Editorial

Cavaco Silva voltou. Mas porquê?

Pena que tenha sido assim: o país precisava dele como ex-Presidente.

Tinha feito uma promessa de contenção: sobre o actual Governo o dever de reserva institucional obrigava-o ao silêncio. Durou até ontem. Cavaco Silva voltou e vestiu as vestes de social-democrata, mas nunca saiu do seu sapato. Falou de “fake-news”, trocando um erro por uma intenção; falou de “bazófia”, de “verborreia frenética”, de políticos que “fingem que piam”. Pena que tenha sido assim: o país precisava dele como ex-Presidente.

É pena também que Cavaco Silva não leia jornais ou Editoriais, porque começaria por lhe tentar explicar uma coisa: o que o professor vê em Portugal não são “fake news” (ainda não). Serão muitas outras coisas, que vão de erros (não diferentes daqueles que os políticos cometem) a falta de informação (muitas vezes omitida pelos interessados), acabando em notícias que os políticos simplesmente não gostam de ler, porque não concordam ou não lhes interessa.

Mas é pena, sobretudo, que Cavaco Silva não use o pedestal que os portugueses lhe deram para mostrar que também é possível haver vozes críticas da actual maioria mostrando distanciamento e não ressentimento.

Se conseguíssemos ler ou ouvir o discurso de Cavaco Silva limpo de adjectivos, poderíamos tirar dele várias pistas para nos obrigar a pensar. Exemplo: fará sentido que o Governo se prepare para promover um alívio no IRS, sem discutir o como, sem pensar nas alternativas? Portugal estará a fazer o suficiente para aumentar o seu produto potencial, para se tornar mais competitivo? E a despesa do Estado? Aumentando a despesa, não estaremos a hipotecar outra vez o futuro?

Podíamos e devíamos discutir isto. Porque se a economia cresce mais do que esperávamos, isso dá ao país uma oportunidade imperdível de arrumar a casa e preparar o futuro. Porque se queremos que Portugal consiga “uma década de convergência com a Europa”, como disse António Costa, ele não pode esperar por um consenso daqui a ano e meio sobre as obras públicas que arrancarão depois de 2020 - e sobretudo não pode “viver dia a dia”.

O erro de Cavaco Silva, neste seu regresso, não é o de desafiar o país a sair da modorra da actual discussão política. O erro de Cavaco Silva foi colar-se com régua, esquadro e adjectivos ao discurso do PSD, sempre tomando a sua opinião pelo único facto plausível - e não como discutível.

É pena. Porque o país bem precisava de uma discussão séria sobre o seu futuro. Séria, despartidarizada, desinteressada. Cavaco Silva podia ter tido esse papel. Infelizmente, assim, ninguém o ouvirá.