, danificou 124 mil e matou 65 pessoas só nos EUA. Foi tão grave que este nome foi eliminado da lista usada para baptizar as tempestades tropicais (alterna-se um nome feminino com um masculino, avançando ao longo do ano nas letras do alfabeto).

Se uma tempestade equivalente atingisse a Florida hoje, com o mesmo percurso, a catástrofe seria ainda maior: os estragos poderiam ser de 100 mil milhões de dólares (83.820 milhões de euros) em vez de 26.500 milhões de dólares (22.210 milhões de euros), como em 1992, diz uma avaliação recente da companhia de seguros Swiss Re, citada pelo New York Times, porque o Sul da Florida tem crescido a grande ritmo. Vivem hoje mais seis milhões de pessoas nesta região do que no início da década de 1990, e é na costa que as construções e as propriedades mais valiosas se concentram.

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Só que o Irma é maior que o Andrew. “Maior, mais rápido, mais forte”, disse o governador da Florida, Rick Scott, quando anunciou a ordem de evacuação obrigatória de povoações da ponta mais a sul do estado, em zonas mais baixas, iniciada já na quarta-feira. A maior parte dos edifícios de Miami foram construídos após a passagem do Andrew e, em princípio, estão aptos a suportar uma tempestade como o Irma. Mas o presidente da câmara não põe as mãos no fogo. “Eu não confiaria em nenhum regulamento de construção, em nenhuma promessa. Nunca pensei dizer isto, mas o melhor é sair de Miami Beach”, afirmou Philip Levine à CNN.

Sábado infernal

A Cruz Vermelha calcula que 26 milhões de pessoas possam ser afectadas pelo Irma, contando com os EUA e as Caraíbas.

No encalço de Irma vem José, que atingiu se tornou num furacão de categoria 3 nesta quinta-feira, com ventos na ordem dos 195 quilómetros por hora, e poderá atingir ilhas já massacradas esta semana. No Golfo do México formou-se uma terceira tempestade, Katia, se mantém estacionária, embora possa chegar a terra no sábado, no estado mexicano de Veracruz, igualmente como um pequeno furacão de categoria 3. Sábado prepara-se para ser um dia de pesadelo nas Caraíbas e na costa Sudeste americana.

Não é inédito nem incomum que se formem várias tempestades em sucessão, mas desde 2010 que não havia três tempestades tropicais activas na bacia do Atlântico. Isto acontece sobretudo em Agosto, Setembro ou Outubro, o período mais activo da época de furacões no Atlântico, que vai de Junho a Novembro, disse ao New York Times Gerry Bell, especialista em previsões de furacões do Centro de Previsão Climática da Agência para os Oceanos e a Atmosfera dos EUA. “Estamos no pico da estação. É nesta altura que se formam 95% dos furacões.”

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Anomalia da temperatura da água do mar no Atlântico NASA

Mas é verdade que se verificam condições fora do comum. O calor da água do mar é o combustível que alimenta o motor dos furacões. E um comunicado da NASA, a agência espacial norte-americana, explica que no caminho até à costa da Florida, a água do Atlântico pela qual passa o Irma tem temperaturas acima de 30 graus Celsius. Isto é suficiente para o manter como um furacão de categoria 5, ou seja, com ventos acima de 252 km/hora. Segundos os serviços meteorológicos franceses, o Irma já é o furação de categoria 5 que mais tempo se manteve com esta força, desde o início da era dos satélites.

O Irma está a ser a tempestade mais forte que alguma vez atingiu o Norte das Caraíbas e uma das mais fortes de sempre na bacia do Atlântico. E, além disso, explica a NASA, o furacão Irma é gigantesco. Os ventos de 295 km/hora estendem-se por 85 km a partir do olho do furacão.

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Terá isto a ver com as alterações climáticas? Não é certo, mas parece cada vez mais certo que sim – na medida em que os grandes ciclones parecem ter-se tornado mais frequentes no Atlântico, embora haja menos tempestades. Além disso, em 2017 não está a haver condições para formação do fenómeno meteorológico El Niño, que faz diminuir o número de furacões no Altântico.

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