Opinião

O PSD deve aceitar o pacto de António Costa

Mesmo que esteja colocado numa posição extremamente desconfortável, Passos Coelho deve engolir o ressentimento, fazer o que está certo e beber o cálice até ao fim.

Não é possível passar quatro anos a resmungar por causa do resultado eleitoral de Outubro de 2015 e a lembrar a cada momento que o primeiro-ministro é que devia estar na oposição e que a oposição é que devia estar a governar o país. Seria uma estratégia politicamente insustentável, sobretudo com Portugal a crescer e o PS a liderar confortavelmente as intenções de voto. Passos Coelho não vai voltar ao governo tão depressa e, se a economia continuar como está neste momento, é possível que nunca mais volte – o PSD perderá a eleições de 2019 e, mesmo que consiga impedir uma maioria absoluta do PS, haverá uma Geringonça 2.0 e um ciclo eleitoral de oito anos dominado por António Costa.

Neste cenário, Passos Coelho sairá inevitavelmente da liderança do PSD. E, com a economia europeia a crescer e a puxar pelas exportações portuguesas, com o turismo a bombar, com os cofres suficientemente cheios para o Governo ir comprando o silêncio do Bloco e do PCP, e com o Bloco e o PCP satisfeitos com um poder que nunca tiveram em 40 anos de democracia, diria que essa é até a hipótese mais provável. É injusto para Passos Coelho, que merecia melhor sorte após os dificílimos anos da troika, e é injusto para a direita como um todo, que parece condenada a só governar nos intervalos em que não há dinheiro – mas quem quer a eterna vitória da justiça vai para os escuteiros, não para a política.

Desde a invenção da democracia moderna, aquilo que move o eleitorado é apenas o conforto da carteira e a preservação de um certo modo de vida. Não são os escândalos que destroem um político (Sócrates que o diga), nem certas opressões da liberdade (Putin ou Salazar que o digam), nem tragédias como as de Pedrógão Grande, que o PSD achou que iria marcar a segunda metade da legislatura. Com excepção de pequenas franjas muito politizadas, aquilo que decide o voto é, e sempre foi, a expectativa de cada um poder melhorar, ou pelo menos manter, o seu conforto económico. E, neste aspecto, António Costa com o seu discurso (ainda que falso) do pós-austeridade leva larga vantagem sobre Passos Coelho.

Sendo assim, e mesmo que esteja colocado numa posição extremamente desconfortável, Passos Coelho deve engolir o ressentimento, fazer o que está certo e beber o cálice até ao fim. E o que está certo é o PSD mostrar-se disponível para assinar com António Costa os pactos de regime que são essenciais para o país, começando desde logo pelo das grandes obras públicas e pela aplicação dos fundos comunitários. Se não se pode esperar a eterna vitória da justiça em política, também não se deve aceitar que a cada momento ela não seja mais do que cinismo e calculismo. O pacto das grandes obras públicas é estratégico, é justo e é bom, não só para o país, mas também para proteger todos os partidos – e desde logo o PS – da tentação despesita e da negociata rasteira.

Um dos méritos da actual política do Governo é demonstrar que a grande travagem no investimento público não prejudica necessariamente a economia, e que, por isso, os grandes investimentos devem ser poucos, sopesados e consensualizados no Parlamento. Disse António Costa: “A esquerda e a direita não se distinguem, em nenhum país do mundo, por decidir se fazem um aeroporto ou não.” É bem verdade. Os partidos políticos em Portugal precisam de ganhar coragem para, às vezes, concordarem uns com os outros. Se Passos Coelho der esse passo, é mais uma dívida que o país terá para com ele.