Diana, uma princesa televisiva

Este domingo, a princesa está por todo o lado — na semana dos 20 anos da sua morte, volta a tentar-se perceber o fenómeno Diana e o transe global após o acidente que a vitimou.

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Este é o ano de todos os documentários sobre a princesa Diana de Gales, há 20 anos vítima de um motorista inebriado, da febre dos paparazzi e estrela da cultura de celebridades emergente. Ainda os telemóveis não eram um objecto massificado e a Internet era um terreno de cobertura jornalística titubeante e já a imagem de Diana, a vida de Diana, as viagens de Diana e as desventuras de Diana cristalizavam o que foram os anos 1980 e 90 e o que viria a ser o século XXI do culto da partilha constante aliado à obsessão por uma “estrela”. “A sua tragédia estava localizada no espaço entre as suas capacidades humanas e as exigências do papel sobre-humano que lhe era exigido que cumprisse”, escreveu Hilary Mantel, e parte delas habitava exactamente o espaço mediático e, em particular, o televisivo.

Esta semana, e já a partir deste domingo, continua a esmiuçar-se Diana. Diana ícone de moda é o primeiro — há uns anos, no museu Victoria & Albert, uma exposição dedicada ao estilo de Grace Kelly mostrava profusamente Diana. São raras as mulheres como elas. É a deixa para Diana: Designing A Princess, que passa este domingo às 16h30 na BBC World News (disponível nos pacotes de televisão por subscrição), documentário da BBC2 feito a propósito da exposição no Palácio de Kensington sobre a moda e a princesa. Nele, a jornalista Brenda Emmanus mostra os vestidos, o sentido de estilo e a evolução da rapariga loira atirada para debaixo dos holofotes na década de 1980 até se tornar na mulher que se vestiu de vingança quando o marido admitiu tê-la traído e na emblemática mulher a preto e branco fotografada por Herb Ritts e Mario Testino.  

Noutros canais, todos da TV por subscrição, estão para já programados também para este domingo Princesa Diana: na Primeira Pessoa, às 22h30 no National Geographic, à base das entrevistas de Andrew Morton, e no M6 um mais sensacionalista Mort de Diana: L'Incroyable Révélation, que promete mais uma vez “novos elementos” sobre as circunstâncias da sua morte (também este domingo, às 16h30); na mesma linha, a RTL emite Diana — Die größten Geheimnisse der bekanntesten Frau der Welt (Diana — O Maior Segredo da Mulher Mais Conhecida do Mundo), prometendo uma “entrevista íntima” e “imagens tocantes” (18h05).

Um dos títulos mais discutidos deste 20.º aniversário da sua morte foi aquele que foi para o ar, em Portugal, na SIC há três semanas — Diana, a Nossa Mãe, produzido pela ITV e em que os filhos falam pela primeira vez da mãe e sua morte, exibido no Jornal da Noite do canal de Carnaxide. Por ver em Portugal, para já sem anúncio de transmissão nos canais BBC presentes na oferta portuguesa nem pelos generalistas, fica a estreia absoluta de Diana, 7 Days, da BBC One, também este domingo no canal britânico às 19h30. Os príncipes voltam a falar, juntamente com o então primeiro-ministro Tony Blair e outros familiares, sobre uma semana quase global, que o cinema já ficcionou com a perspectiva d’A Rainha, uma espécie de antídoto ou antítese ao estado nacional britânico e à hipnose mediática mundial.

“O seu funeral foi uma enchente pagã”, escreveu em 2013 Mantel, escritora britânica premiadíssima que reflecte frequentemente sobre a história do seu país. Diana, 7 Days pretende explicar a origem da obsessão por Diana, a relação com a monarquia e como o país mudou, agora rememorando os seus mortos e o seu império (com, note-se, uma nova empreitada sobre a instituição da parte de Peter Morgan, uma década depois de A Rainha e desta feita no Netflix com a série The Crown).

Como resumia há dez anos o colunista Jonathan Freedland, “ao contrário de Marilyn Monroe, não há filmes; ao contrário de Elvis, não há canções” após a morte de Diana. “Durante 17 anos ela foi a estrela de uma novela irresistível e que encontrou um público global. A sua morte súbita foi chocante, mas, para muitos milhões, o que tinham perdido não era tanto uma pessoa real mas uma personagem querida numa história. Fizeram o luto mas depois continuaram — para novas novelas, novas celebridades, novas heroínas.”