A recuperação da “devastadora” tempestade Harvey “vai durar muitos anos”

As chuvas intensas deverão durar até ao final da semana. Mas a recuperação dos estragos provocados pelo Harvey vai durar muito mais, diz o director da FEMA, equivalente à Protecção Civil em Portugal.

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Ainda que os estragos causados pela tempestade sejam consideráveis, uma seguradora garante que o valor dos danos ficará "bem abaixo" dos furacões Katrina e Sandy Reuters/ADREES LATIF
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As chuvas intensas resultantes da tempestade tropical Harvey, que atingiu a costa dos Estados Unidos na madrugada de sábado e já fez cinco mortos, continuam a causar estragos no Estado do Texas e a chuva não deverá parar até sexta-feira. “Esta será uma catástrofe devastadora, provavelmente o pior desastre que o estado [do Texas] já viu”, disse William Long, que gere a agência federal de emergência e protecção civil (FEMA, na sigla inglesa), ao Washington Post neste domingo. “A recuperação vai durar muitos anos para garantir que se consiga ajudar o Texas e as pessoas afectadas por este evento”, considerou ainda.

Na zona costeira do Texas, sobretudo nas imediações da cidade de Houston, as estradas transformaram-se em rios e os verdadeiros rios transbordaram, devido às chuvas intensas. O risco de cheias continua (já se está a alastrar ao estado vizinho do Luisiana) e a subida das águas obrigou a evacuações em massa, com milhares de pessoas a serem resgatadas pelos serviços de emergência que, ainda assim, não conseguem dar resposta a todos.

Na página do Serviço Nacional de Meteorologia do país (NWS, na sigla inglesa), é referido que a lenta progressão da tempestade tropical leva a que se espere ainda mais precipitação nos próximos dias, o que resulta em “cheias devastadoras” e “sem precedentes”. Para se ter noção da dimensão das cheias, estima-se que o nível de precipitação só nesta semana possa ultrapassar o valor médio anual das chuvas naquela região.

"O que estamos aqui a ver são as cheias mais devastadoras desde que há registo em Houston. Estamos a ver níveis de precipitação sem precedentes", afirmou o responsável pelo sector de meteorologia na companhia de seguros Aon Benfield, Steve Bowen, citado pelo Guardian.

Ainda que os estragos causados pela tempestade sejam consideráveis e possam demorar anos a reparar, a seguradora Hannover Re, uma das maiores a nível global, adianta que o valor dos estragos do Harvey ficará “bem abaixo” dos furacões Katrina (2005) e Sandy (2012) que atingiram o solo norte-americano. “No caso do furacão Harvey estamos longe, em termos de magnitude, do Katrina e do Sandy”, disse uma porta-voz da empresa, citada pela Reuters. Os danos causados pelo furacão Katrina rondaram os 80 mil milhões de dólares (66 mil milhões de euros) e o furacão Katrina causou estragos no valor de 36 mil milhões de dólares (30 mil milhões de euros). 

O Harvey atingiu a costa dos Estados Unidos na madrugada de sábado – era ainda considerado um furacão de categoria 4, a penúltima mais perigosa, com ventos superiores a 200 quilómetros por hora – e, ainda que tenha perdido alguma intensidade, o perigo continua à espreita.

Esta foi a tempestade mais forte a atingir o Texas em 50 anos e foi ainda o primeiro furacão superior à categoria 3 a atingir os Estados Unidos em 12 anos, quando o Wilma varreu o estado da Flórida. No mesmo ano, o furacão Katrina inundou quase toda a cidade de Nova Orleães, no estado do Luisiana, e matou mais de 1800 pessoas. O director da FEMA refere que o Harvey “é completamente diferente do Katrina”. “É um evento único”, garante.

Sem luz e com água pela cintura

Em Houston, a quarta maior cidade dos EUA, mais de 220 mil pessoas estão sem electricidade em casa. Durante esta semana, as escolas e lojas foram encerradas e os voos foram cancelados em dois dos aeroportos da cidade: o intercontinental George Bush, um dos mais concorridos do país, e o aeroporto William P. Hobby.

Para ajudar no resgate dos milhares de texanos que se encontram cercados pela subida das águas, foram mobilizados mais de dois milhares de operacionais de socorro, 20 helicópteros e cerca de 60 embarcações e veículos anfíbios, segundo informou o governador do Texas, Greg Abbott. Os habitantes foram aconselhados pelas autoridades a não saírem à rua e a procurarem abrigos nos telhados e não nos sótãos das suas casas. Foram ainda disponibilizados vários abrigos de emergência para quem teve de fugir à subida das águas e há equipas médicas também prontas a actuar.

Ainda assim, o Washington Post noticia que as autoridades não conseguiram dar resposta aos milhares de pedidos de ajuda, o que levou muitos a recorrerem às redes sociais para procurar (e oferecer) o apoio possível.  

Nas redes sociais são também partilhadas imagens de salvamentos, de animais em apuros ou do nível das águas, que em alguns sítios chega à cintura e noutros cobre carros por completo.

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Jose Rengel, de 47 anos, trabalha na construção civil mas ajudou nos trabalhos de socorro na cidade de Dickinson, a sul de Houston, perto de onde vive. “Tenho a sorte de não me ter acontecido nada de grave, mas estas pessoas perderam tudo. E continua a chover”, disse à Reuters. “A água não tem para onde ir”.

Esta tempestade expôs a vulnerabilidade da cidade de Houston, que se encontra pouco acima do nível das águas do mar e numa zona (o Golfo do México) de instabilidade meteorológica, o que já causou vários episódios de cheias na zona.