Editorial

Não há sanções que nos valham

A China será sempre a potência de referência na Ásia, mas a incapacidade em conter o aliado norte-coreano revela uma incompetência inesperada de Pequim.

Donald Trump tem dois problemas estratégicos, que estão aliás a ser jogados com mestria por Pyongyang. O primeiro é geográfico: não existe qualquer cenário em que um ataque debilitante contra a Coreia do Norte possa ser executado antes que alguém carregue num botão que implique a morte dos dez milhões de habitantes de Seul. O segundo chama-se China, cuja constante protecção ao pequeno aliado de matriz comunista parece inabalável. A isto alia-se uma questão estrutural, que é a absoluta indiferença de Kim Jong-un à imposição de sanções. Desde logo porque o país é praticamente impermeável ao comércio externo, funcionando numa redoma que só é trespassada pela China. Mas, mais do que isso, porque a liderança norte-coreana é indiferente às provações que o país possa sofrer, mantendo um controlo apertado sobre as finanças do país e garantindo que nada falta ao grande líder e ao seu séquito.

Neste momento, todas as opções são más. Um ataque militar americano está fora de questão, as sanções não vão afectar quem deviam, as negociações parecem impossíveis e não parece haver um James Bond capaz de assassinar o líder norte-coreano e assegurar uma transição de regime. Nem a China parece capaz de controlar um líder que só quer afirmar cada vez mais o poder que tem. Como sempre acontece nestes momentos, a primeira consequência é a aceleração da corrida às armas. É o que Seul está a fazer, lançando um programa de capacidade balística mal visto pela China e com novas consequências na gestão de forças naquela região. Em Tóquio já nem se disfarça uma corrida às armas, com o objectivo semi-declarado de restaurar a grandiosidade do exército do império japonês. Os nipónicos vão voltar a ter uma capacidade ofensiva relevante, contrariando o espírito pacifista da própria constituição, graças ao apoio declarado do próprio primeiro-ministro Abe a este reavivar de espírito nacionalista.

Tudo isto representa uma derrota da China, que gosta de achar que controla a região – mas onde a corrida bélica tem contornos que escapam aos seus objectivos declarados. A China será sempre a potência de referência na Ásia, mas a incapacidade em conter o aliado norte-coreano revela uma incompetência inesperada de Pequim. Nada do que está a acontecer, exceptuando talvez o novo embaraço da Casa Branca, é do interesse directo de Pequim. A escalada militar na região aumenta o potencial de conflitos regionais que podem pôr em causa interesses estratégicos dos chineses ou dos seus aliados, para além das inevitáveis perturbações nos mercados – que são as maiores preocupações de uma Pequim que por enquanto apenas quer ganhar a guerra comercial e financeira.