Crítica

Não há milagres em São Paulo

O Futebol, filmado ao longo do mês em que o Brasil recebeu o Mundial de 2014, é um reencontro entre pai e filho e um pretexto para falar do país numa curva descendente.

Foto

“Não tem muito clima de Copa do Mundo”, comenta o filho Sérgio num dos primeiros passeios de carro com o pai Simão, à vista do tráfego automóvel de São Paulo, dos transeuntes indiferentes, da meia dúzia de bandeirinhas do Brasil que enfeitam as ruas, do céu cinzento e molhado que lembra que a Copa se joga quando no hemisfério Sul é inverno. “Pois não”, responde o pai, como se aquela observação do filho fosse a constatação de uma evidência tudo menos surpreendente.

O Futebol, filmado ao longo do mês em que o Brasil recebeu o mundial de futebol de 2014, fica parcialmente anunciado neste diálogo: é um filme de “contraponto”, completamente disfórico, que parte de expectativas muito baixas (“o Brasil não vai ganhar, nem pensar”) para ficar a vê-las a baixar ainda mais — nada nos diz que, tivesse o mundial 2014 corrido de outra forma para o país organizador, Sérgio Oksman não teria feito mais ou menos o mesmo filme, mas o certo é que, tal como é, e pese todo o seu carácter altamente construído e nada inocente, O Futebol caminha para os 7-1 das meias-finais, como se fosse o golpe de misericórdia que tudo no filme parecia pedir desde o princípio.

Sérgio Oksman, que vive em Madrid há perto de vinte anos (e que já notáramos com A Story for the Modlins, outra ficção travestida de documentário ou vice-versa, sobre um anónimo figurante de A Semente do Diabo de Polanski, exibido numa das últimas edições do DocLisboa), tem insistido que o seu filme não é “sobre o Brasil”, que está há demasiado tempo fora do país para o poder tratar como se o conhecesse. Certo. Em primeira instância, O Futebol é sobre ele e o seu pai, ou sobre projecções dele e do seu pai, encenadas para a câmara de uma maneira que deixa sempre dúvidas sobre o que é genuíno e “transparente” e sobre o que é construído e “turvado”, de tal forma que, quando acontece a tragédia e o pai desaparece, hesitamos em decidir se estamos no “documento” ou na mais perversa “ficção”.

O pai, um septuagenário solitário, dono de uma pequena oficina de reparações de objectos electrónicos, aceita o repto do filho: deixar-se filmar durante o mês da Copa, enquanto assistem, pela televisão, a todos os jogos (e utilizando o calendário do Mundial, a menção aos jogos e às datas, como marcações de entradas num diário). Andam muito de automóvel, em longos planos que avançam por São Paulo com a câmara fixa no banco traseiro, exactamente como Corneliu Porumboiu fazia no Metabolismo (Oksman diz-se admirador do cinema romeno, pelo que a referência não será circunstancial), vistos como duas nucas em diálogos esparsos, pouco fluidos, quase sempre incompletos — toda a estranheza e distância de um relação pai/filho quebrada durante demasiado tempo, bem expressa nas tímidas e frustradas tentativas de Sérgio para arrancar alguma luz sobre as zonas de sombra da vida do pai, nomeadamente a separação da mãe e o tempo em que viveu sozinho num hotel, tentativas acolhidas com a mesma indiferença com que o pai comenta os super 8 do seu casamento, nos anos 60.

O Futebol é sobre isto, sem dúvida, e pode ser comovente: “two rode together” durante o mês da Copa, à procura de um território emocional comum que ultrapasse o facto de terem idades e experiências de vida totalmente distintas, a um ponto em que único laço palpável subsistente é mesmo o do sangue, e toda a comunicação tem que passar por esse “esperanto” masculino que é a linguagem do futebol. Este é o centro do filme, e tem momentos brilhantes, que parecem saidos do Milagre em Milão de de Sica ou da convivência entre personagens desvalidas da comédia à italiana, como quando vão “assistir” a um jogo (os bilhetes são caros e o pai não pode largar a loja) de um ponto da cidade em que vislumbram uma nesga do estádio, e tentam seguir o desafio através dos ruídos e reacções da assistência, longa e brilhante cena de comédia ao retardador.

Portanto, podemos acreditar em Oksman quando ele diz que isto não é “sobre o Brasil”. Mas não deixa de ser sobre o confronto com uma memória do Brasil, tornada irreconhecível, tão irreconhecível como aquela parte da cidade, agora cruzada por um dédalo de viadutos e auto-estradas, onde o pai se perde. A memória de um Brasil “automitologizado”, uma ilusão de grandeza que tinha no desporto a sua máxima expressão (no futebol, sobretudo, mas não só: “Fittipaldi!”, exclama Sérgio quando pai e filho folheiam uma colecção de cromos dos anos 70 com ilustrações de glórias e heróis brasileiros). No momento do fatídico 7-1, que Oksman dá por relances de imagens de televisão e relatos radiofónicos, ouve-se um locutor, ainda o placard ia nos 4-0, lamentar-se e dizer algo como: “não pode ser, o Brasil de Pelé, de Garrincha, de Didi, não pode perder de 4-0 em casa”. Face a esse lamento, a hipótese que o filme levanta é de uma evidência tão cruel que fere: muito simplesmente, este já não é o Brasil de Pélé, de Garrincha, de Didi, 2014 não trará glórias para acrescentar à colecção de cromos, a mitologia é, cada vez mais, só mitologia. E no fim, nas lanchonetes de uma São Paulo semideserta, a única vaga alegria que resta é a de se saber que, na final do mundial, a Argentina perdeu.