Coreia do Norte: quando um erro de cálculo pode levar a um cataclismo

O ponto crítico das tensões mundiais deslocou-se para o Nordeste Asiático. Nem chineses nem americanos têm uma “boa opção” para resolver a crise. O grande risco é uma provocação de Kim abrir uma espiral incontrolável.

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EPA/FRANCK ROBICHON

A crise norte-coreana atingiu um ponto crítico em que os vários actores têm uma margem de manobra cada vez mais estreita. Os analistas repetem os clássicos alertas sobre o risco de um erro de cálculo provocar um cataclismo. Após o teste nuclear de domingo, adivinham-se novos ensaios balísticos norte-coreanos para convencer o mundo da realidade do seu estatuto de potência nuclear. Prosseguirão a sua corrida junto ao abismo, enquanto Washington e Pequim parecem não dispor de nenhuma “boa opção”.

Tanto quanto se pode imaginar, Kim Jong-un não será paralisado nem pelas ameaças de Donald Trump nem pelas pressões da China. O último teste foi um desafio aos Estados Unidos e uma bofetada na China. “Do ponto de vista da Coreia do Norte, Trump e Xi são ambos ‘tigres de papel’”, declara ao Financial Times Michael Kovrig, responsável pelo Nordeste Asiático no International Crisis Group. O mesmo dizem analistas chineses. A imprensa de Pequim queixa-se de que os norte-coreanos desprezam egoisticamente os interesses chineses”.

Os Kim não provocam apenas Trump. São reincidentes nas provocações a Pequim. Se gostam de fazer testes nucleares ou lançar mísseis em dias simbólicos para os Estados Unidos, também apreciam, como sinal de independência, estragar “festas chinesas”. Este teste foi uma provocação a Xi Jinping na cimeira dos BRIC. Em 2006, Kim Jong-il (o pai) estragou a primeira visita do japonês Shinzo Abe a Pequim.

O tabu chinês

No entanto, a China tem a única arma “fatal” contra o regime de Kim: o corte do fornecimento de petróleo. Em 2003, Pequim “fechou a torneira” durante três dias e Pyongyang aceitou negociar. Hoje a situação é outra: a Coreia do Norte subiu de patamar. Chineses a americanos partilham a oposição ao nuclear norte-coreano, mas têm interesses e estratégias contraditórios. Para Pequim, a estabilidade da Coreia do Norte pesa mais do que o nuclear.

O primeiro “fantasma” da China é a desagregação do regime dos Kim, que poderia ter consequências catastróficas na China, das vagas de refugiados à desestabilização de províncias chinesas. Segundo e mais importante factor: a Coreia do Norte é um “Estado-tampão” perante a presença americana na Coreia do Sul. A implosão do Norte poderia levar os americanos até à sua fronteira e, inclusive, a uma “reunificação catastrófica” da Coreia, que mudaria a geopolítica da Ásia Oriental.

Pequim olha a presença americana no Sul como um meio de contenção da China. As considerações estratégicas estão acima dos interesses comerciais imediatos. Se os EUA não têm um interesse particular na Coreia do Norte, a China tem: faz parte do seu espaço de influência.

Xi Jinping parece enredado num dilema. A relação de forças com os EUA é o elemento primordial. Mas, por outro lado, a corrida nuclear norte-coreana está a desestabilizar a região e pode dar lugar a uma aliança antichinesa, para não falar na ameaça de nuclearização do Japão ou no próprio risco de guerra.

Os analistas não acreditam que Pequim corte o petróleo — a não ser numa situação extrema. Não mudaram os princípios fundamentais da sua política coreana.

Pyongyang desafia Pequim porque tem uma arma temível: a sua própria fraqueza e a correlativa capacidade de espalhar caos. Eles conhecem bem os interesses e os temores de Pequim. E gostam de demonstrar que não são um Estado vassalo da China.

A fúria de Trump

Os EUA enfrentam o mais perigoso momento desde a crise dos mísseis de Cuba, em 1962, com um líder errático. As ameaças de “fúria e fogo” repetidas por Trump inquietam os especialistas da dissuasão. Kim calcula que o Presidente americano está a fazer bluff. A Coreia do Norte não vai lançar uma bomba sobre os Estados Unidos, o que seria um suicídio, mas também não acredita que os EUA lancem um ataque preventivo, convencional ou nuclear.

A arma atómica “não é para ser usada”, serve para “santuarizar” um território. Depois do teste, Trump repetiu a ameaça, dizendo que a Coreia do Norte “só compreende uma coisa”. A “coisa” é a força militar, insinuando o “fogo” nuclear. Fazer ameaças que não se vão cumprir desvaloriza a dissuasão, mina o tabu nuclear e põe em xeque a credibilidade americana.

É um erro político ameaçar a Coreia com um ataque militar, declara ao Le Monde Antoine Bondaz, especialista da Coreia na Fondation pour la Recherche Stratégique. É uma linguagem que reforça a “mentalidade de cerco que perdura na Coreia do Norte e permite controlar a população”.

Com Trump, os EUA deixaram de ter uma política para a Ásia-Pacífico. Ele prossegue uma via errática que faz desconfiar os seus aliados da seriedade do “guarda-chuva nuclear” americano. Washington está a perder a confiança da aliada Coreia do Sul. Quem corre o maior risco são os habitantes de Seul, expostos à artilharia norte-coreana. À superfície, o Japão parece mais tranquilo, mas está também a degradar-se a credibilidade da protecção americana.

A dinastia Kim

O pensamento da dinastia Kim é-nos estranho mas não é irracional. O programa nuclear foi conduzido de forma errática mas com determinação. Foi uma constante da dinastia Kim. Travado pela União Soviética, o programa foi relançado após o fim da URSS, numa situação de extrema fraqueza, numa era de fome e colapso económico. Tratava-se de salvar o regime.

É fácil entender a paranóia do cerco num país que sofreu contínuas invasões, sobretudo a japonesa. O nuclear tornou-se uma “questão existencial” para dinastia, meio de garantir a perpetuação no poder. Os ocidentais iludem-se ao olhar os Kim como psicopatas e ao levar a sério as suas farsas de propaganda.

Adverte o historiador Bryan Meyrs, que estudou a Coreia do Norte: “É errado considerar Pyongyang como a última ditadura estalinista. O nacionalismo é a chave para compreender o regime. E o armamento nuclear é a sua raison d’être.” É uma tirania que não recua perante nenhum crime e que explora um ultranacionalismo assente na “superioridade da raça coreana”.

O medo da espiral

É demasiado tarde para forçar Pyongyang a abdicar do programa nuclear e balístico. Uma guerra convencional na Península da Coreia facilmente se tornaria nuclear. O ponto crítico das tensões mundiais deslocou-se para a Ásia do Nordeste, com risco de colisão entre americanos e chineses.

O analista Richard C. Bush, da Brookings Institution, adverte que “o real perigo decorre da possibilidade de alianças enfraquecidas e de uma escalada na Península da Coreia poder dar lugar a uma espiral fora de controlo”. Se o sentimento de impunidade se apoderar de Pyongyang, graças à arma nuclear, tudo pode precipitar-se. Afundar um pesqueiro japonês ou fazer um teste de provocação à Coreia do Sul podem lançar aquela espiral.

Voltando à bomba de domingo, escreve com pessimismo no Financial Times o editorialista Gideon Rachman: “Pode estar no horizonte uma qualquer forma de desfecho da crise, mas nem os principais actores do drama podem saber se a crise levará a negociações ou à guerra.”