Crítica

O optimismo militante e lúcido dos Tribalistas

O lançamento, súbito, foi como uma aparição: os Tribalistas estão de volta, com o som de sempre e ideias mais amadurecidas, a merecer aplauso.

Os Tribalistas: Carlinhos Brown, Marisa Monte e Arnaldo Antunes
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Os Tribalistas: Carlinhos Brown, Marisa Monte e Arnaldo Antunes MARCO FRONER

O som não engana: é o deles. As músicas também não: têm a marca de memórias e harmonias reconhecíveis, facilmente cantáveis, colando-se como ímanes ao ouvido. Mas, se a fórmula se mantém, não há repetições no resto. Quinze anos após o sucesso absoluto, no Brasil e fora dele, do seu disco de estreia, Tribalistas (de 2002), o supergrupo formado por Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte volta com um novo disco. Nome: Tribalistas, como o primeiro, sem outro sinal a distingui-lo.

Revolvendo-se na “placenta do planeta azulzinho”, para citar uma das frases do disco anterior, os Tribalistas voltam a cantar amores mas, como o planeta está menos azul e mais cinzento, cantam também revoltas e dores. À sua maneira, ou seja, optimistas mas lúcidos. E não será por acaso que o disco (que esta sexta-feira ficou disponível nas plataformas digitais, desconhecendo-se ainda a data em que terá lançamento físico em Portugal, pela Universal) abre com Diáspora. Tal como Chico Buarque, que no seu recentíssimo disco abordou o fenómeno em As Caravanas, também Diáspora sintetiza o drama dos refugiados com palavras certeiras: “Atravessamos pro outro lado/ no rio vermelho do mar salgado/ nos center shoppings/ superlotados/ de retirantes/ refugiados”; e, mais adiante, o desespero das perdas e separações: “onde está/ meu irmão/ sem irmã/ o meu filho/ sem pai/ minha mãe/ sem avó/ dando a mão/ pra ninguém/ sem lugar pra ficar” O “where are you” que se repete na língua transversal, o inglês, tanto ecoa esta busca como a de Deus, no meio de tudo isto: “Onde estás/ meu senhor/ onde estás?/ onde estás?” E a pergunta cola-se à que Castro Alves (1847-1871) formulara há mais de um século, no seu poema Vozes d’África: “Deus! Ó, Deus, onde estás que não respondes?/ Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes/ Embuçado nos céus?” Não é só Castro Alves; os Tribalistas também convocam para esta Diáspora as palavras de Sousândrade (1832-1902), em Guesa (e com elas abrem a canção e o disco): “Acalmou a tormenta, pereceram/ os que a estes mares ontem se arriscaram/ vivem os que por um amor tremeram/ e dos céus o destino esperaram." Os mesmos céus que se mantêm silenciosos aos apelos de salvação terrena dos migrantes.

Se Diáspora soa como um clamor, dilacerando a doçura tribalista, a canção seguinte, Um só, é uma declaração de igualdade (na vida, nos actos, nas culpas) na diferença: “Somos comunistas/ e capitalistas/ somos anarquistas/ somos o patrão/ somos a justiça/ somos o ladrão”; ou “Somos todos eles da ralé da realeza/ somos um só, um só/ 1 2 3, somos muitos, quando juntos/ somos um só.” Um disco político? Não. Mas socialmente lúcido. Quando reflecte sobre o indivíduo e sobre a sua existência social (como em Fora da memória e também em Ânima: “eu caí numa placenta/ no fim dos anos sessenta/ no hemisfério sul ocidental”) ou sobre as lutas das novas gerações, por exemplo as dos estudantes em defesa das suas escolas e do ensino, até com ocupações. Só o título parece um manifesto: Lutar e vencer. Mas não é uma canção panfletária. Referindo as ocupações (“temos suprimento/ temos provisão/ nosso acampamento/ nossa ocupação”), sublinha a diferença entre a atitude da actual geração e a das anteriores. Diz: nós temos víveres” e “nós temos líderes”, mas diz também “não temos ídolos/ os velhos ídolos” e “não temos símbolos/ os velhos símbolos.” Eis, assim, a tal nova geração: “Temos emergência/ de revolução/ temos consciência/ e educação”.

Quem procurar amores vai também encontrá-los aqui, neste volume dois de uma experiência que mantém e explora com mil e um novos pormenores a mesma distintiva identidade sonora. Oiça-se, por exemplo, Aliança (“véu e grinalda/ lua de mel/ […] ninguém mais feliz/ que eu e você”) ou Feliz e saudável, mescla de briga amorosa e puerilidade, talvez a canção mais frágil do disco. Ao contrário dessa oração a um dos bens mais preciosos do planeta, tão desperdiçado e maltratado por tantos, a água, em Baião do mundo: “Água pra mim um pingo d’água […]/ preciosa/ milagrosa/ vem, regai por nós/ vai, corrente/ da nascente/ até chegar na foz/ enche o pote/ enche o pote.”

Ficaram propositadamente para o fim as duas canções onde o nome de Carminho surge junto aos do trio, como co-autora: Trabalivre (uma brincadeira, séria, em torno do valor do trabalho e do seu significado humano) e Os peixinhos (onde Carminho também canta e toca), tema de uma leveza quase etérea a fechar o disco, qual antítese sonora do tema de abertura, a dramática e dilacerada Diáspora. Para esquecer o drama? Não, para voltar atrás e encará-lo com uma visão de futuro. Numa entrevista colectiva divulgada a título promocional pela editora, onde os três conversam com o produtor, compositor e escritor brasileiro Nelson Motta, Arnaldo Antunes declara de forma categórica: “Somos optimistas”; Carlinhos Brown diz que, de alguma forma, também eles são “retirantes”; e Marisa Monte, falando da criação artística partilhada, afirma: “Acho que o nosso processo é leve. A gente procura manter esse prazer, essa alegria." Uma alegria que se sente nos registos fonográficos e se confirma, ampliando-se até, nos vídeos de cada uma das canções (além do CD, neste momento sobretudo em venda digital, há também um DVD deste novo trabalho). É isso que, de certa forma, caracteriza o som do grupo, como se percebe pelas palavras de Arnaldo na referida entrevista promocional (não haverá outras, assim como não houve um lançamento oficial com imprensa envolvida): “É engraçado como a música dos Tribalistas tem uma personalidade própria, que eu não faria no meu trabalho solo, nem Marisa, nem Carlinhos. Tem uma cara, uma linguagem ali que a gente mesmo se surpreende quando ouve o que gravou.”

Produzido por Marisa Monte, co-produzido por Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Alê Siqueira e Daniel Carvalho, este segundo Tribalistas foi gravado no Rio de Janeiro entre Março e Abril de 2017 e nele participaram, além da portuguesa Carminho, Cézar Mendes, Dadi, Pedro Baby e Pretinho da Serrinha. O resultado final é um disco onde até o peso tem leveza e onde se imprime, de forma definitiva, uma sonoridade que, gerada por um trio criativo que é também um trio geográfico (Arnaldo, paulista; Carlinhos, baiano; e Marisa, carioca), é por si só já uma identidade. Daí o nome do disco ser apenas Tribalistas. Toda a gente sabe o que é. Bem regressados!