Cavaco: A realidade "impõe-se aos governos que querem realizar a revolução socialista"

Ex-Presidente da República deu uma aula na Universidade de Verão do PSD e foi recebido com palmas.

O ex-Presidente da República Aníbal Cavaco Silva afirmou nesta quarta-feira que "a realidade tira o tapete à ideologia" e que isso projecta-a "com tal força contra a retórica dos que no Governo querem realizar a revolução socialista que acabam por perder o pio, ou fingem apenas que piam mas não têm qualquer credibilidade”.

Cavaco Silva, que falava esta manhã numa aula da 15.ª Universidade de Verão do PSD, nunca se referiu a Portugal directamente, mas sim a França e Grécia, embora neste âmbito tenha dado exemplos de medidas tomadas pelo Governo de António Costa como as cativações. "Aqueles que ainda piam fingem que piam mas não atribuam qualquer credibilidade porque não são mais do que jogadas político-partidárias", acrescentou o ex-chefe de Estado, que foi recebido pelo líder do PSD, Pedro Passos Coelho, que assistiu à aula na primeira fila da sala do hotel onde decorre a universidade.

Na aula de 50 minutos – que Cavaco Silva disse ser “informal e despretensiosa” – o ex-Presidente começou por se referir aos “devaneios ideológicos” do antigo chefe de Estado francês François Hollande que “depois não teve outro remédio se não curvar-se perante a realidade e corrigir-se”. Na mesma linha, o outro exemplo dado foi o de Alexis Tsipras, líder do Syriza, que chegou a primeiro-ministro da Grécia e que “depois de uma certa bazófia inicial correu com o seu ministro Varoufakis e pôs a ideologia na gaveta e aceitou iniciar um terceiro resgate com uma austeridade mais dura do que aquilo que ele tinha recusado”.

Cavaco Silva conclui que “a realidade acaba sempre por derrotar a ideologia”, referindo que “aumentos de impostos indirectos que anestesiam as populações, medidas extraordinárias, cativações de despesas correntes e com deterioração da qualidade dos serviços públicos ou com criatividade contabilidade acabam sempre por conformar-se com as regras da disciplina orçamental. Neste ponto, o social-democrata referiu-se a França e à Grécia, e depois a “três casos de países da zona Euro”, sem mencionar um terceiro.

O ex-chefe de Estado dedicou outra parte da sua intervenção a explicitar a sua posição contra a saída de Portugal da zona euro. Apelou aos alunos para que não ligassem aos “ideólogos” da saída do país da moeda única. E comparou essa hipótese com a Venezuela. “Se perguntassem aos partidos da coligação [do actual Governo] para qual galáxia iria Portugal talvez alguns respondessem para a galáxia onde se encontra agora a Venezuela”, afirmou.

Cavaco Silva usou ainda o exemplo do Presidente francês, Emmanuel Macron, sobre as regras que impôs aos jornalistas, para deixar alguns recados que podem ser entendidos como sendo dirigidos a protagonistas nacionais. Lembrou Cavaco Silva que “em França não passa pela cabeça de ninguém um Presidente telefonar a um jornalista para lhe passar uma notícia”. Sem nunca se referir a qualquer exemplo português, o antigo Chefe de Estado referiu que Macron deu indicações para que os conselheiros não falassem directamente com jornalistas e que aconselhava distanciamento com os profissionais de comunicação social. Uma “estratégia que contrasta com verborreia frenética da maioria dos políticos dos nossos dias embora não digam nada de relevante”, afirmou, reflectindo uma posição pessoal que é contrária ao estilo presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa.

Na aula – com o tema Os jovens e a política quando a realidade tira o tapete à ideologia – Cavaco Silva deixou ainda uma crítica mais explícita ao Governo de António Costa, a propósito do impasse na nomeação de três membros para o Conselho de Finanças Públicas, um órgão independente criado pelo anterior Governo.

Revelou que em 2011 foi o próprio, enquanto Presidente da República, que propôs e foi aceite que a nomeação fosse feita pelo Conselho de Ministros por proposta do Banco de Portugal e do Tribunal de Contas. “Nunca imaginei que a proposta do Banco de Portugal e do Tribunal de Contas pudesse não ser aceite pelo Governo de Portugal. Parti da hipótese de que uma democracia madura, o Governo, qualquer que fosse, não quereria ser acusado de pôr em causa o Conselho de Finanças Públicas, que era a sua independência”, afirmou, referindo-se à recusa do actual Governo em confirmar os nomes propostos pelas duas entidades.

A propósito deste caso, Cavaco Silva fala mesmo em recuo da democracia. “A qualidade da nossa democracia depende muito do respeito do Governo pela independência do Conselho de Finanças Públicas, Banco de Portugal, Conselho Nacional de Educação, organismos de regulação e supervisão. Se o poder político controlar estas entidades, o retrocesso na nossa democracia será muito significativo”, afirmou.

O antigo Presidente da República, que exerceu funções durante dois mandatos até ao início de 2016, referiu-se igualmente às “fake news”, notícias falsas, dizendo que elas não existem apenas “na América do senhor Trump”, mas também em Portugal. Cavaco Silva disse ter sido alvo de “fake news” quando um “jornal diário [PÚBLICO]” publicou um artigo com o título "Cavaco estraga a unanimidade do Conselho de Estado sobre sanções da União Europeia". “Matéria sobre a qual não me pronunciara no Conselho de Estado”, afirmou, referindo-se a uma reunião realizada em Julho 2016 presidida por Marcelo Rebelo de Sousa, e na qual participou como ex-Presidente da República.

Numa mensagem final algo enigmática, Cavaco Silva disse estar “convencido de que os portugueses ainda valorizam a honestidade, a verdade”, depois de se referir às próximas eleições autárquicas. E dirigiu um repto aos alunos. “Não vos falte a coragem para combater o regresso da censura”, apelou, aconselhando a ler um artigo de Maria João Avillez publicado no jornal online Observador na passada segunda-feira, mas sem fazer referência ao seu conteúdo.

No artigo, a colunista escreve que “a extrema-esquerda, radical de seu nome próprio, é aliás exímia na aplicação destes instrumentos que manuseia com a habilidade ácida do ódio. Temo-lo visto. É preciso licença prévia para pensar e depois dizer alto o que se pensou”. Como instrumentos, a autora refere-se a “intimidação, a denúncia, a manipulação, a mentira, o escárnio público”.