Passos defende Cavaco, dá toque a Marcelo e atira a Costa e à “geringonça que funciona”

Presidente do PSD diz que, já que "a geringonça funciona", então que o Governo aproveite para pensar no futuro. Passos condena ainda que quem é crítico da governação socialista seja apelidado de "racista", "xenófobo" ou "outra coisa qualquer".

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LUSA/NUNO VEIGA

Passos Coelho fez este domingo um longo discurso no encerramento da Universidade de Verão do PSD em que aproveitou para responder a críticos, defender a posição do ex-Presidente da República Cavaco Silva e do eurodeputado Paulo Rangel, apontar o dedo à cooperação entre Marcelo Rebelo de Sousa e o Governo, e ainda lançar críticas ao que consida ser a não discussão de assuntos importantes para o futuro pelo executivo de António Costa. Para o presidente do PSD, a “geringonça”, que admitiu que “funciona”, anda distraída “na espuma dos dias”, não debate as reformas essenciais para futuro e não tem tolerância para ouvir opiniões diferentes. “Não é um combate de galos, é um combate de ideias para transformar o país, para ajudar a transformar o país”, defendeu já no fim, a uma plateia de alunos social-democratas.

Todo o discurso de Passos Coelho foi numa linha de provar que o Governo está apenas a gerir o dia-a-dia e às vezes nem gerindo – referindo os casos da PT/Altice e Autoeuropa, onde PCP e BE “discutem a influência” e o PS “faz como se não fosse nada com ele" - , não apostando no futuro, não aproveitando a conjuntura e sendo intolerante com a diferença e escondendo a austeridade que ainda aplica. Para o PSD, “não se discute a reforma da segurança social, a reforma do Estado, uma reforma que possa ter pés e cabeça na área da saúde, educação".

"Não se discute o que é mais importante”, disse para depois defender que o Governo tem “beneficiado de condições muito particulares que deviam propiciar uma acção reformista a pensar no futuro”.

Entre esses factores que beneficiam o Governo está a estabilidade governativa. “O Governo não se pode queixar de instabilidade política, a geringonça funciona, está lá a apoiar o Governo no Parlamento; [também] não se pode queixar da falta de cooperação do Presidente da República, tem sido permanente e efectiva”, defendeu, criticando numa só frase os três partidos que apoiam o Governo e Marcelo Rebelo de Sousa.

Nos restantes factores que estão a ajudar a acção do executivo de António Costa – e que este tem desperdiçado, de acordo com Passos – está uma maior tolerância da União Europeia. “Não se pode queixar da intolerância de Bruxelas, podemos beneficiar de maior flexibilidade e tolerância de Bruxelas; [o Governo] conta também com enorme tolerância de parceiros na sociedade civil, uns porque têm medo de se opor e outros porque estão convictos que o que o Governo está a fazer é do seu interesse”, defendeu. A estes factores juntam-se ainda o “sucessos” da saída da assistência externa, as reformas “importantes” do anterior Governo que ajudaram a economia e ainda o preço do petróleo muito mais “favorável”.

Perante tantas condições positivas, Passos pergunta: “São tantas as condições boas para que o Governo possa ter uma visão estratégica de futuro, é legítima a pergunta:  Por que o não faz?”.

Para Passos, o que Costa está a fazer é usar a falta de “transparência” sobre o trabalho que faz apenas com fins eleitorais: “Quem governa hoje só tem uma posição - apresentar as suas escolhas de forma tão dissimulada para quando foram confrontados pela oposição em futuras eleições, possam diabolizar a oposição e poder vender um benefício muito relativo que possa ter resultado do exercício do poder”. Esta é, disse “uma preocupação eleitoral".

"Se a preocupação fosse outra, os termos da discussão mudavam completamente”, defendeu.

Foi na sequência desta avaliação que considerou “secundário” o consenso que o primeiro-ministro quer fazer em relação às obras públicas. Lembrando que a única visão de futuro de Costa foi apresentar “numa entrevista de Verão” a necessidade de consenso em torno e obras públicas depois de ter congelado investimento do Portugal 2020 que tinham sido programado pelo anterior Governo, Passos questiona: “Estão a falar de quê? Que grandes obras públicas precisamos para as nossas exportações cresçam?”, disse. Como remate, Passos considerou esta discussão “secundária”, dando assim implicitamente uma nega a António Costa, que tinha apelado ao PSD para um debate sobre os grandes investimentos para o futuro.

Em defesa de Cavaco Silva e de Paulo Rangel

Perante uma plateia de alunos, Passos Coelho tinha começado a intervenção por dizer que é preciso que o partido defenda os seus valores, mesmo e quando falam contra corrente. Passos classificou como “intolerantes, incompreensíveis nos tempos que vivemos dentro da cultura democrática que é a nossa” as reacções às palavras do ex-Presidente da República Cavaco Silva, que regressou esta semana numa intervenção na Universidade de Verão do PSD.

Depois de vários dias de críticas, Passos saiu em defesa de Cavaco. “Como é possível que alguém possa indignar-se com um ex Presidente da República (…) quando resolveu, dentro do seu exercício cívico, analisar a situação de Portugal e europeia e apresentar a sua visão crítica?”. “O dr Cavaco Silva não tem direito a exprimir a sua opinião? Não podem tomar o que disse pelo valor do que disse e contraditá-lo se acharam que não merece a sua concordância? Por que tentam desqualificar a pessoa?”, questionou.

Ainda sobre o que entende ser uma falta de tolerância perante a crítica, Passos denunciou os insultos que diz que os opositores são alvo por parte de quem defende, afirma, o "pensamento dominante".

"Não respeitamos a intolerância, não aceitamos o ambiente de intolerância em que só se discute o futuro segundo a perspectiva do pensamento dominante, e segundo o qual quem não pensar como quem está no Governo não é bom português, ou é racista, ou é xenófobo ou é outra coisa qualquer, que eles são useiros e vezeiros em rotular as pessoas", disse.

O mesmo para as palavras de Paulo Rangel, que esta semana, também na Universidade de Verão, fez uma relação entre os cortes em algumas áreas do Estado e as vítimas dos recentes incêndios de Pedrógão Grande. “Esperar-se-ia que a reacção pudesse basear-se nos factos, demonstrar-se que não é assim, é mais fácil chamar mentiroso a alguém do que desmontar a mentira, em particular quando corresponde à verdade”, analisou Passos, falando da mensagem no geral de Rangel.

Contudo, também deu a sua explicação para as palavras do eurodeputado, dizendo que é verdade que o Governo confunde “o Estado social com o estado salarial” e que o PSD vai continuar a mostrar o que o executivo tem feito para cumprir as metas do défice. E, se afirmou que ainda bem que as cumpriu, por outro lado, diz, “esconde” o modo como as atingiu. “Ainda bem que o Governo atingiu a meta do défice, é positivo. Mas não podemos não chamar a atenção para o que foi feito para alcançar esses resultados”, disse. E o que foi feito? Para Passos, as cativações provocaram “um mínimo de qualidade dos serviços públicos, principalmente em áreas de Estado, como a segurança interna, a protecção civil, a justiça, a defesa, a saúde educação, tudo áreas em que o Governo gastou menos do que o Governo anterior gastava” se for descontada a despesa que o Governo teve a mais com salários.

Passos exorta Governo a manter “estabilidade fiscal”

Ainda no discurso, o líder da oposição pediu ao Governo que repense o que vai fazer ao IRS, defendendo que devia apenas – e se considerar que há alívio par ao fazer – mexer nos escalões (5) já existentes e não mexer na estrutura do imposto. “Era importante que o Governo não perturbasse a estabilidade fiscal”, disse.

O ex-primeiro-ministro defendeu a “reforma do IRS que foi feita no passado”, com a redução para cinco escalões de imposto e desafiou António Costa a usar a “folga que o Governo entender que existe” possa “reflectir-se sobre os escalões que já existem”, isto porque PCP e BE querem um aumento dos escalões, e para já a única coisa que se sabe é que o Governo quer aumentar a isenção para quem tem rendimentos mais baixos.

Sobre o IRS, Passos tinha também outra crítica a fazer. Lembrou que o Governo “se queixou” quando teve de pagar 400 milhões de euros de reembolsos por causa da medida de alívio fiscal para famílias numerosas tomada pelo anterior executivo, mas agora só está a pensar num alívio de 200 milhões de euros. “O nosso era péssimo, este é óptimo. Não haverá ninguém que se escandalize um bocadinho com esta falta de pudor?”, questionou.