Crítica Cinema

Em memória da troika

Índice Médio de Felicidade, adaptado de um romance de David Machado, é o contributo de Joaquim Leitão para a “filmografia da troika”.

<i>Índice Médio de Felicidade</i>: os actores estão certos, especialmente Marco D’Almeida, numa espécie de ferocidade de bom coração
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Índice Médio de Felicidade: os actores estão certos, especialmente Marco D’Almeida, numa espécie de ferocidade de bom coração

Histórias do tempo da troika: o período da “austeridade” converteu-se fatalmente num tema do cinema português contemporâneo, e ainda não estrearam todos os filmes feitos como eco ou reflexo dessa época (está para breve, por exemplo, A Fábrica de Nada de Pedro Pinho). Índice Médio de Felicidade, adaptado de um romance de David Machado, é o contributo de Joaquim Leitão para a “filmografia da troika”, através da história de um desempregado abnegado (Marco D’Almeida) a lutar contra a frustração e as ameaças de miséria ao mesmo tempo em que se converte numa espécie de anjo da guarda — dos filhos, da família, dos amigos, dos filhos dos amigos, ou de uma desconhecida que vive em Andorra e precisa de ajuda para ir visitar um irmão ao hospital.

É fácil dizer que é o melhor filme de Joaquim Leitão desde 20,13 (em 2006), que por sua vez era o seu melhor filme depois do notável Duma Vez por Todas com que se estreou em meados dos anos 1980. Repete o desejo de um apelo popular que tem sido constante nele, mas sobretudo repete a vontade de contar histórias de pessoas comuns de uma classe média comum (passado o flirt com o pacóvio star system televisivo que animou um filme como Adão & Eva, por exemplo), que temos encontrado nos seus últimos filmes — com a vantagem de não se desintegrar como Quarta Divisão (que começava como um filme sobre o trabalho numa esquadra de polícia e acabava num grotesco pesadelo pedófilo) e de ter um argumento mais sofisticado do que A Esperança Está Onde Menos se Espera ou Sei Lá, com um uso consistente da voz off e uma estrutura narrativa que ensaia uma cronologia não totalmente linear, com elipses, flashbacks, não ditos (e “não mostrados”, como a personagem ausente de Almodôvar), encadeados de forma hábil (pode-se notar que o argumentista Tiago R. Santos já trabalhara a fuga à linearidade cronológica no último filme de António Pedro Vasconcelos, Amor Impossível).

O resultado é muito profissional e muito digno, os actores estão certos (sobretudo Marco D’Almeida, numa espécie de ferocidade de bom coração, e a participação especial de Lia Gama, lá para o final, com um à-vontade que “rouba” quase todas as cenas em que entra), e nada aqui se confunde com o oportunismo iletrado que tem caracterizado algum “cinema” português recente feito com os olhos no estouro das bilheteiras. Feita esta ressalva, cabe dizer também que, como quase todos os filmes de Joaquim Leitão, deixa também um travo a frustração. A frustração de ver um cineasta talentoso a escolher a via de um profissionalismo competente mas apagado, num conformismo de curto alcance (enfim: não pedíamos planos-sequência de dez minutos com gruas e steadycams, apenas um pouco de um gozo e de uma exuberância estilística mais visíveis) que não parece almejar mais do que uma “norma”, que é a “norma” da ficção televisiva e dos seus códigos de “realismo”. Que Índice Médio de Felicidade — isso nota-se na iluminação, na planificação, no emprego da música, no próprio estar de alguns actores na maior parte das cenas, ou da maior parte dos actores nalgumas cenas — se pareça tanto com um super-tele-filme é a sua pecha maior, e a maior frustração de quem o vê.