Opinião

De Chico Buarque a Charlottesville

Há um caminho que vai de Chico Buarque a Charlottesville, e que é rapidamente percorrido por todos aqueles que querem higienizar a História e suprimir discursos ofensivos.

O meu texto sobre o suposto machismo de Chico Buarque nunca teve o objectivo de impor um pensamento único sobre as letras das suas canções. Ouvi este argumento: se cada pessoa tem direito a dizer o que lhe apetece, e se eu defendo tão fervorosamente esse direito, porque estou incomodado com uma simples opinião? De facto, não são as opiniões isoladas que me incomodam. O que me incomoda é quando milhares de pessoas convergem para alimentar as chamadas “políticas de identidade”. A alegada protecção dos grupos historicamente desfavorecidos está a traduzir-se numa vigilância obsessiva da linguagem e dos costumes, com consequências tragicamente opostas ao pretendido: em vez de promovermos sociedades mais tolerantes e abertas à diferença – mais liberais, se quisermos –, estamos a promover sociedades cada vez mais radicalizadas, como se começa a ver um pouco por todo o lado.

Ontem, o meu colega de página Rui Tavares – que eu muito prezo por ser um dos dois opinadores à esquerda do PS (três, no máximo) que não fala sobre a direita numa posição de superioridade moral – criticava-me por eu ter dito que estamos “num mundo onde as palavras estão sob uma vigilância que já não se via desde os tempos da Inquisição”. Rui Tavares considera que exagero, e dava como exemplo o facto de haver gente que era presa em Portugal no século XVII por “varrer a casa ao contrário”. Mas exagero mesmo? É claro que ninguém é preso neste país por dizer o que lhe apetece, nem eu disse que era. O que disse – e mantenho – é que a vigilância verbal está a atingir níveis delirantes, sobretudo nos círculos universitários e culturais anglo-saxónicos, e que tenho genuínas dificuldades em encontrar paralelo histórico para tal obsessão fora dos dispositivos inquisitoriais e confessionais.

Quem leia a imprensa esbarra diariamente nos exemplos mais absurdos, que diferem muito pouco de varrer a casa ao contrário. É o metro de Londres que decide abandonar o “ladies and gentlemen” para não ofender quem não se considera nem “lady” nem “gentleman”. É a adição de pronomes alternativos para quem não se satisfaz com o “she” ou o “he” (e que inclui tanto o patusco “ze” como o uso do “they” na terceira pessoa do singular para quem tem “género flutuante”). É a petição para que o antirracista To Kill a Mockingbird seja retirado das escolas da Virginia por conter palavras racistas. É a praga da “apropriação cultural”, que considera desadequado o uso de penteados rastafari por quem não é jamaicano, que uma criança branca se disfarce de índio, ou que o sushi seja consumido em cantinas americanas. É o frenesim da remoção de estátuas confederadas, que começa a ter réplicas por todo o lado – Afua Hirsch defendeu há dois dias no Guardian que o monumento ao almirante Nelson, que classifica como “supremacista branco”, deveria sair de Trafalgar Square.

O problema é que a falta de bom-senso, a descontextualização histórica e o desvario linguístico são o combustível que tem alimentado a fogueira da alt-right americana, os racistas do Ku Klux Klan e os bandos de nazis que começam a sair do hospício. Chamar “supremacista branco” a um herói britânico que morreu em 1805 é uma prenda magnífica para os supremacistas brancos de 2017. Há um caminho que vai de Chico Buarque a Charlottesville, e que é rapidamente percorrido por todos aqueles que querem higienizar a História e suprimir discursos ofensivos. Ironia das ironias: em nome da tolerância, é a intolerância que alastra.    

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