Objectos (quase) obsoletos

Um bar em casa, como nos anos 1980

"Mausoléu", "kitsch", "ridículo"? Símbolos do que se passava fora de casa mais do que dentro dela, os móveis-bar eram ter o Frágil na sala e o sonho do consumo ao lado da televisão.

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Manuel Mano na sua casa em Vila do Conde Helena Flores

Como o Pisang Ambon, os bares de sala dos anos 1980 não envelhecem bem. Até podem manter a cor, como aquela bebida cor de esperança fluorescente que lhes enfeitava as prateleiras, mas a patine dos anos não os tornou particularmente mais elegantes. Do alto dos seus bancos, ou atrás do balcão, pelo menos duas gerações de crianças esticaram os pés para poder “brincar aos bares”. Milhares de adultos transferiam a movida nocturna de Lisboa e Porto para as suas salas – estas festivas peças de mobiliário criavam um ambiente de discoteca caseirinha e tornaram-se quase uma tipologia própria. É entrar, é entrar nos bares de sala dos anos 1980.

Década de exageros e foco de fascínio que dura há muito, os anos 1980 são reconhecidamente aquele momento em que os ombros, os cabelos, os edifícios e o mobiliário se espetaram. Para cima era o caminho, na altura e projecção, mas o olhar só seguia para a frente. Como descreve o historiador Luís Trindade na apresentação de um projecto académico sobre a década, a nostalgia dos 80 é forte e na memória colectiva que se enche de produtos culturais a rememorá-los, “a década surge sobretudo como um período de descompressão política após os extremos da ditadura e da revolução, por um lado, e como momento de abertura ao exterior e a modos de vida mais compatíveis com os de outros países europeus”. Abrem os primeiros hipermercados (Porto) e centros comerciais de grande dimensão (Lisboa), adere-se à comunidade europeia, a inflação galopa, Tomás Taveira é uma espécie de arquitecto da década e pinta a capital – nem tudo é fácil mas há um espírito de progresso não só no bolso, mas também na mão dos portugueses.

Nos grandes centros urbanos, ergue-se um copo e um cigarro e no ouvido ressoa o boom do rock português, acompanhado pelos novos românticos da música internacional e pela movida - é um original madrileno, é certo, mas “existiu em Lisboa e em menor escala no Porto. Foi fundamental o Manuel Reis com o Frágil”, diz o historiador de design Rui Afonso Santos. Abria-se o Plateau, cheio de filas para entrar, queria-se ir ao Incógnito, em Lisboa, ou ao Aniki Bobó no Porto. A boémia é real e mais solta. Para os adolescentes lisboetas que não conseguiam ir à noite, a moda das matinés permitia ir dançar à tarde ao pé do Fórum Picoas no Crazy Nights ou numa transversal da avenida da Liberdade com a mais alternativa Juke Box.

Na televisão não passava só o TV Rural e o Agora Escolha, mas também Cheers - Aquele Bar, ou Miami Vice – e é vê-los, no eBay, vende-se o “estilo Miami”, um bar que dá para pôr no jardim mas também para a “mancave”, o reduto doméstico dos machos americanos. Um balcão e umas cadeiras e está feita a festa em casa. Os móveis-bar eram ter o Frágil na sala e o sonho do consumo ao lado da televisão.

"Uma peça inútil, marcante, dos anos 1980”

“A moda vem dos Estados Unidos e de França nos anos 1920”, diz Rui Afonso Santos. O tema dos bares de sala dos anos 1980 é-lhe caro. Para o bem e para o mal. Fala do “malfadado cavaquismo” com a mesma veemência com que do “ridículo” dos grandes bares modulares que irrompiam nas salas dos anos 1980. A sua história, porém, encanta-o. Após a Lei Seca nos EUA, a moda dos cocktails explode na década de 1920.

Émile-Jacques “Ruhlmann foi o melhor criador de móveis-bar a nível mundial nos anos 1920, criou o conceito do móvel zigurate, móveis maciços com embutidos preciosos – o conde de Vizela tinha um dos melhores”, recorda sobre o designer e decorador francês e o trabalho que fez para Carlos Alberto Cabral (1895-1968) e que foi exposto em 2009 na Casa de Serralves. “Até aos anos 1950, os móveis-bar continuam a ser para uma elite”, garante, situando que tal chega aos píncaros “quando na Casa Leonel, que era a casa mais luxuosa de fornecimento de móveis de Lisboa”, no Chiado, e onde se chegaram a vender cerâmicas de Pablo Picasso, o seu director artístico, José Augusto França, “adquire móveis na Alemanha e Itália de designers preciosos e que eram um símbolo de status”.

Mas “nos anos 1960, com a crise habitacional, o conceito de móvel-bar restringe-se e basicamente desaparece”. Ainda assim, é nessa altura que o plástico e o acrílico permitem “criações notáveis, como as de Joe Colombo, muito versáteis, que davam para arrumar muito mais peças, os copos, todos os acessórios e até papéis”. São estes, e os modelos dos anos 1950, que hoje são procurados por quem quer voltar, depois da sua quase total extinção nos anos 1990, a ter um móvel-bar na sala. São mais elegantes, quase escrivaninhas ou louceiros, e nada a ver com os gigantes dos anos 1970 e 80.

“Aqueles móveis kitsch de canto, com luzes e espelhos que reproduziam uma falsa prosperidade", aponta Rui Afonso Santos para que não escape qualquer detalhe sobre o seu aspecto superficial e significado mais profundo. "Reproduzia-se em microescala aquilo a que se assistia nos bares comerciais – os revestimentos a espelhos, a veludos e a lacas. Tem a ver com a democratização do consumo”, suspira o historiador, “mas é uma peça inútil, marcante, dos anos 1980”.

Bebia-se (ou mostrava-se) Drambuie, Bacardi e Pisang, uísque trazido de Espanha ou do novo hipermercado da Senhora da Hora, penduravam-se os copos de pernas para o ar como nos filmes – Cocktail, com a estrela Tom Cruise, brindava nos cinemas em 1988. Ele onde só queria tornar-se um self-made man, ser o sonho americano em pessoa, ganhar o primeiro milhão. Ou então ter um bar chamado Cocktails & Dreams. O sonho, o bar como móvel aspiracional.

A moda era internacional. Não era só um fenómeno português, made in Moviflor ou via D'Arte Móveis Confiança. “São móveis comerciais e os modelos vinham do estrangeiro”, explica o historiador. Ainda resistem pelo país em algumas casas que não se renovaram. Mantêm a memória viva, como a de Hugo Silva, que escreveu no site Ainda Sou do Tempo sobre estes gigantescos objectos que ocupavam um espaço sobretudo simbólico. “Conheci algumas pessoas com este tipo de bar, uma tia minha tinha um, e nunca soube de nenhuma delas usar aquilo como bar, de alguém se ter sentado ali e bebido algo”, recorda, constatando que “acabava por ser apenas uma peça de decoração” até que algumas pessoas desistiam e “colocavam comida ou outro tipo de coisa por detrás das portas de vidro”. É triste, o cenário – “a coisa acabava por ficar ali como um mausoléu abandonado ao canto da sala e que tudo evitava olhar para não se lembrarem que tinham construído algo do género” no centro da sua casa.

O espaço ocupado era o menos nobre, embora na sala de estar, para as visitas – às vezes também ia parar à cave, nas casas maiores e fora das cidades. “Era geralmente de canto ou embutido – eles inserem-se em estruturas modulares que se desenvolvem na vertical e o canto, um espaço morto, é aproveitado para dar uma ideia de falso luxo e conforto aos apartamentos. Tudo aquilo era ridículo e kitsch”, comenta o historiador de design.

Foi bonita a festa, pá, a dos móveis-bar de sala, mas afinal era sobretudo para inglês ver. Espelho do que se passava socialmente, da vida uma década depois da ditadura, das ruas onde se “fazem numerosos bares pós-modernos”, recorda Rui Afonso Santos. Lia-se nos jornais, no Se7e, no Blitz ou mais tarde n'O Independente, sobre essa vida, sobre as caras conhecidas nos bares e na noite. “As pessoas queriam ter acesso àquele bem e quase transferem uma minidiscoteca para casa. Tinha luzes, espelhos, os copos suspensos, as garrafas à vista como símbolo de ostentação, as marcas dos uísques, os bancos altos em veludo. Um símbolo de vida social cosmopolita transfere-se para o T0 da Amadora”, dispara Afonso Santos, “e tudo isso reflecte a falsa ideia do luxo”.

A tipologia quase desapareceu, embora se vendam, novos e usados, na Internet. De vez em quando, um site de decoração ou fabrico de armários atira-se para a frente e garante que eles estão de volta ou que podem ser reaproveitados. “Não há grandes designers nem criadores a dedicarem-se a esta tipologia de objecto”, garante por seu turno Rui Afonso Santos, e “o bar dificilmente voltará. Hoje em dia só por graça uma pessoa pode ter uma coisa dessas em casa”. Tinham estilo rústico, focos embutidos ou frisos dourados, um ar mais moderno na madeira ou contraplacado, detalhes pretos e vermelhos ou de tons naturais. Já se disse que eram grandes? Por mais “Ikea hackers” que haja, a reapropriar mobiliário feito para arrumação, escritório ou cozinha tornado em bar, parece que a febre que foi já não voltará. Os gostos mudaram.

Dê-se um saltinho a uma casa lacustre no Missouri norte-americano onde a certa altura desagua o livro Em Parte Incerta, de Gillian Flynn (que se tornou em Gone Girl, o filme). É uma casa a imitar um chalé suíço sobre a qual a narradora não disfarça um ligeiro desprezo. O bar, o “wet bar” porque tem um lava-loiças, não está na sala “com lareiras para ele e para ela”, mas sim na “na sala de jogos da cave com uma mesa de snooker, setas, som surround" e, claro, "um móvel-bar”. Cresce a distância entre anfitrião e convidada, apartados por segredos mas também por gostos mesmo diferentes. A certa altura, uma oferta de túlipas. “As túlipas eram as minhas favoritas no liceu", diz ela. "Eram as preferidas de toda a gente, a gerebera do final dos anos 1980. Agora gosto de orquídeas, que são basicamente o oposto das túlipas.”