Crítica Cinema

Sem sair do lugar (comum)

A gastronomia volta a ser um pretexto para Steve Coogan e Rob Brydon falarem das suas crises de meia-idade, mas a viagem continua a não valer a pena.

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Como não há duas sem três, vá dos actores e comediantes ingleses Steve Coogan e Rob Brydon encetarem uma terceira viagem gastronómica europeia, depois de The Trip em 2010 e de A Viagem a Itália em 2014. Viagem gastronómica que, tal como as duas anteriores, está menos interessada na comida e nas paisagens e nas localidades do que na relação de “irmãos desavindos” que une as duas personagens, e nas suas pequenas crises de burgueses de meia-idade que se perguntam para onde foi a sua vida.

A Viagem a Espanha troca a Inglaterra e a Itália dos episódios anteriores por nuestros hermanos, como o título indica, mas fora isso não faz absolutamente nada de diferente dos dois anteriores: ficção solta a fingir-se de falso documentário, apoiada nos diálogos improvisados entre Coogan e Brydon à mesa do almoço, preenchidos quase inteiramente por imitações que aqui e ali têm graça (Mick Jagger, Roger Moore), e com esboços de personagens ou propostas de tramas que acabam por nunca ter sustentação para lá de um exercício escolar.

E Michael Winterbottom outra vez a filmar tudo sem chama, sem sequer uma ideia de cinema (mesmo os planos de drone pelas paisagens espanholas são só postais em movimento) — o que, tendo em conta que as três Viagens têm existência paralela como série televisiva, acaba por nem ser tão estranho como isso. E a verdade é que Coogan e Brydon podem viajar para onde quiserem que, enquanto a proposta continuar a ser esta, acabam por nunca sair do mesmo lugar.