Nas Antilhas francesas, a passagem do furacão Irma foi como uma bomba

Território das Antilhas atingido pelo furacão de categoria 5. Porto Rico, República Dominicana, Haiti, Cuba e o estado da Florida estão no caminho da tempestade.

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Uma imagem de satélite do furacão Irmã por cima das Antilhas LUSA/NASA
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Porto Rico Reuters/ALVIN BAEZ
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Porto Rico LUSA/Thais Llorca
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Palmeiras arrancadas, barcos virados, carros submersos, ruas inundadas. Os vídeos e fotografias que vão chegando de São Martinho, uma pequena ilha no Nordeste das Antilhas, no oceano Atlântico, revelam os estragos do furacão Irma, que já atinge a categoria 5, a mais elevada na escala dos furacões, que está a assustar os especialistas e a aterrorizar as populações que estão no seu caminho. O Ministério do Interior francês avisou que os quatro edifícios “mais sólidos” de São Martinho (a parte Norte da ilha pertence à França e a parte Sul à Holanda) ficaram destruídos, diz a BBC News. Ao fim da tarde desta quarta-feira, o Presidente francês, Emmanuel Macron, veio dizer que prevê mortes e horas depois, ao final da noite, foi anunciado que a passagem do furacão provocou seis mortos na parte francesa da ilha de São Martinho e um morto em Antígua e Barbuda.

“Neste momento, é demasiado cedo para se ter uma figura total, mas posso já dizer que o impacto vai ser duro e cruel”, avisou Macron, após uma reunião de crise para avaliar a situação, referindo-se às consequências da passagem do Irma nas ilhas de São Martinho e de São Bartolomeu, outro território francês situado nas Antilhas. “Vai haver mortes e o dano material em ambas as ilhas será considerável.” O secretário de Estado das Comunidades, José Luís Carneiro, disse à Lusa que o número de turistas portugueses nas zonas afectadas pelo furacão pode chegar a “algumas centenas”.

Ao início da manhã, o furacão já tinha passado pela ilha de Barbuda, a sudeste da ilha de São Martinho, a primeira a ter sido atingida pela tempestade. Por volta das 13h (hora de Lisboa), o olho de Irma, com ventos de 250 quilómetros por hora, estava em São Martinho, onde vivem 78 mil pessoas, diz o Libération.

Alex Woolfall, um assessor de imprensa na ilha de São Martinho citado pela Reuters, traduz numa sequência de tweets o que se pode ter sentido à medida que o furacão se aproximava. “OK, estou completamente aterrorizado. Será que todos os não-crentes, ateus e hereges poderão rezar por mim em São Martinho, agora que o Irma chegou aqui”, escreveu há quatro horas, escondido debaixo de uma escadaria de cimento de um prédio. “Poderá ser o último tweet agora que a energia acabou e o barulho é apocalíptico. Isto é como um filme que eu nunca quis ver.”

Para um furacão subir à categoria 5, os ventos máximos no olho do furacão têm de atingir os 252 quilómetros por hora, de acordo com o Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos. No olho de Irma, a velocidade máxima dos ventos é de 295 quilómetros por hora. Irma é um dos cinco furacões mais poderosos que atingiram o Atlântico nos últimos 80 anos e é o mais forte registado na região das Caraíbas e do golfo do México, segundo o Centro Nacional de Furacões..

“Meu Deus, este barulho! É como estar atrás de um motor de um jacto! O barulho constante de explosões. Pelo menos, a escada de cimento não se move”, escreveu ainda Alex Woolfall no Twitter. “Continuam os barulhos e estrondos lá fora e o assobiar na escadaria. Posso ouvir gritos de coisas a atingirem o edifício.”

Na previsão da viagem do Irma, o furacão continuará o seu caminho para oeste, podendo atingir outras ilhas das Antilhas como Porto Rico, a República Dominicana, Haiti e Cuba. Esta última com menos intensidade, já que se prevê que o furacão vire para norte, para chegar ao estado norte-americano da Florida no domingo.

“Devem completar-se rapidamente todas os preparativos para proteger as vidas e as propriedades”, segundo o Centro Nacional de Furacões, avisando que o Irma “vai ameaçar as vidas devido aos seus ventos, à sobre-elevação do nível do mar e às chuvas intensas” naquelas ilhas.

Época de furacões agitada

No início de Agosto, os Estados Unidos confirmavam que existiam condições para uma temporada de furacões do Atlântico (de Junho a Novembro) mais agitada do que o normal.

“Estamos agora a entrar no pico da temporada quando o grosso das tempestades costumam formar-se”, dizia então Gerry Bell, responsável pela previsão dos furacões na Agência Nacional dos Oceanos e da Atmosfera dos Estados Unidos (NOAA, sigla em inglês). “Os padrões de vento e do ar na região tropical do oceano Atlântico e do mar das Caraíbas, onde muitas tempestades se desenvolvem, estão propícias para uma temporada acima do normal.”

Segundo o especialista, estas probabilidades aumentaram porque desde Maio até Agosto houve uma diminuição abrupta das hipóteses de se formar um El Niño. Este fenómeno cíclico faz subir a temperaturas da água do oceano Pacífico, o que tem consequências climáticas para outras regiões do mundo, entre as quais a diminuição de furacões no oceano Atlântico. Além disso, a temperatura das águas na região tropical do Atlântico estava acima do que os modelos tinham previsto para este Verão, o que contribui para a formação de furacões.

Uma temporada normal de furacões produz nove tempestades que são suficientemente importantes para ganharem um nome (como Harvey e agora Irma). Destas, seis chegam a furacões e três são furacões fortes. Mas nas nove primeiras semanas da época, já se formaram seis tempestades, o dobro do normal.

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Há três tempestades activas, além do furacão Irma, há mais duas tempestades tropicais, Katia e Jose NOAA

Quem olhar para o mapa que surge na primeira página do Centro Nacional de Furacões apercebe-se desta agitação. A tempestade tropical Harvey, que lançou um dilúvio sobre o Texas, já desapareceu. Mas além de Irma, há mais duas tempestades no mapa: Katia, junto à costa do México, e Jose, com potencial para se tornar num furacão (se atingir ventos acima dos 120 quilómetros por hora) já na quarta-feira e tocar nas ilhas do Nordeste das Caraíbas no domingo.

Milhões em perigo

Os Estados Unidos, ainda abalados pelo impacto do Harvey, que matou 60 pessoas e causou 180 mil milhões de dólares em estragos (150 mil milhões de euros), têm agora que enfrentar o furacão Irma. O Presidente Donald Trump aprovou o estado de emergência para a Florida, Porto Rico (território que engloba a ilha principal de Porto Rico e mais alguma pequenas ilhas nas Caraíbas) e as Ilhas Virgens também, nas Caraíbas.

Em San Juan, capital de Porto Rico que fica na costa Norte da ilha principal, a população prepara-se para o pior. As maiorias das lojas de San Juan estavam encerradas e as ruas vazias. Ricardo Rosselo, o governador de Porto Rico, incitou os 3,4 milhões de pessoas que habitam a ilha a refugiarem-se nos 460 abrigos contra furacões. 

“Estou preocupada. Esta vai ser uma tempestade enorme, maior do que alguma vez vi”, disse Angelica Flech, de 45 anos, à agência Reuters. A porto-riquenha armazenou alimentos e água no segundo andar da sua casa e barricou as janelas com metais, mas está preocupada com a sobrelevação do mar causada pelo furacão. O Centro Nacional de Furacões estima que o furacão possa fazer subir o nível médio do mar até 1,8 metros na costa Norte da ilha, onde se situa a capital.

PÚBLICO - Previsão da rota do furacão <i>Irma</i> nos próximos dias
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Previsão da rota do furacão Irma nos próximos dias PÚBLICO

Nas Florida Keys, uma linha de ilhas que tocam o Sul da Florida e que contam com mais de 70.000 pessoas, os visitantes foram mandados retirar das ilhas e as escolas vão estar fechadas nos próximos dias. Segundo o governador da Florida, Rick Scott, outras regiões do estado terão de ser evacuadas à medida que o Irma se aproxima. Na costa da Florida, a sobrelevação do mar pode atingir os três metros.

“Podemos reconstruir as casas, mas não podemos dar vidas de volta”, avisou o governador no programa Bom Dia América, da ABC, citado pela Reuters. O Irma poderá ser o pior furacão a atingir aquele estado desde 1992. “Não sabemos exactamente onde ele vai atingir”.