Crítica

Avey Tare: como o sol nascendo no horizonte

Ao longo de uma hora e quinze faixas, Avey Tare cria música de vigília.

Ao longo do álbum vamos caminhando entre o concreto e o abstracto, entre a música ambiente em movimento livre, os esquissos de algo que nunca veremos completo...
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Ao longo do álbum vamos caminhando entre o concreto e o abstracto, entre a música ambiente em movimento livre, os esquissos de algo que nunca veremos completo...

A música que aqui ouvimos, explicou David Portner, ou seja, Avey Tare, o músico dos Animal Collective, foi inspirada pela mudança para a Califórnia e criado entre um quarto iluminado pelo sol da tarde, pelas horas em que surgem no horizonte os primeiros raios de sol e pelos céus amplos que agraciam a paisagem do Big Sur. É o álbum que, no catálogo a solo, sucede a Down There, de 2010, e a Enter the Slasher House (2014), gravado com os Avey Tare’s Slasher Flicks (completavam a banda Angel Deradorian, a ex-Dirty Projectors que é uma das convidadas de Eucalyptus, e Jeremy Hyman). É um álbum que não devemos ouvir tendo em conta essa genealogia. Eucalyptus vem de mais longe, dos tempos em que os Animal Collective pegavam em instrumentos acústicos, envolviam-nos em matéria cósmica gerada electronicamente e perseguiam bordões, novos tropicalismos e folk sem tempo para expressar um maravilhamento que poderíamos classificar, à falta de melhor expressão, como animista.

Ouvimos Eucalyptus e pensamos especificamente em Sung Tongs, o álbum que os Animal Collective editaram em 2004. Não por Avey Tare tentar recuar a esse passado que ajudou a construir, mas por reconhecermos nele uma sensação de maravilhamento semelhante. Ao longo de uma hora e quinze faixas, Avey Tare cria música de vigília, reúne e sobrepõe sons que organiza em canção, pega naquilo que gravou em bruto, curtas melodias à guitarra acústica, e transforma-as, distende-as, dá-lhes um corpo que as torna mais próximas do sentimento que terá atravessado o momento da criação.

Com o apoio de Josh Dibb (um dos fundadores dos Animal Collective) na produção, Avey Tare põe a guitarra em movimentos concêntricos, sobrepõe-lhes apontamos de sintetizador, found sounds, orquestrações como discreta cenografia, auto-harps para encantamento. “On the top of morning came / silver dagling rain” são as primeiras palavras do álbum, as de Season high. Estamos no sítio certo, observando demoradamente. 

Ao longo do álbum, ouvem-se canções de corpo inteiro, como Ms Secret, com as vozes harmonizando e a guitarra slide a acentuar o tom onírico da balada folk que se revela na génese da canção: “we gotta stay up until the sun rises / talk about the old times”, canta, “now I’m just waiting for a day I’ll never know”, canta quase no fim. Ao longo do álbum, vamos caminhando entre o concreto e o abstracto, entre a música ambiente em movimento livre, os esquissos de algo que nunca veremos completo e o momento em que a divagação se torna discurso antes de divagar novamente — Jackson 5 é canção solar com abençoada ingenuidade infantil, PJ é sussurro nocturno, balada negra e misteriosa com sons latinos a bruxulear na distância.

Eyvang Kang (que colaborou com Joe McPhee, John Zorn ou com os próprios Animal Collective) é o orquestrador, Angel Deradoorian junta a sua voz a alguns temas. Avey Tare despedir-se-á: “Gonna say I’m thankful that all the years passed away / Avey, give me wisdom of your many years to come”.  É o momento em que começamos lentamente a despertar, agradecidos, maravilhados.