Crítica

Envelhecer é bonito com os LCD Soundsystem

American Dream, que chega ao mundo esta sexta-feira, diz-nos: com tanta música, com tantos velhos e novos lugares onde podem ir, a banda de James Murphy ainda faz todo o sentido.

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American Dream, o regresso aos discos dos LCD Soundsystem, disponível a partir desta sexta-feira, é um daqueles álbuns que carregam demasiado peso aos ombros. Em 2011, os LCD Soundsystem despediram-se com pompa, lágrimas e um enorme concerto no Madison Square Garden, em Manhattan, Nova Iorque, para, pouco mais de quatro anos depois, anunciarem o regresso. Foram (e são) acusados de cinismo mercantilista e de destruírem mitos em troca de dólares – a banda acabou com três discos aclamados, sem um passo ao lado. Regressam aos álbuns, sete anos depois de This Is Happening. James Murphy sabe que está a “arriscar” o “legado” da banda que montou no início dos anos 2000. “Tivemos um final perfeito e, por melhor que American Dream seja, esse legado é deitado ao lixo”, disse.

Não há ponta de cinismo nem calculismo comercial em American Dream. É, aliás, o álbum mais negro e difícil do grupo. Com excepção de Tonite, não há aqui canções com o apelo directo de Daft Punk is playing in my house e Drunk girls, nem hinos agridoces para festivais de Verão como Someone great e All my friends. Mas há muitas outras coisas que abrem um novo capítulo na história dos LCD Soundsystem, que têm aqui o seu álbum mais coeso.

Percebemo-lo logo em Oh baby, a faixa inaugural que marca o tom cinzento de American Dream: arpejos de sintetizadores cozinham uma balada electrónica – os Suicide a tocar em Twin Peaks – que será agraciada com outras delícias circulares e lustro de teclados. É tudo austero, mínimo. Primeiras palavras do álbum: “Oh baby/ Oh baby/ You're having a bad dream/ Here in my arms”.

How do you sleep? é ainda menos festiva: tem uma batida tribal em cima da qual nascem o que parece ser um violino, incríveis sintetizadores (a sorte que é ter Gavin Russom numa banda) e uma sova de graves. Perdido na mistura de tudo isto, ouvimos James Murphy a aproximar-se dos territórios monocromáticos habitados por Peter Murphy e Robert Smith. Emotional haircut também tem negrume pós-punk e a febre rítmica, igualmente pós-punk, dos Pop Group até tudo rebentar em pancadaria punk, sem prefixo. Black screen, interpretada como uma elegia a David Bowie (“I owe you dinner, man/ I owe you something/ You talk to me/ Like I was inside”), põe um sintetizador fúnebre em cima de disfórico e lento synth-pop (tem ainda uma triste coda com piano, que fecha o disco). E que dizer de American dream, a canção, um lamento servido em camadas de sintetizadores que parecem carregar todos os sonhos falhados? James Murphy parece cansado (“Oh, the revolution was here/ That would set you free from those bourgeoisie/ In the morning everything's clearer/ When the sunlight exposes your age”), mas a vulnerabilidade fica-lhe tão bem.

American Dream serve, ainda assim, boas doses dos velhos LCD. Eles estão na linha de baixo de Tonite, clássico imediato – enquanto a dançamos ocorre-nos que esta pode bem ser a melhor linha de baixo do longo e rico catálogo de linhas de baixo da banda (há, certamente, instruções secretas naquelas notas cintilantes que são disco e punk-funk ao mesmo tempo, esquemas dos deuses da dança, código Morse que só as ancas sabem ler). Murphy mostra-se na sua melhor forma de actor/observador da coisa pop (“And all the hits are saying the same thing/ There's only tonight, tonight, tonight, tonight, tonight, tonight”) e da vida (isto é coisa de guru: “Life is finite, but shit, it feels like forever”).

Os LCD Soundsystem vintage (estranha formulação) estão em Other voices, menu punk-funk com tudo incluído, até cowbell. Diríamos que 2002 voltou se a banda não arriscasse enfiar na canção uma guitarra psych – um dos vários sinais que demonstram que American Dream aumenta as possibilidades da música do grupo. Call the police é maravilhosa na sua subida constante, culpa do baixo propulsivo e da guitarra que por ali plana – ciência aplicada. Change yr mind está entre o funk bicudo dos Talking Heads (as guitarras gingam, mas também cortam) e a solenidade de Bowie. Murphy fala do seu tema preferido – envelhecer –, mas sem a capa irónica que antes o protegia: “I've just got nothing left to say/ I'm in no place to get it right/ And I'm not dangerous now/ The way I used to be once/ I'm just too old for it now”.

American Dream desmente-o: com tanta música, com tantos velhos e novos lugares aonde podem ir, os LCD Soundsystem ainda fazem todo o sentido. São a banda que dá a canção certa para a noite perfeita – e também a canção certa para o vazio do dia seguinte. O legado deles é coisa viva porque eles continuam a falar, como poucos, das coisas dos vivos.