António Chora volta a acusar CGTP de aproveitamento no caso da greve na Autoeuropa

De acordo com os sindicatos, os trabalhadores deram uma resposta “musculada” à empresa.

Trabalhadores da Autoeuropa estão em greve
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Trabalhadores da Autoeuropa estão em greve DANIEL ROCHA

O antigo coordenador da Comissão de Trabalhadores (CT) da Autoeuropa, António Chora, bloquista e ex-deputado, voltou na manhã desta quarta-feira a reiterar o que já havia dito ao Negócios sobre a forma como o sindicato, o Sitesul, está a conduzir o processo de greve naquela empresa. Mesmo sublinhando que “a produção não é tudo na vida”, Chora afirmou que “não pode ser um processo da maneira como está a ser feito” e voltou a tecer críticas à CGTP, acusando-a de estar “a aproveitar de certa maneira esta embalagem”.

À SIC Notícias, António Chora insistiu que concorda com o coordenador da Comissão de Trabalhadores demissionário, Fernando Sequeira, que classificou esta greve como “um assalto ao castelo”. Ao Negócios, Chora ainda acrescentou que é uma “tentativa do PCP [o Sitesul é um sindicato afecto à CGTP] de pressionar o Governo para algumas cedências noutros lados”; que o Sitesul “montou-se em cima de quatro ou cinco populistas”; que “as pessoas estão demasiado instrumentalizadas e demasiado confiantes nas palavras de pessoas que nunca viram na vida delas”, e mostrou-se surpreendido com a greve de contornos inéditos: "Nunca pensei ver tanta verborreia como tenho visto ultimamente, mas o populismo é assim."

Em declarações àquela televisão, o bloquista deixou claro o que quis dizer ao Negócios: “Respondi a uma pergunta que me foi feita em relação à afirmação de um ex-coordenador da CT que dizia que havia um assalto ao castelo por parte de forças sindicais. E é verdade. A CGTP está a aproveitar de certa maneira esta embalagem, mesmo que, de forma solidária com os trabalhadores”, disse, acusando a força sindical, enquanto teve representantes na CT demissionária, de não ter procurado formas de resolver o problema, com membros que não abriram “a boca durante 20 horas de negociação”.

“Disseram mesmo que estavam ali só para fiscalizar e já tinham assinado um acordo em 2015 que dizia que, até 2016, seria encontrada uma forma de turnos rotativos, o que pressupõe folgas rotativas. Toda a gente sabe isso”, acrescentou.

O que motiva esta greve é a proposta da administração para que os trabalhadores passem a trabalhar ao sábado, na produção de um novo carro, o T-Roc. As mudanças que tal introduziria no sistema de turnos e compensações afectaria em particular os trabalhadores da montagem e que estão há mais tempo na fábrica, uma vez que os contratos dos trabalhadores admitidos recentemente, em particular os que foram recrutados para responder à produção do T-Roc, já prevêem o trabalho ao sábado e folgas rotativas, como escreveu o PÚBLICO.

António Chora pôs o dedo nesta ferida, afirmando que estes sindicatos têm “dezenas, senão centenas, de contratos colectivos de trabalho assinados” que prevêem turnos rotativos e que dão direito a apenas uma folga por semana: “As pessoas apenas têm uma folga por semana e têm uma folga a um sábado, ou a um domingo, ou um sábado e domingo de quatro em quatro semanas, no máximo dos máximos, e com valores inferiores àqueles que estavam ali em cima da mesa”, afirmou.

“Dizer a verdade”

Momentos antes, também à SIC Notícias, José Carlos Silva, do Sitesul, tinha acusado António Chora de estar a “provocar a confusão” com as declarações que fez. O bloquista não se ficou e decidiu clarificar alguns pontos: “Ele tem razão quando diz que foi a CT que marcou essa greve, mas também tem de dizer quais eram os objectivos da greve: era que a empresa dialogasse com a CT, num processo de conseguir produzir as mais de 200 mil unidades necessárias. Esse processo foi interrompido por iniciativa da empresa. Foi feito um pré-aviso de greve para reabrir o processo. O processo negocial foi reaberto. (…) Foi reaberto e foi concluído, embora rejeitado depois pelos trabalhadores”, começou por contar, insistindo várias vezes que o objectivo da greve era reabrir o processo e que tal foi concluído. “Não se trata de lançar a confusão, trata-se de esclarecer e dizer a verdade”, sublinhou.

Estas posições de Chora não implicam, garante, que não esteja solidário com as preocupações dos colegas. “A empresa deve pensar em conseguir atingir os objectivos de produção, mas deve estar solidária e deve conciliar isso com as preocupações dos casais que aí trabalham, dos que têm filhos menores, de uma série de situações. Isso é um processo que leva tempo, que tem de se negociar com muita atenção e muito cuidado, de maneira a proteger toda a gente e de maneira a não afectar a imagem da Volkswagen no exterior, nem afectar a vida dos trabalhadores”, declarou, sublinhando que o processo será necessariamente “longo” se se quiser acautelar os objectivos de ambos os lados. “Não pode ser um processo da maneira como está a ser feito: um pré-aviso de greve que foi metido para abrir negociações, elas foram abertas, o pré-aviso continua em cima da mesa e concretizou-se hoje de uma forma musculada”, lamentou, referindo-se à expressão “resposta musculada” usada por José Carlos Silva.

“Há que negociar, há que esperar que venha aí a nova CT para tentar conciliar a vida das pessoas e a produção, porque se as pessoas não estiverem satisfeitas, isso também se reflecte [no trabalho]”, afirmou António Chora, ressalvando que “a produção não é tudo na vida” e que “a empresa, se quer boa produção e com qualidade, tem de trazer os trabalhadores felizes”. Questionado sobre se teme pela permanência da Autoeuropa em Portugal, Chora respondeu que “em breve prazo, não”.

De acordo com os sindicalistas, a adesão à greve tem sido significativa, estando a produção “completamente parada”. Na origem do conflito na Autoeuropa está o conteúdo do pré-acordo celebrado entre a Comissão de Trabalhadores e a administração, e que foi rejeitado pela maioria dos funcionários, por implicar trabalhar obrigatoriamente ao sábado.

Em cima da mesa está a possibilidade de a fábrica passar a ter três turnos diários, de segunda-feira a sábado, com uma folga ao domingo e outra rotativa durante a semana, para se conseguir assegurar a produção de um novo carro, o T-Roc. Apesar de estar previsto “um pagamento mensal de 175 euros adicional ao que está previsto na lei, 25% de subsídio de turno e a atribuição de um dia adicional de férias”, os trabalhadores consideram que estão a ser prejudicados face ao que estipula a lei laboral e ao que acontece hoje em dia na fábrica – dois turnos de segunda à sexta e, quando é preciso trabalhar ao fim-de-semana, o trabalho é pago como extraordinário (por quatro sábados por mês, o trabalhador recebe uma compensação de 400 euros). Segundo o Sitesul, com os novos horários propostos pela administração, cada trabalhador só teria direito a gozar duas folgas seguidas de três em três semanas – tal aconteceria quando a folga rotativa fosse ao sábado ou à segunda-feira e ficasse, assim, junto da folga fixa de domingo.