A ambição de um "expressionista"

Apesar das suas falhas, I Tell a Fly é um comentário ao nosso tempo que se destaca pela sua singularidade. Não é a obra-prima de Benjamin Clementine, mas pode ser um passo importante para chegar a ela

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O músico fala da sua vontade de apresentar I Tell a Fly como obra dramatúrgica, com actores a interpretar as canções no palco e ele e a banda escondidos no fosso de orquestra paulo pimenta

Benjamin Clementine destacou-se pela força expressiva da interpretação, por carregar de dramatismo cada sílaba proferida enquanto as mãos viajam pelo piano. Tocou os muitos que o foram descobrindo pelo lugar em que situou a sua música, num eixo inesperado em que se reúnem o impressioismo de Debussy, a soul à flor da pele de Nina Simone e uma teatralidade que encontramos, por exemplo, em Rufus Wainwright - não por acaso, Clementine define-se como "expressionista", sendo que, em relação a Wainwright, a diferença, decisiva, é que este exterioriza sem restrição, enquanto Clementine se revela no intimismo, no olhar interior.

O primeiro álbum, At Least For Now, mostrava todas aquelas qualidades. E mostrava-as mais quanto mais despida se apresentava a música – não precisávamos de mais que o piano e a sua voz para que a música crescesse perante nós, para que a sua catarse de medos e inseguranças se tornasse força libertadora: “No momento em que paro de tocar, volto a ser tímido”, dizia-nos então.

I Tell a Fly é todo um outro álbum. Na entrevista ao Ípsilon, Clementine confessou que abordou a sua composição como um dramaturgo, acrescentando, acto contínuo, que ainda está longe de o ser verdadeiramente, que precisa de mais conhecimento e experiência para se sentir como tal. Ainda assim, o seu segundo disco é marcado por esse desejo: o de criar uma obra musical narrativa, em que as canções se sucedem, acrescentando informação e oferecendo novas camadas de leitura até à conclusão, ou seja, até aquele “Barbarians are coming! / Dreamers stay strong!” na despedida de Ave dreamer. No final do álbum, pesadas as suas forças e debilidades, acabamos, apesar de tudo, por nos sentir mais próximos das primeiras – toda a ambição será perdoada, digamos.

Farewell sonata, a abertura, é reveladora. O piano solo que a abre, de uma delicada melancolia que Clementine polvilha de alguma inquietude, como se algo sinistro, ameaçador, espreitasse por perto, é excelente introdução neste universo de sombras e medos de que é feito A Tell a Fly. Isto, até o piano ser coberto pelo cravo e pelos sintetizadores, isto até à erupção de um momento rock, qual musical Broadway, que surge como demasiado exuberante e sem a subtileza que, apesar do virtuosismo do canto de Clementine, era uma das suas características mais fascinantes.

I Tell a Fly diz-nos que Benjamin Clementine, o dramaturgo por vir, não deve sobrepor-se a Benjamin Clementine, o músico – porque o enfraquece, porque banaliza o seu óbvio talento. Felizmente, tal só acontece esporadicamente ao longo do álbum. God save the jungle, com o cravo a guiar o ambiente voodoo jazz (Tom Waits no horizonte, ou Duke Ellington rememoriando New Orleans), é magistral, com Clementine, aqui sim, cantor intérprete que nos acolhe no Inferno antes de, perverso, nos fazer crer que o Inferno é, afinal, a realidade ela mesma, é uma festa em directo na tv – e, lentamente, a canção mistério transforma-se em épico perversamente sorridente.

Marcado pela presença do coro, fundamental numa canção como a central The Phantom of Aleppoville, pela utilização do cravo em contexto pouco habitual – eco barroco em música popular urbana do século XXI –, pela presença ocasional dos sintetizadores como mancha sonora, I Tell a Fly mostra, nos seus melhores momentos, como Clementine consegue, através de um olhar inesperado, retratar os muros que nos separam, o medo que nos distancia, a dificuldade que temos em reconhecer-nos no outro. Paris Cor Blimey, nesse sentido, é exemplar: balada fúnebre com letra de conto infantil, com versos ingénuos repetidos e invertidos, duas crianças que brincam, um brinquedo roubado, e, por fim, enquanto a voz grave continua a fazer o seu caminho, o dedo apontado, culpado presumido, a violência que irrompe: “Rats!”, exclamará Clementine.

Benjamin Clementine idealizou um álbum como peça completa, uma obra que só pode ser verdadeiramente apreciada quando ouvida em sequência, sem pausas, sem a retalhar em canções isoladas. Conseguiu essa obra. Seguimos em suspenso os interlúdios de piano improvisados que ligam as várias músicas, curiosos do que se seguirá. Aquilo a que nos conduzem nem sempre é recompensador – By the ports of Europe é leve, levezinha, demasiado music-hall para apaziguar consciência burguesa; Jupiter é exercício pop domado que desejamos ultrapassar o mais rapidamente possível. Porém, quando é recompensador, e é-o muitas vezes (o cravo como matéria synth-pop e a voz que surge como fantasma de um velho cantor de standards, em Better sorry than a safe; o despojamento de Quintessence, a recordar-nos que Clementine colaborou não há muito com o lendário Charlez Aznavour), I Tell a Fly mostra-se obra de um músico tão singular quanto ambicioso, capaz de nos surpreender com os novos universos a que levou a sua música e ainda capaz de nos tocar com a sensibilidade que já lhe conhecíamos.

Este é o seu comentário aos tempos que vivemos e, apesar das suas falhas, é um documento que se destaca no cenário actual. Não é a obra-prima de Benjamin Clementine, mas poderá muito bem ser um passo importante para chegar a ela.