Editorial

A Autoeuropa não vai acabar amanhã

A conversa sobre a greve na Autoeuropa é um péssimo sintoma por uma outra razão, que é muito bem conhecida de todos há pelo menos 26 anos - desde que há Autoeuropa

Não, esta não é a primeira greve na Autoeuropa. É, sim, a primeira que deriva de um problema que não se conseguiu (ainda) resolver entre a administração e os trabalhadores. 

Não, os trabalhadores da Autoeuropa não são uma manada: bestiais quando chegavam a acordo e bestas quando fazem uma greve. E também são crescidos para saberem como votam e como ainda vão votar - seja na comissão de trabalhadores, no sindicato ou nos acordos propostos pela administração.

Não, a Autoeuropa não vai acabar porque os trabalhadores (quase metade deles) fizeram greve, parando a produção. A empresa está, aliás, a sofrer do que podemos e devemos chamar de dores de crescimento: está a produzir mais, quer produzir mais ainda, só que ainda não se entendeu sobre o como.

Não, Portugal não vai deixar de ter investimento estrangeiro só porque há uma greve na Autoeuropa. Primeiro porque os trabalhadores sabem que não é só a empresa que arrisca quando não tem um acordo na mão. Também eles, trabalhadores, têm muito a perder se parte da produção for deslocalizada - incluindo o seu trabalho, porque não faltam fábricas disponíveis para fazer o T-Roc pela Europa. E depois porque greves, que saibamos, também há na Alemanha e em qualquer outro país democrático do mundo. A Vollkwagem que o diga.

A conversa sobre a greve na Autoeuropa é um péssimo sintoma por uma outra razão, que é muito bem conhecida de todos há pelo menos 26 anos - desde que há Autoeuropa. É que Portugal nunca mais conseguiu atrair um investimento como este. Parece que desaprendeu. E que a única ambição que tem é de manter a Autoeuropa de pé, por cá. Temos pena de dizer isto, mas isso é que não chega.

Portugal tem que ser mais do que Autoeuropa. E esse é o desafio maior da geringonça, tal como ela existe: não é a guerra entre o Bloco e o PCP dentro da empresa, que sempre existiu, só mudou de figura. É a de criar condições estruturais na economia portuguesa, na sociedade portuguesa, para que mais investimentos possam vir - porque somos demasiado pequenos para realmente crescer e sobreviver sem mais dinheiro vindo de fora. 

Desculpem a franqueza, mas nada disso se consegue sem uma economia aberta, sem menos impostos, sem mais qualificação, sem mais concorrência, sem mais liberdade. E mais liberdade é mesmo mais liberdade, com o que isso nos traz de bom e de mau: mais mercado, mais circulação, mais risco, maior negociação laboral - incluindo a flexibilidade e o direito à greve.

Isso sim, é matéria que devia gerar uma comoção nacional: o que estamos dispostos a fazer e a sacrificar para conseguirmos mais investimento. Quanto à Autoeuropa, sejamos crescidos: deixemos a empresa e os trabalhadores negociar. Eles já mostraram antes que conseguem.